19.12.09

Fractal Familiar em Dois mil e Nove



Dois mil e nove ficará na minha vida como um ano de superações e desafios. Não é mais possível precisar quantas palavras passaram por meu corpo e desencadearam minhas mãos a rendar. Um ano de preceitos precisos e missão amorosa permanente. Ano de grandes conquistas internas, como à própria palavra, empenho sereno em busca de auto-teto para tornar-se Lar. Neste final de ano às últimas pedras foram sendo arremessadas com tal violência que por um momento vacilei, pensei em largar do cais, partir em bote único, alongar-me por aí, poluir, queimar tudo. Imaginem-se sós, ao sair da teia, camuflando-se à multidão, ser gota de oceano, migrar como grão para outras paragens, partir, devanear, romper barragem. Mas para a mágoa não poder tornar-me mais cruel terei que nadar num mar de destroços cortantes e seguir caçando os fragmentos. Tento buscar na minha memória seus rostos alegres e suas palavras de bater panela em noite escura, lembrar do meu confiar, das casas todas, dos cheiros, dos cães, das árvores, de nós. É necessário alertar minhas células destes desenganos e permanecer fiel a meus laços, minhas lembranças, minha alegria. Mais dói, dói, dói, dói... Às vezes é difícil me mover e a produção dos compromissos vai levando-me a loucura, à terra árida de erosão sem retorno. Uma guerra é capaz de transformar soldados de virtudes em pequenas maldades ditaduras e lentamente vou vendo-os todos se afogarem em desafetos e isolarem-se ilhas. Cegos não desejam mais saber de minha presença e lançam suas granadas de rancor deixando-me assim mutilada e triste. Como separar o passado do presente sem beber tantas gotas salgadas e roladas... Jamais poderia imaginar ser confundida de transparente para invisível pela própria origem carne. Como Pequeno Príncipe crendo “que o essencial é invisível aos olhos” e que somos responsáveis pelo que cativamos sigo pelo planeta. Alguma maneira de olhar sem cisco pode me aparecer a qualquer momento então fico como coruja a espera do despertar de cada um dos meus, dos nossos. Penso em que isto tudo pode oportunidade única, vantagem de quem não espera mais ser reconhecida pelo que faz, mas isso eu também já entendi que é uma guerra que só se passa aqui dentro, quando se é. Foram duas mil e nove guerras travadas e vencidas, se é que alguém ainda acredita que vencer significa alguma coisa por aqui. O planeta que se despede deste ano em Copenhagen sem cooperação, sem futuro, sem afetos e acordos. Será o fractal da família azul se revelando na minha ou a minha se espelhando na nossa. O mágico, que tanto admiro, quando disse ao pai: “os opostos se distraem” recebeu a gloriosa resposta: “então os dispostos se atraem”. É, seu Odácio, que meu aquecimento, como o do planeta, não seja irreversível, pois como nosso presidente falou: “... se a gente não conseguiu fazer até agora este documento. Eu não sei se algum anjo ou algum sábio descerá neste plenário e irá colocar na nossa cabeça a inteligência que nos faltou até a hora de agora”. Aos meus presentes ausentes! Ao princípio do fim! Ao fim de um ano sem acordos rumo a 2010! Onde desejo conflitos mais amorosos, presentes contentes e parágrafos curtos! A espera de um milagre chamado nós, diretamente no nosso lar azul,
Lua
“cativa-me!”

9.12.09

Lá vem meu irmão


Amanhã meu maninho vem nos ver com sua família, que saudade deste menino-homem. Se fecho os olhos para estar passado é raro não ter sua presença e impossível meu não emocionar. Dedo no nariz, bota apertada, G-shok, Atari, dip-lik, lazzanha, frango xadres, guaraná, skate, bicicleta, fulga do ganso, goleiro, piadista, imitador de kiko, bilão, dançarino, farrista, amigo, glutão, malabarista de cabaré, cineasta, paizão, enfim, lá vem ele transformando-se sempre, mais que tudo que possa fazer-se lembrar, apenas espírito caminho luz. Conviver com ele torna-nos sempre melhor. Tô te esperando querido!

8.12.09

Mar absoluto



Cecília Meireles já havia respondido a Mar, antes de Mar poetizar a Lua, hoje no dia de Iemanjá. Como diria Drummond, calo-me repleta.

Mar absoluto
Cecília Meireles

Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.


Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.


E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.


E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.


E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
"Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!"
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-mos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.


Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.


O alento heróico do mar tem seu pólo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.


O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.


Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.


Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.


Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado, cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.


Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.


E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.


Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.


Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.


E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.


Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.


E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.


E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.

Lua quando míngua

Segue o melhor presente que já recebi de minha amada amiga Marina Pompéia, acho que me conhece melhor que ninguém. A quem amo além das estrela, além Mar, além Lua



Lua quando míngua, sofre

É de sua natureza, em cada ciclo uma vida inteira.
De sua natureza também é entregar-se por completo,
inteira e intensa no seu próprio movimento de morte e vida.

Sabe-se que Lua se percebe inteira e radiante no céu
voo solo,
mas se maravilha ao espalhar sua luz refletida...
iluminar o rosto rubro de menina na hora do beijo,
apontar o caminho aos peregrinos noturnos,
servir de farol aos navegantes,
ser a musa dos poetas
divindade merecidamente cultuada por tantos povos.

A míngua fica toda vez que o movimento de recolher-se se impõe, impiedoso.
Seu esplendor pleno, Lua iluminada, diva no céu
dá espaço para a sombra que se projeta, lhe escurecendo o brilho, a carne e a razão.

Ao mesmo tempo dor, desprendimento e mergulho
pois abre o corpo à sombra e entrega seu brilho ao céu,
a promessa do frescor, do novo, do renascer-se em luz
do eterno movimento que a liberta do tédio profundo das coisas iguais.

Mas este momento de míngua tem seus caprichos;
as vezes as nuvens que, delicada ou fervorosamente a protegem e esconde nesse movimento
se retiram, as vezes displicentemente sopradas por uma brisa morna,
as vezes violentamente impelidas por ventanias de sul.
Neste último minguar, ainda ao achar-se em pela metade e desmilinguindo
percebe seu reflexo nas águas do Mar,
não enxerga mais o brilho da sua luz refletida nas Flores,
se revolta; transborda de raiva, ardor, terror. Fim.
É sempre fim o movimento de minguar
e sempre rebrotar

Passada a dor e a loucura do desfazer-se, vem a quietude.
Mergulha inteira no escuro, quase conforto
um sono profundo que a abate para rever-se em sonho.

Fica nova. Lua Nova, emprestando o palco às estrelas
divertindo-se em silêncio com os vagalumes, estrelas na Terra

Seu brilho inicia o retorno, e vem, criança chegando em festa
novamente alegria e travessura, retomando seu espaço
ocupando novamente o lugar que lhe pertence.
Até ficar plena, cheia e transbordante
e retomar seu ciclo.

Essa é sua natureza!!
Diferente da natureza de Mar, de Flor, de Sol,
cada qual com seu percurso de vida, morte, renascimento.
Intrinsecamente ligadas em sua essência
é da natureza dessa existência também experimentar seus ciclos
na certeza de que, o renascer de cada uma só fortalece a vida
a ligação, a beleza de sermos UM
uma ecologia inteira.

Marina

Chão conquistado




Espada sã
Locomovo-me
em velocidade
Como vento,
Terra e Sonhos
Passa rápido
Urgente
Levanta e sua
Arranca solo
Arrepia
Grita
Pulsa
Salta
Crava consciência
Valsa melodia
Inteira, pura.
De vez única
Eu e minha terra
Um mesmo pó
Um mesmo nó
Boca escancarada
Escárnio de loucura
Duplo etério
Terráquia
Solar
no Lar

7.12.09

Classificando Óbitos


A família, depois que desmembrou-se pelo território nacional, passou a estar pouco tempo presencialmente. Nestes encontros, não poderia lhes faltar a famosa seção obituária, entre uma torta de ricota doce e um bolo de milho, versavam sobre às vidas que se iam, conforme os anos passavam, a seção ia se tornando maior, morriam de medo de tomar todo o tempo. Usavam os mortos para lembrarem dos por menores e não raramente caiam no riso quando se encontravam com o passado, longos tempos, onde juntos dividiam o cotidiano e amavam-se firmemente. Era curioso, descreviam geograficamente os caminhos que percorriam ao falar dos outros, sempre diziam de fulano da rua tal, filho de beltrano que se mudou para além, que pena, morreu... Quando tinham um segredo era nesta hora que partilhavam, iam classificando os personagens e caçavam um por um para recomporem-se. Só desviavam dos obituários quando em situação de enfermidade, talvez, estes fossem os próximos e era melhor trazê-los rapidamente à tona. Só poderia ter uma explicação para esta naturalidade mortuária que os guiavam pela história, eram eles meus eternos.

escrito em 05/08/09

Mães



Sabia que todos desejavam o menino, mas gestava a mulher sem ter dúvidas, o pai com certeza não iria gostar, muito menos o marido, mas ela sabia até a cor dos cabelos de sua filha, esperava ansiosa. Guardava em si os tensos momentos da fuga em sua mãe. Viviam com muita dificuldade, valia a sobrar e a primeira continuada iniciando falar, trabalhavam sem cessar. Longe das irmãs e da mãe, quando houve o primeiro pequeno escape, desesperou-se em silêncio foi um momento de solidão cortada que ficaria marcado no corpo de ambas para sempre, ainda teriam que coexistirem por cinco meses e a cada escape mais o pânico invadia o ar. Nos últimos três não teve mais jeito, enquanto o marido estava fora, saiu um pouco mais do que o de costume e teve que às pressas procurar, na sua solidão, o médico da cidade, teriam que ficar em repouso absoluto até à hora da chegada. A menina nasceu com a estrela, como disse quem a tirou, de cara para o mundo, verdadeira, cheia de coragem, e os olhos, ah! E os olhos... A mãe emocionou-se quando a viu, o próprio pai, sim, a doce continuada. Com a filha desta, da doce continuada, também não foi diferente, ainda mais por acreditar que a própria mãe não a havia desejado deste gênero. Como conduzir este efeito sobre a própria, de forma certeira, não podendo haver dúvida, ou a loucura da antiga sensação poderia retornar. Por decreto, tudo azul foi definido. O corpo à pressão do caos foi colapsando ambas e de forma abrupta, a menina estimulou a aceitação do outro, do pai. A doce, da doce continuada, sentia dores profundas e sabia, em seu corpo, que também causaria a mesma cara pálida de não ser do gênero certo. O irmão desta teve outra sorte e também teve sua continuada, com esta também não foi diferente, a mãe também acreditava não poder ter laços intrínsecos com mesmo gênero e tal crença a levou aos escapes, a doce do doce da doce continuada quase não suporta a perda de tanto e às pressas foi retirada antes do tempo de seu teto. Existiam em seus corpos os registros tatuados de todas elas, em seus contínuos tetos, o tolo medo de serem rejeitadas por não serem o que não deveriam ser, às levaram a crer que haveriam de agradar, ou lutar contra isto, suas vidas inteiras até que aceitassem-se livres e integras para construírem os próprios tetos amores e não sobrasse mais espaço para o medo em vão.

feito em 09/09/09

6.12.09

Encontro Ternura


A pouco estive com a ternura, cada mensagem invadia meu corpo em ondas suaves e lágrimas caiam delicadamente sobre meu rosto. Disse belezas sobre o Universo e nossos corpos, que tudo é composto de cor, número e som, e também, que nossa máquina deve mover-se através do mais puro amor em sintonia com o quarto poder, a força da natureza. Ouvindo as doces palavras fui avaliando meu comportamento e próprio amor, confesso que fiquei feliz com o resultado, com a maneira que nutro meus afetos, com minha sincronicidade com a natureza e, principalmente, por não fazer distinção e nem exigir das pessoas qualidades que elas ainda não possuem. Posso me considerar uma milionária quando olho minhas amizades e vejo que respeito e amo seres tão diferentes. Cantamos juntos e por fim nos abraçamos, todos nós, um por um, dizendo ao pé do ouvido: eu te amo. Saí carregada de uma energia sutil, cheia de esperança e tocada por cada abraço-ternura. Para quem acordou magoada essa foi uma grande vitória. Vamos lá! Como diria a Mari,“quem ta comigo me acompanha!”

Recolher coração


Estamos no final de nossa segunda década e de lá para cá já fomos muitas. + intensas... + presentes... + difíceis... + amorosas...- fugazes... - ariscas... - sutis... De inimigas vulgares à salvadora humanas, sim, nós já fomos todas estas. Nos últimos tempos meu amar loucamente me fez vacilar, transbordar. Estar presente mais que o digerível e deste então minha maneira intensa e exagerada de estar no mundo causa julgamentos desnecessários e oportunidades cruéis. Se assim convém ocupo lugar de algoz e deixo-as + yin ou + vítimas, mesmo quando palavra nenhuma sai boca afora blasfemando verdades. Errar é imperdoável, nem quando se admite e transforma-se folha seca e broto grão. Hoje, meu coração leonino suscitou magoado e aqui permanece jazz. A traição a mim mesma por permanecer ali, disponível, exposta, como Leminski quando dizia “ ...Serei tanto e tudo e todos. Vais ter nojo de eu ser isso. E estarei a teu serviço. Enquanto durar meu corpo. Enquanto me correr nas veias. O rio vermelho que se inflama. Ao ver teu rosto feito tocha. Serei teu rei, teu pão, tua coisa, tua rocha. Sim, eu estarei aqui…”. É... Este estar aqui acabou me rompendo as veias e tornando a digestão trabalhosa. Vontade que às vezes assola de voar, sair por aí esquecendo da importância cotidiana e da dedicação aos afetos. Simplesmente voar, ser ex-estranha como o poeta e partir, como sempre faço, recolher acampamento e marchar com pressa para o estar ponte de si. Lá vou eu de novo, misturar-me à multidão para ver o mar, recolhendo-me em último ato, só.

5.12.09

Loucura frenética de sociedade que se perdeu na briga pelas palavras:




Eu na “ocupação” e você chama de “invasão”;
Você com “mensalão”, eu sem um “tustão”;
Busco “união”, você “solidão”;
Eu seu “irmão”, você meu “patrão”;
E assim seguimos,
distintos de Alpha Beto,
eu sem “educação” e você sem “coração”.
Que tal o “meu perdão” em troca do seu “pão”?
Ho ho ho!!! O “Natal” é nosso!!! Aha! Huhu! O “Natal” é nosso!
Que venha a Copa! À bola da vez!

obs: colagem com fotos minhas e de Antônio Brasiliano

4.12.09

Experiência horóscopoca


Segundo consta a base astral virtual, uma combinação estapafúrdia fez de mim o que restou. Quando o leão foi ascendido pelo touro, não o sentado, obviamente, uma “força muito poderosa, de princípios firmes”, trouxe a minha vida uma rígida, ou ridícula teimosia que me conduz a manter-me no caminho mesmo percebendo que perdi o desvio indicado. Isto explica minha permanência em estados sonâmbulos e em meio burocrático. Não devo me preocupar, pois foram muito claros quando afirmaram que, o orgulho leonino somado a teimosia taurina, darão a força necessária para que uma grande força de vontade surja e assim conseguirei materializar meus desejos. Se entendi bem, obterei a redenção dos dois de meus piores egos e trabalharei como uma mula cega e motivada. Não precisem se preocupar, a firmeza de minha personalidade transmite uma aura tão confiável que terão a certeza de estarem seguros. Após detalharem cada trágico trajeto destino apontaram “meu defeito natural”: a preguiça. Aí perdi as estribeiras, além de ser uma mula cega e motivada sou chamada de “mula preguiçosa, sô!”. Minha alma Saltimbanco saltou aos pulos: que que tão pensando? Que sou a velha malandra da praça que trabalha e trabalha de graça? E não é que acertaram mesmo! Ah! E tem mais, não foram “sós” meus egos que apontaram não. Sabe o que disseram de alguns de vocês? Que muitos têm inveja! Não se preocupem, segundo meu guru e amigo Fausti, já quase Dr. Fausto, só tem “in-veja”, quem pôde “ver-dentro” e já pode ser e ter o que desejou. É isso aí, quem in-vejou se deu bem! Eu não, pelo visto tenho que carregar “o pão, a farinha, feijão, carne seca, limão, mexerica, mamão, melancia, a areia, o cimento, o tijolo, a pedreira”, enfim, Hi-hooooooooo!

Pequeno Dicionário de Deslirações




Pequeno Dicionário de Deslirações, um trabalho da artista Cibele Lucena, um livro-lugar-blog onde podemos “deslirar”, como o movimento do lírio rumo ao pólen, para dentro de si mesmo. A construção de um espaço para a liberdade de dar nomes, sem tirar os pés do chão e mesmo assim, alcançar as estrelas. Oportuno momento de reflexão ante a reforma da própria língua em sua proposta de unificação. Um convite è própria “desliração”, ao sutil, ao canto dos pássaros, ao “passarares”. Enfim, uma poesia-objeto fruto de um processo de “solitação” que vem para “presentificar” a “iluminança”. Onde temos a plena certeza que “confianto” podemos “passarar”. Às “delirirações”!

algumas de minhas preferidas:

Solitação

So.li.ta.ção (lat solitactione) sf 1 Faculdade ou exercício de resguardar o poder da solidão; 2 Modo peculiar de ação: dar passagem aos lugares fixos é um outro lugar para se ir; 3 Título de percepção sutíl: fica decretado que o silêncio está sempre à disposição; 4 Maneira como podemos ser, em interação.
do pequeno dicionário de deslirações 0 Recados


Pre.sen.ti.fi.car (lat praesentificare) vint 1 O estado presente do corpo no espaço e no tempo; 2 Abertura sensível para relacionar-se com densidade; 3 Inventar formas singulares de existência; Afirmação do dissenso; 4 Ato de ignorar recomendações gerais e protocolos; 5 Mobilidade interna; colocar-se disponível; 6 Não reduzir a si próprio nem a outrem; ser; 7 Não lutar contra o vazio; sentir-se; 8 Estado manifesto de criação; inevitável metamorfosear-se; 9 Ter um par de asas.
do pequeno dicionário de deslirações 0 Recados

visitem o pequeno dicionário de deslirações: http://pequenodicionarioilustrado.blogspot.com/

Meu presente-desliração à artista Cibele Lucena:

Renascer nos custa, quase que invariavelmente, tudo. Quando acontece é sempre uma luta ao destino despego. Fecho os olhos e lembro de ti assim, floresta integra, o querer e saber estar em si, sempre amanhecendo, possuída de amor e entrelinhas sutis. Seu esforço por humanizar-se é vigoroso e, como sabes, muitas vezes à mim inútil, esta minha maneira de te olhar transparente é mesmo de abraço na ponta dos pés ou o bater asas borboleta chapada. Te ver transformar a terra e encarnar planeta me trás sensação Fumaça, força jato que chega gota, aquilo que é seu não pode ser tirado e o espaço o é em Ci. Outro permanece ainda, um lapso presente não causa rupturas passado e sim erupções futuro. À morte sensação realiza impermanência , aquela em que água-coca brota silenciosamente e por fim vai carregando montanha. Espero que momento tromba d’água seja cumprido no horizonte amor, quando a Sol se põe e voa. À chapada sensação, onde tudo que acontece dentro transborda fora e o que se move fora penetra dentro, ao ser e estar em si. Ao amor e ao enfim, assim, trans lúcida, transparente.

“Abra as portas e as janelas, por favor, que o pior da tempestade já passou”



Chovia tão forte dentro que o temporal do lado de fora não podia me assustar. A cidade estava congelada sob raios e baldes d’água que caiam sem cessar. Éramos idênticas em meio a caos e pânico. Do alto da torre minha visão era privilegiada, ou pelo menos, a melhor que se pudesse ter em meio tempestade. O meu eterno aguardar ensejava acabar ali, entre passadas abruptas e espasmos febris. Seu atraso foi providencial, uma espécie de punição antecipada, quase medieval; tortuosa. Então, como que em câmara lenta, deu-se início o balé, um esquivar-se sem tamanho que acelerou ainda mais as gotas de fora. Sob pingo fui vendo o descompasso do tempo, lá estava a casa, no lago, em maré cheia. As palavras corriam em rédias curtas e os corpos quase que imobilizados começaram a ferver, evaporar, queimar, enlouquecer. Não seria possível transpor o que estava escrito e para estes o real era desafio quase intransponível, sem tamanho. Embrenharam-se em direções opostas na chuva, já mansa e triste, e perderam-se pela cidade alagada, retida, cheia de tudo, atolada, arisca. Lá vai ela, como eu, soberba impermeável que foi carregada por tromba d’água ao coração humano, ou melhor, urbano. Para receber alguém terei que sair do alto da torre, desobstruir o trajeto das águas, deixar minha periferia circular, fazê-la florir, cuidar de cada célula como à tronco, sem privilégios, abrindo espaço, alargando avenida, tatuando trens, tornando meu ar respirável, fresco, prazeroso, sutil e estrelado, assim como ela, de megalópole cosmopolita à beira do esgotamento à cidade luz, acolhedora e amorosa. Ah...São Paulo, quanto mais teremos que esperar pelo despertar da consciência de nossos peptídeos? Quando poderemos tornar tufão em brisa e abrir as portas que batem sem cessar? Abramo-nos nuas, sem fronteiras, sem churumelas, sem ordens aleatórias ou “pois nãos”.

30.11.09

Eu borboleta você passarinho



Cruzou os braços no ar e ressuscitou os sentimentos que acreditava estarem extintos, mesmo sem me conhecer passou a me ver por aí. Como mágica uma porção de sósias foram borbulhando no ar, batia as asas ali e logo elas apareciam, efervescência que lentamente o fez divagar e voar ao contrário. Não podia pensar no meu fundo olhar que já o levava ao vacilo e, como que caindo de corrente quente segura, perdia os sentidos e parafraseava o ar em queda abrupta. Um abismo de casa no lago nos fez viver assim, fora do tempo, com asas avessas. Eu, acreditando extinguir-me em presa, ele, fingidor predador de borboletas. No entanto, todos sabíamos que éramos apenas um par de estranhos com tons soberbos, ele nu azul esverdeado, eu verde em folha ao sol. Como separados do ninho nos perdemos em jardim secreto e hoje sou beijaleta, ele, borbo-flôr.

25.11.09

Recuerdos de lolita-me




Já faz um tempo que não perco tempo tentando me definir, lembro-me de movimentos frenéticos que urgiam personalizar a tudo que tocava. Da cor favorita à maneira de expressar-se com ardentes verdades, um querer que não cessava, só de me remeter já sinto o cansar. Quantos “achismos” e barulhos mentais, uma inteligência perversa e brilhante que transformava tudo num chiado fervoroso. Escrevo em busca da saudade, para migrar no tempo, viajar por alguns minutos no remoto e então encontrar onde esta está. Um ser sensual, sem dúvida, que transbordava e como gato, arriscava-se em ser arisca, selvagem. Sinto saudade de suas curvas delineadas e sua sede de vida, disto sim, que saudade desta menina, e do quanto fingia ser mulher. Na dúvida, a lição era logo pronunciada, mantinha-se o charme e ronronava-se deliciosamente. Velas acesas, perfumes e gostos inebriantes, e claro, o que ainda faço sempre, me perder em notas gênio musicais, admirar a arte e tocá-la entre mãos e pés. Sim, to sentindo-a agora, lá vem ela, minha Lolita saudade, agora a entendo, como La Paloma Azul tocada por Paul Desmond, nota por nota, espreguiçando-se em Ipanema, apaixonada, contando grãos, louvando o sol, curvando-se ao infinito e parodiando besteiras, como era bom este meu carnaval. Chegava em casa e corria pela casa, blasfemando verdades e cantando, sempre cantando, cercada de amigos, da família, do ar no mar e seu cheiro de melancia mareada. É, lá estou eu, podendo ser olhada por mim com ternura e saudade. Ah! Se eu pudesse voltar, não tenham dúvidas, “começaria tudo outra vez se preciso fosse”, com cada um de vocês, pois hoje tenho a clareza que parte de mim já é vocês. Com amor da filha, da amiga, da irmã, da prima, da amante, da aprendiz, da menina, Elenira.

De Repente à São Paulo



Meu nome é São Paulo, uma cidade criança, já vivi 455 anos. Homens criam seus ninhos urbanos há muito tempo, os primeiros dizem ter surgido de quinze a cinco mil anos, um pequeno ‘não se sabe quando’ de dez mil anos. Quando viram minha colina, alta e plana, a pele “mui sadia, fresca e de boas águas" foram logo dizendo que tinha "ares frios e temperados como os de Espanha", me senti uma européia, já nasci colonizada, “nova rica”, deslumbrada. Ao olharem minhas veias, cristalinas de antemão, acenaram para baixo e buscaram o portão. Anhangabaú de fronte e Tamanduateí ladrão, como corria translúcida, sem pressa nem posse meu turbilhão.
Engraçado mesmo foi que nunca havia visto tanta gente vestida. Quando calor fazia, era padre que entrava era padre que saía, e assim fui cravada, ponto zero de minha alma na Companhia de Jesus, um sagrado coração. Não tardou sentido fazer e meu coração virou colégio, minha sina: educação. Educação?
Traçaram logo na carne, na tríade de minha ascensão, chamando de vértices os conventos; São Francisco, São Bento e do Carmo. Em 1681, na contagem dos homens, me chamaram de cabeça da Capitania de São Paulo, dei tanta risada. Pouco mais tarde orgulhosos disseram: “agora você não é mais Vila menina, cresceu, já é uma Cidade”. Uma Cidade! Eu sou uma cidade!
Tinha até quartel onde homens vestidos saíam em missões saneadora atrás de homens pelados. Diziam que eram muito diferentes dos outros, confesso que, a não ser pela roupa, demorei a perceber a diferença, moviam-se em bandos atrás de umas pedras, chamadas preciosas, lá pras bandas de sertões, um longe que agora é perto. Cada nome que inventam! Estes eram bandeirantes, hoje sem-teto são.
Em 1895 moravam em mim 130 mil homens, dos quais 71 mil eram estrangeiros. Já se passaram tantos anos e ainda não entendo esta história de “estrangeiro”, se estrangeiro é quem vem de fora, quem são estes que estão aqui? Pisquei rapidamente, e passaram cinco anos, praticamente dobraram de número. Saíram do triangulo no minuto seguinte e de lá para cá me conectaram com o mundo todo, cosmopolita, hoje conurbada e conturbada.
Ganhei linhas de bonde, reservatório d’água e o que mais me emocionou, me “alumiaram” com um tal de lampião de gás. À noite, na penumbra se perdiam em minhas sombras e falava em mil línguas. Bela moça na janela! Era virado paulista que comia lazzanha de mocotó e sonhava com “trigais dançantes”.
Debutei com a Paulista e o chá da construção, viaduto me fez a ponte entre o novo e coração, meu umbigo itinerante. Mais uma virada secular e começa a nossa saga, de leão em leão, o primeiro titulado, tinha nome de patrão, ou melhor, de conselheiro, o Prefeito Silva Prado. Executivo divorciou-se do legislativo, e começa a emoção. Enquanto, Passos rasgava o Rio em Branco, ganhei a Luz, minha estação primeira Railway.
De 1915 pra cá, a moda é um tal de “gueto-seguro”, horas chamam de “bairro-jardim”, ora “Alphaville”. Um tal de americanizar estilo. Tudo isso foi causando muita dor e cicatriz, é problema que não acaba. Rim esquerdo quando inflama, é pior que o Billings, tô na fila do transplante e não implorar. Se não fosse a transfusão Cantareira e mineira não sei onde íamos parar!
Foram me furando tanto que debaixo da saia pareço queijo suíço. Veias entupidas, artérias nem se fala, outro dia a principal parou de vez, disseram ser capote de mais um motoboy, mas era manifestação, tinha gente que gritava: Seu guarda não bate não! É Real, é só família queremos mesmo é habitar. Habitar? Era casa que caia e pobre pelo chão. Realmente não daria pra ficar com o pontão, toda linda, estaiada, palpitava o coração. No jornal só se dizia: motoboy caiu no chão! Entupiu a jugular e carro não anda não! Manifesto sem manchete e mais pobre no sertão.
Automóvel, esse danado, me entope o coração, nem respiro nem cochilo só viário é a razão. Bota plano, dá-lhe ponte e prefeito de freguês. Prestes Maia que faz plano ou o que invade e habita chão. Asfaltada, “espartilhada”, permear não posso não.
Pinheiros, intestino ao contrário, tão dragando a direção, quando enfezo perco logo meu baião. Abusaram! E nem chuva bebo não, cabe só no piscinão ou em copos, já furados, aja visto Cambuçi. De casal abençoado pra penugem no ladrão, esta sina de ser cisne...
Conurbada, minhas irmãs, não perguntam mais se não, vão saindo em contramão na procura do portão. Muitos dizem que sou densa, mas se enganam os que me habitam. São dezenas, já centenas que esperam por morar e a danada desta gente que não tarda de lutar.
Coração, antes sagrado, tem mais ar do que se pesa, uma conta nada exata que não canso de fazer. São milhares de imóveis num vazio de se espantar e centenas de pessoas sem um teto pra morar. Vai pra lá de muitos anos que não paro de contar. Vai família e mais família viaduto habitar. A soma desta conta é mesmo de se espantar.
Tem letrado que diz logo: - essa gente é que atrapalha, tira o pobre e põe a verba que iremos prosperar. Vem empresa, fino trato e imposto, nem pensar! Joga jovem na prisão, põe pivete no furgão e expulsa quem ganha pão. Caí hotel de muambeiro, peruano fujão e terão muita terra pra plantar nesta prisão. Limpa tudo, bem limpinho e de noite tem luz não, de manhã logo cedinho vai passar nosso patrão. Se “Ma puto ou core ano” já abrigo no centrão, por que razão eu teria de pra chineses dizer não?
Outros dizem: - são poetas, argumentam no portão, socializa essa gente que vão ver o que é visão. Pego o oco e taca gente que vai ter a solução.
Tô cansada e gelada, cada vez mais entubada, passa carro, passarada. Se golpeiam como cães e não tardam por penar.
Vamos logo minha gente se levanta e vem brincar! Me ajudem a respirar que não vamos mais tardar. Eu seguro você puxa, “cê” carrega e ela meche. Quando olharem um pro outro ganharão um novo irmão. Antes que a veia arrebente e detone o coração, antes disto, minha gente põe pra fora opinião. Não esqueçam, bem depressa, ponham luz na escuridão.
Afinal este é meu lema: Non ducor duco (Não sou conduzido, conduzo). À condução das minhas próprias vontades e idéias, à desopilação de meu fígado! À minha proposta de alma, ao ser-city, ao habitar-me, ao amor, ao parto de minhas futuras gerações, à sua presença em mim!

23.11.09

Comunhão


Flutuava sobre a terra batida e encerada de tantas gingadas passadas, a luz penetrava pelas frestas do telheiro e ao redor só se via a silhueta dos corpos. Não tinha um único par de olhos que não a fitava sonhando, marejados, seus passos faziam a todos se recordarem, as crianças vagavam livremente sem que houvesse qualquer impedimento para serem, mudavam as flores de lugar. A menina, a mulher e a anciã em uma só presença, a temperança sem pressa de lua, nem resquício de sol. De mãe menininha a Euá, todas ali reunidas em prece num único corpo que transcendia em luz e fé. Os cabelos caiam sobre os ombros nus e esvoaçavam com a brisa que subia pela colina saída do dia que se punha atrás das montanhas, aquele que nunca mais seria o mesmo. O via na perspectiva de sua direção e em saltos seu coração lhe escapava a qualquer jus compreensão, eram apenas as três a caminhar para o encontro de si no outro. Seria através deste estar que se proporcionaria tamanho banquete amoroso, sem pressa, cotidianamente satisfazendo-se de plurais e ardências necessárias. Víamos-nos todos como em câmera lenta, com o vento emaranhando racionalidades e beijando cada corpo emocionado. Quando alcançou sua mão e a puxou para junto de si sentimos o chão nos faltar, o amor tem destas coisas, faz com que o chão, na batida do coração, migre em céu e céu em ser chão, simples assim, como tudo o mais.

18.11.09

O ciclo e a tenda


O ciclo e a tenda
Quando o vi, recém saído da barriga, reconheci entre nós o amor. Suas mãos tão pequenas e enrugadas mal sabiam o que ainda estava por vir, seu próprio viver. Ainda nem abriu seus olhos para ver o vir, está quieto nos braços orgulhosos de sua mãe. O ver dela sim, este está repleto, transbordante, só de cruzar com seus olhos já sinto o arrepio subindo com pressa pela minha coluna. Nosso primeiro encontro foi rápido, pois a próxima visita era de sua própria avó, sedenta por ter nos braços seu primeiro continuado. Voltei com o corpo cheio de vida e esperança, e no dia seguinte, com as mãos tranqüilas, trabalhei o dia inteiro exercitando o meu fazer-se com mais vontade de estar entre nós. À noite, para o meu melhor perceber-me, de moléculas e nacos de ser carnal, estive na yoga por algumas horas em busca de equilíbrio. Voltei caminhando lentamente e observando cada detalhe das ruas por onde passava, algo diferente, como que cotidianamente. Ao chegar, uma notícia que fez com que o arrepio voltasse como que instantaneamente, gelando todo meu corpo, uma pessoa especial havia partido. Incumbida de passar a notícia para uma amada muito próxima meu coração pareceu esmagar-se, ela estaria sendo aguardada para ajudar nas providências do ir-se. Acabo de voltar do momento da despedida, de abraçar os laços desorientados, de sentir tamanha dor, e como dói. Saí como que desesperada por estar em casa e fui direto à tenda do Nilo ter a lembrança do tempero de minha avó no céu da minha boca. Debruçada no balcão, tentei enxergar a roda, o ciclo, a razão, e como num passe de mágica, no meio da selva de concreto entrou no salão a resposta borboleta, obrigada vô, viver vale mesmo tudo a pena, ainda sinto suas partículas moléculas no meu existir completa, até daqui a pouco, no outro extremo da ponte.

Elis Regina cantando "No céu da vibração", música de Gilberto Gil para Chico Xavier: http://www.youtube.com/watch?v=rT6xr7rjw4Y&feature=related

11.11.09

Dependência Luz


Faltou luz para todos por volta das dez horas do dia dez. Eu estava na Granja comemorando o aniversário de uma amiga quando lá por volta da uma da manhã todas as outras quiseram ir embora. Enfrentei os rapozo tavares em comboio feminino e depois uma cidade fantasma que pouco dava para enxergar, uma cidade sem contornos. Algumas ruas com barricadas, idiotas acelerando nas avenidas sem pardais, alguns outros bebendo na escuridão. Como lua não havia ficou ainda mais complicado fazer identificações. Subindo a Inácio vi uma equipe de reportagem do SBT e não tive dúvidas, botei a cara pra fora do carro e gritei: 2012!!! Depois comecei a rir de minha própria piada em quando a outra mostrava centímetros de mais medo. Após deixá-la a aventura acentuou-se, era eu e uma cidade assombrada em sombras. Só fui encontrar ajuda nos cruzamentos da Brasil, a elegante avenida concentrava grande parte dos reguladores do transito, curioso para bons entendedores. Contornei o obelisco e a coisa ficou literalmente preta, não se via mais nada e tive que atravessar a alça da Vinte e Três nas escuras, frio na barriga, mas certeza que não me apagaria agora. Para estacionar foi o maior problema as vagas estavam ocupadas e fui me distanciando mais, ao dobrar a esquina, numa memória de rua já mais escura, parei a jamanta de lata. Ao sair da bolha de proteção veio o medo, não conseguia identificar onde pisava e olhava para trás freneticamente para ter certeza que ninguém me seguia. Cada passo em direção ao portão foi ensaiando minha cegueira até o fim das escadas e à própria cama, onde permaneci até às onze do dia onze deste ano nove. Nove, um, um de Avenida Prestes Maia, de gêmeas voando e pânico planetário. De dependência Luz.

3.11.09

Raquel Trindade declama poema de seu pai, Solano Trindade "Trem sujo da Leopoldina"

Seguem dois presentes incríveis, o primeiro é este vídeo que está no youtube, olhem que coisa mais linda este poema do Solano Trindade recitado por sua filha Raquel. O segundo é um pequeno texto de Bertold Brecht!

http://www.youtube.com/watch?v=bDWEGsNehEE&feature=player_embedded

"Passar fome

Respondendo a uma pessoa sobre a pátria, o sr. K. tinha dito: 'Posso passar fome em todo lugar'. Então um ouvinte mais rigoroso lhe perguntou o que significava ele dizer que passava fome, quando na realidade tinha o que comer. O sr. K. justificou-se dizendo: 'Provavelmente eu quis dizer que posso viver, se quiser viver, em todo lugar onde reina a fome. Admito que é bem diferente se eu mesmo passo fome ou se vivo onde reina a fome. Mas para minha desculpa me será permitido dizer que viver onde reina a fome é, para mim, se não tão ruim quanto passar fome, certamente muito ruim. Para outros não teria importância que eu passasse fome, mas é importante que eu seja contra o fato de haver fome'". Bertold Brecht

O importante é ser contra o fato de haver fome e principalmete não deixar que freio nenhum nos faça calar. Não se fartem de aconchegos desnecessários ainda temos um mundo para construir, um mundo sem fome! Ao trabalho!

amor bastante
Elenira

29.10.09

Quanto Vênus és?


Para consumidores sagazes, os bons, desta crença em coisa mundo, só existe um tipo de mulher ideal. Logicamente magra, delineada, cintura marcada, com cabelos brilhantes e lisos, se possível claros, assim mechado, verdadeiramente. Pele clara de pêssego quase saindo do amarelo e, erupções cutâneas, nem pensar, a poluição obviamente a esta não atingirá. Roncar nem pensar também, nada de gestos largos ou ganisso abrupto, de preferência às que riem de suas piadas e que não se importam com o pouco desempenho quando sós. Fumar, de jeito nenhum, fetiche este era no tempo de suas avós, hoje são verdes e querem a paz mundial. Têm que ser inteligentes e bem informadas, mas não mais do que os bons, os fingidores da autoconfiança. É importante também saberem admirarem as boas coisas da vida para poderem com eles saborear, em pequenas doses é claro, e não as desejando apenas para si. Como bons produtos e atenciosas delicadas é de bom tom que tenham ouvidos pacientes e atentos a cada palavra desperdício. Mulheres infanto-maduras e puras que não tragam problemas gene-familiares ou almejem de mais, simplesmente Deusas receptivas que tragam tudo isso naturalmente para não haver gasto desnecessario por aí, tipo estas coisas fabricadas. Nada mais e nada menos do que Vênus sem braços que demonstram alegremente sua infinita tristeza de enfim pertencerem a esta coisa mundo ao satisfazerem os que apenas pensam ter.

26.10.09

Pé Quente


Quando acreditou compreender seu jogo rápido foi fulminada no instante seguinte, petulância estúpida, de quem exala medo e quer conter. Profanar palavras é o que resta nesta noite vão, não bastava o vento nas árvores, quis à seiva, foi ao chão. Acabou, debruçada mais uma vez na janela, protegida de seus próprios poros, sonâmbula, impermeável. À última porta está bem à frente, da posição que resiste é impossível ângulo ver e, a esta altura, também volta não há. Digo daquele minuto, àquele antes do alastramento, medo de bombeiro de porta que se abre e expande lambe fogo. O desejo carne pulsa, qualquer outra opção é o privar-ser e seus ossos a si isso não permitirão mesmo que para isso cacos tornem-se. Ou se é o que se têm ou se tem o que se é, nada mais há entre as duas opções, numa, seu pé quente é, noutra, cabeça sua fria.

24.10.09

Rodas de vida


A dor que aguda a vi sentir doeu-me à alma, percebi seu desejo ardente pelo desencarno e, diblando o tenso transito a caminho da emergente solução não resisti a uma crise de espirros-envolvimentos, era à direita, espirro, esquerda, espirro, acelera, espirro, breca! O sábado ardendo em primavera asfalto e eu estava ali, pasma, quase sem conseguir reagir. No trajeto conturbado pediu água algumas vezes e eu apressadamente levava a garrafa a sua boca, num momento de difícil flexão, entre uma virada a esquerda, seguida de uma à direita, sentiu sede novamente e sua filha mais velha, sentada no banco de trás se prontificou a ajudar-lhe. Assim que recebi o pedido de socorro tentei me comunicar com os continuados, já estava claro para mim que este compartilhar era primordial, o primeiro não atendeu, o outro não conseguiu sair da própria caverna, então a do Sol, mesmo com fala primeiramente brusca, rapidamente se articulou e já estava lá quando cheguei. Estremeci o corpo todo, aceitar a água desta podia mesmo fazer com que atingisse seus objetivos, afinal, das minhas mãos não significava nada, qualquer questão de gênero que tivesse existido entre nós já havia virado borboleta há muito tempo. Deixe-as na porta-pronto e corri para me livrar do pesado veículo, fui surpreendida na volta por não me permitirem a entrada, aquilo era mesmo algo que viveriam juntas. Após algum tempo, pouco mais de uma hora em pé, resolvi encontrar um canto próximo a um jardim e mergulhar nas páginas Índia, peripécias Sai Baba que coincidia com tudo que se passava num sincrônico balé do tempo. A luz do dia já estava se indo quando me procuraram para seguir, a filha estava aparentemente feliz e orgulhosa, talvez o despencar da mãe fosse mesmo uma oportunidade para colocar-se. Foi contando cada passo do vivido enquanto o pequeno corpo no banco de trás encolhido me olhava. Na porta da casa não foi diferente, fez questão de acompanhá-la e cuidar de seu alimento e graciosamente, o que às vezes é difícil para tal, agradeceu e me dispensou. No instante seguinte passei por aperto coração e o medo de não saber para onde ir, uma espécie de solitude desvairada, me empurrava para o barulho das águas, ladeira a baixo. Me vi absolutamente sozinha numa cidade com mais de vinte milhões de habitantes, como será que é possível tal argumento e passível transpiração, basta um momento e lá estamos todos sós apegados à grande roda das encarnações, apavorados.

23.10.09


Existem pessoas que estão mesmo aí para nos marcar, para trombarmos com sombra de passado e sem medo, transcendermos em mestre. Vê-lo caminhar sobre a água turbulenta é de entendimento tão simples que causa estranheza aos que pouco se conhecem. Como o menino do dedo verde tem o poder e o tormento de tornar mais amado a tudo que toca, não se sabe ao certo se, se tivesse poder de voltar no tempo, faria algo diferente. O que é possível de clareza saber é que nenhum dos seus tocados deseja retroceder. Mesmo quando palhaço com suas trocas de pernas bandeira é o amigo que todos desejam ter, às vezes socos e gritos saem sem que antes possa conter, mas nada que em tapa ofenda. Para alguns a visão das asas é nítida e a plumagem descompassada nada mais do que esplendor. Ontem mesmo, com o copo na mão na madrugada envolvente pensei: inteligente é aquele que escolhe as pessoas certas para conviver, sábio são os que as conservam cotidianamente. É amigo Polly, o tempo, para o amor, é o melhor aliado. Eternamente, Topcy.

22.10.09

distintos inseparáveis




























Quando novos, a impressão é que éramos inseparáveis. De fato, a única verdade obtida é que a minha postura conduzia a esta percepção. Daí supõem que o amor pode mesmo ter lentes parciais, não se sabe de certo se este também pode ser o fato de não haver mais espaço para o ‘nós’. Com opções diversas nos constelamos esparramados pelo território e quando nos poucos momentos juntos não se via mais união tamanha com tal facilidade. No início da bifurcação foi como se o chão me houvesse faltado, doía largamente e o meu medo era do não suportar. Na sua vida não havia uma brecha para o meu existir, talvez pelo meu tamanho estardalhaço ou por sua restrita fenda. Pode ser que meus gestos longos faziam-me não caber, esta é uma grande provável. Hoje a dor não é mais continua, mas como termômetro das intempéries, muitas vezes, não me deixam dormir. Não há como saber da dimensão ou espaço exatos, mas com certeza, no jogo dos encaixes, estes ‘nós’ perderam a mão e como, por conseguinte seu xeque-mate.

21.10.09

Viaduto Santa Efigênia, o rito do tempo


Hoje me aconteceu entender a mágica da desaparecença, enquanto deslizava sobre o geométrico mosaico do viaduto Santa Efigênia, em direção à minha muambização digital, fui observando os ambulantes cosmopolitas que vendiam de tudo, chapéus, porta cds, cintos de couro, pequenos helicópteros, cópias piratas do que você bem entendesse e, até mesmo, um aparente boliviano que vendia orquídeas, fiquei pensando como às produzia. A cada passo de minha observação eu recordava meu avô e das histórias que já ouvi sobre ele, de seu desespero em vender qualquer coisa que fosse para poder levar dinheiro para casa ou de sua maneira mágica de quase existir. Minha vontade era comprar tudo, de alguma forma participar de suas alegrias, mas pelas minhas próprias opções de vida seria impossível com as parcas moedas que continha. Quando dei por mim já estava exatamente no centro do viaduto e em minha direção sem nenhum cuidado ou preocupação avançava com velocidade o carro da guarda civil metropolitana. Ainda a tempo de jogar meu corpo para o lado e safar-me do atropelo virei para acompanhar o trajeto do veículo, deslocando meu corpo novamente. Abri um grande sorriso ao ver que ali já não havia nem vendedor nem mercadoria alguma. Lá estava nas minhas costas um viaduto higienizado, uma paisagem de outro hemisfério ou meu próprio devaneio, foi um só minuto de passadas e me perdi das saudades do avô e deste existir moedas.

Deslocamento na esperança


Meu deslocamento na esperança sempre foi tão fervoroso que aos que provocam-na em mim, certas vezes, os leva aos próprios pânicos. O faiscador arrepende-se ao ver-me tornar-me tocha e disparar o estilhaço. O medo alheio do compromisso por queimar-se é agudo e às vezes, diante do meu arrependimento e invasão, percebo que o que há de bom em mim também destrói tudo, meu próprio lamber floresta e renascer. Um desejo de construir uma vida em luz, de ser livre, de dar-me o tempo necessário e abrir mão das amarguras tornou-me uma mulher perigo, atravessadora de ágil ardor. A está altura, mais do que qualquer um, eu transformo fagulhas alheias em labaredas e caminho certo de construtor de cidades-amores. O egoísmo em não me desfazer dos amores, aqui me torna ancora e quando algum deles acena, como quem indicando ir, eu corro na frente, em disparada, repleta de crenças inúteis. Esse meu adiar desprender-se se tornou perigo aos tão preservados amados e meu desejo por arquitetar sai-me pelas entranhas ao mesmo tempo em que me imobiliza. O salto está por um triz e causará turbulência certa, mas eu terei que fazê-lo sem causar tamanho desconforto aos que acenam, ou seja, meu movimento terá que se descobrir só e ali nitidamente está meu medo de implosão e foco. O barco começou a afundar e não há tanto espaço no bote, caberiam todos, mas o desejo de não enxergar os fez apegar-se ao iate. À minha deriva falta fé, se isso eu tivesse não seria necessário causar ondulações e disparates e, certamente, meu existir confiança estaria repleto.

obs. fotos do filme Manni Sulla Cittá um filme de 62

18.10.09

Egberto, o despertador de giz montes!


Foi uma Gismonte emoção, daquelas que só uma excelência Egberto desperta tão facilmente. A opção de ir só foi logo de bom grado alegremente aceita, assim experimentei emoções impares e despertei momentos lembranças. O início, sempre a pedra mais difícil a estilhaçar-se foi lançada na paisagem diamantina, Chapada de caminhadas exaustivas, recordo de vento e medo, de meu transitar criança e adulta, na passagem. Minhas amigas já longe do horizonte e minha solidão em pânico, medo de nunca mais ser achada ou se encontrar. Às via com admiração quando em pouco as alcançava, nem podiam imaginar o sofrimento, o desespero e presente fracasso, era impossível para minhas carnes o passo sincronizado e a cada minuto, perdida na paisagem, mais uma vez me encontrava. Meu corpo e eu, sempre nesta busca descompassada. Lembrança segunda, após caipira paisagem, foi à nítida imagem de meu irmão, ainda criança, correndo no estreito corredor com cheiro de flor de café, canção “palhaço” saia pela janela da casa e fazia meu irmão correr com mais velocidade. De volta ao show fui acordada com meu próprio transbordar de lágrimas, de uma invasão saudade de iluminar qualquer casa com futuro família. Minha capacidade de amar estava ali estampada entre notas soberbas e gotas despertas. Talvez, alguns de meus filhos que ainda virão me façam recordar aquele rosto alegre e faceiro novamente, sempre tão confortáveis nos braços de minha mãe. Este Egberto é mesmo de marcar o corpo da gente! Terceira lembrança veio logo em seguida, nós todos crianças, a lú, o ti, o di, a fê e eu, o riso de cada um, o momento do meu pai, o cheiro da lasanha da minha mãe, o cachorro enlouquecido, o Zé libertando-se e a tartaruga calmamente ainda perdida no quintal. No futuro direi a meus filhos que momentos são como jóias e só dependem da nossa presença, de Ser Encarnado, e não menos importante, a Arte, que sempre estará aí para nos despertar de cativeiros e aconchegos desnecessários.

15.10.09

Bruta Flôr


Minha amiga Mariana Senne é uma amada que sempre consegue impressionar-me. Quando acredito que ela tornou-se uma atriz completa e atingiu a excelência deparo-me com seu próximo trabalho e perco o fôlego. Desta vez, em “Bruta Flôr”, meu coração quase não aguentou, ao final do espetáculo, ainda em prantos, fui abraça-la tomada de um orgulho e admiração incalculáveis. Não há nada mais emocionante do que quando nos deparamos com pura e esplêndida Obra de Arte. Poderia aqui fazer algum anúncio sobre o se passa quando vivemos tais emoções, mas não posso lhes privar da surpresa de seus encontros, de suas histórias, de suas vidas. Confiem e vão, apenas isso. Parabéns a Cláudia Schapira, Lu Favoreto, Lucienne Guedes, Jerusa Mesina, Cibele Forjaz, Cia. Oito Nova dança, Cia. São Jorge de Variedades, Núcleo Bartolomeu de Depoimentos e claro, minha amada e talentosa amiga, Mari. Meninas vocês me fizeram transmutar, ali queimei minha amargura, estou livre! Obrigada.
Onde: Sesc Consolação
Quando: quinta e sexta 21h
Não se privem deste deleite, suas almas agradecem! Menos que isso é nada!
com amor, Elenira

12.10.09

Para ser-se amoroso


Para ser-se amoroso
devé-se antes reunir as partes,
após argumentação sensata
diz-se rapidamente:
reúna-se semente!
Se comportamento manada brotar,
Grite em berro muito alto
Não resolvendo,
apele
Cachacesse na escarra noite escura
Sozinha em dor resuma-se logo
Urge o tempo
alvoroço
Troca soco arria calça
Vedete patética de sí mesma
Esfrega a carne fria em boca seca
Rala-se no asfalto,
devassa-se devasta-se liberte-se
amoral viceral carnal
esporra-se em ergum city
compre-a
analfabeta medieval
grita mais
esganissada
em caco pare
mine-se
diga rapidamente:
reúna-se semente!
enfia luz
atocha consciencia
afogue-se em sí.
Não resolvendo,
há ainda um argumento
o derradeiro
silencioso
aquele que não pronuncia-se
acata-se e pronto
esvai-se em mil
aquele,
a que todos procuramos
e nem noite
nem dia
nem denso
nem são
ninguém
encontra
sozinho

sem coordenadas


AUSENTO-ME
DE NARRAÇÃO
E DEIXO TE ASSIM:
PASMO DE TANTO
DEVASTADO
IMPURO

MOVIMENTO
ESTÉRICO
SOLTO
SOLUÇANTE
PRANTO TONTO

VOCÊ,
VANGUARDA
NA MINHA VIDA
PRISMA SUBURBANO
ATRAVESSA O SALÃO
SAI DE SI RAPAZ...

DEIXE-SE ENXERGAR
TIRA DURA CAPA
ESGARCESSE FEBRIL
ROMPA
INVADA
VOA-ME

Eu sou minha própria


Podia suportar quase tudo, às vezes falta de dinheiro, outras de alguém para amar, até mesmo perspectiva ás vezes faltava, mas se longe da cozinha por muito tempo o insuportável me subia pelas paredes. Vivia grande parte do ano na casa de minha avó paterna, lá uma brecha para o tanto era mesmo muito raro, quando não à segunda, a avó que veio de presente, se irritava ao me ver transitar pela cozinha, ali o espaço do minúsculo latifúndio era disputados num silêncio constrangedor, muitas vezes tornava o ar agressivo. Já ás conhecia tempo de mais para saber que quando uma cantarolava após uma pequena queda de braço, a outra rangia os dentes e alfinetava sobre outro assunto, um balé onde às vezes não havia um único escape. Às duas juntas, somavam mais de 170 anos, tinham um engajar indissolúvel quando mentiam uma para outra, a culpa era tanta, que o próprio estar revelava, para vida de cada um tinham sempre o que dizer, às tardes de inverno eram as mais esdrúxulas, alfinetavam-se fingindo assistir programas sensacionalistas enquanto eu tentava respirar e dedilhar freneticamente entre a bruma de um caldo ou uma grande defumação, digo gigantemente, pois às ervas quando queimavam transformavam o pequeno apartamento nas reais brumas de Avalon, tudo sumia perante a fé de minha avó, pedia sempre tão fervorosamente que a força de suas palavras podiam pender egoístas, os seus eram sempre os preciosos e a eles defendia como leão. Para chegar na cozinha, sem que me sentissem, o ar faltar, sei que tudo isso mora dentro de mim, fazia barulho o menos possível, á mais sensível ao som, a que me veio de presente, percebia mais rápido que a outra, e entre pés me enfrentava sem levantar o tom, mas com grande violência: o que você está cozinhando, não acha que temos comida o suficiente, você é igual a sua avó, sempre inventando!

11.10.09

O Bote


São Paulo, século XXI, zona de combate tridimensional, vasta arena de jogos, simulações e caças. O fotógrafo é a presa, seu olhar periférico trás vantagem vital, quando em foco, através das suas mil lentes, poeta sente-se. A caçadora, predadora argilosa, com sua visão panorâmica de especialista aérea, confia que o elemento surpresa será sua maior arma na emboscada. Num piscar de olhos aumenta sua velocidade para o bote, mas decepciona-se ao ver que a presa também atinge tal rapidez e desaparece no concreto horizonte das fragmentações. Não desiste fácil, segue na espreita por algum deslize do capturador de instantes, em disparada o encurrala, a presa luta e mais uma vez consegue o escape. A predadora não mede esforços para atingi-lo e numa luta contra a gravidade parte num mergulho rasante, atravessa edifícios longínquos, praças depauperadas e corpos estilhaçados quando então atinge sua velocidade máxima e adentra ao vão interior, prisma bifurcante de improvável transpor, isola-o em si, sem retroagir ou esquecer sonha o alcançar em núpcias.

Vale um conto


O vale á minha frente, é horizonte sinuoso, repleto de ausências, no abafar dos pássaros está a presente serra, a que arranca sem sombra de deixar raiz voltar. Relinchos e sussurros substituem-se por motocas mimadas e competitivas, todos se fartam de carnes congeladas na frente de suas águas represadas e geladas, águas de um azul quase verdadeiro, que só sentem corpos nos esparsos verões, quando não em praia reticulada. O capital em capim, eucalipto ou lote de enfartos, é lotado de domingo e sobra à segunda, lixo extremo de loucura, de ânsia feliz, de querer mais e mais, sucessivamente “antropofagindocoisas”. Restos humanos, gases soturnos de puro estufamento de vazios. A natureza mais próxima é edificada de horizontes, não há isolamento entre os entes, condenados ao conviver não cooperativo, sugam o pouco leite, a miséria de outrora. É aqui, neste paraíso de isolamentos retalhados que aos filhos, terras deixam infeliz. Se decidir não compactuar finja dissimuladamente sem que percebam, fora já vai estar, oculte qualquer clareza e peça o seu mal passado, regado ou enlatado que não a do outro lado, escute, não vai dar grito, urrar é estupimento, prepare a sua barriga e umbigo no sofrimento. Na dúvida mantenha o charme e, para finalizar, ofereça sua sobremesa, recheada de poesia, salpicadas de verdades frescas, escancaradas, talvez, quem sabe, um café e conto de pensamentos.

Odisséia da bifurcação


foto de Anderson Barbosa

caminhos pareados
retorno impossível

à frente apenas
a luz do capital
falo cumieira
palco cínico
esforço civil

acelera!
segue rápido

vai uma trás da outra
rodas duplas
faróis unos
homens correspondências
à prontidão
servos da entrega

acelera!
segue rápido

navegam rispidamente
num mar sólido
intransponível
homens líquidos
efêmeros
fugazes
cruzes da civilização

acelera!
segue rápido

para eles
àquele é ponto chave
espaço
entre
o antes e o depois
passagem rápida
buraco vida

acelera!
segue rápido

dali, à frente
amontoados de moedas
encontros manobras
tiros no silêncio
neblina em vão

acelera!
segue rápido

vedete cafeeira
da Real sensação
arrogante
nem sonhava
ser um dia
palco de migração

acelera!
segue rápido

de palácio à espigão
masp vão
à lima
transmigração
rumo à esvair-se
nas margens do ribeirão

acelera!
segue rápido

como tudo
é cenário
furo metaforização
segue sempre a mesma ordem
buraco fractal da especulação

acelera!
segue rápido

tatuado de grafia
de leitura e muitas mãos
coloridas
inspiradas
segue a sua tradição
de cultura impermanente
à espera de paixão

acelera!
segue rápido

é beleza
é passagem
é blindada à ação
vai crescendo a murada
contra pivetização

acelera!
segue rápido

segui sonho
puro ícone
horizonte bifurcação
sobre ele
quem caminha é de sensação
em seu corpo sub-rua
se pedestre é contra-mão

acelera!
segue rápido

janelas solares
rasgam à visão
bicicletas suspensas
intrigam cada gestão
reunião de camaradas
fomentando articulação

acelera!
segue rápido

objeto em clausura
nó de signo
fixação
sob rodas
sob céu
sub rua
sub emprego
sobe não!

acelera!
segue rápido

10.10.09

Descompassos


Descompassos de trajetória alheia cortam-me a carne sem cessar, quando acesso a memória à mesma arde e torna-me vil, mesquinha, cercada de aconchegos que aprisionam. Não há grades que não posso construir para sustentar cada ilusão segurança. Passa por mim perspectivas inimagináveis, solares, interferentes...A névoa me conduz ao esquecimento, de passado longínquo à presente freqüente, não há sobras, grãos, pente fino, medos soberbos e transbordo de sombra. A exclusão da alegria, o medo do grito, a mão composta. Pare! Solte o crepúsculo infindável de cada dúvida e rapidamente atéie-se em ilha, pudera antes ser isso não possível mais, meus olhos já estiveram percorrendo o corpo, na flor, na pele em luz, no amor. Abre! Imploro seu perdão, ainda há tempo para nesta conseguir, rompa o silêncio da noite escura e projete-se, desperte suas asas, da dor do desuso, de correntes sanguíneas, de vozes que invadem o vento e torne-me um. Qualificar relação e clarear intenção de ação em ser pessoal, movimentar a conquista de si e coordenar as ações que me levam ao prazer, ao lúcido desejar, ao arder em mim, ao satisfazer-me de espaço amoroso, ao transformar-me em mundo, humana.

Copo d’água do perdoa-me


Segure-me
Os sapatos de menina fabricava toda a manhã, corria para preparar o almoço à família do outro. Ele a amava profundamente, nunca esqueceu à primeira vista, cabelos negros molhados num bem cortado vestido branco, pensavam que era bobo e inocente, mas, o futuro, disso achou graça. Ele era a metade lúdica, o homem dos fios e borboletas, ela, a perseverança, um construir infinito de valia e determinação que a levaram ao nada. Olha para trás, a muito sem ele e não encontra razão, presa em seu existir mental, despiu-se de sua amargura perto da hora do reencontro. Seus frutos, perdidos num existir cidade, ainda vivem caverna, quando notou que a desunião era unânime desmoronou todo orgulho construído, às pedras que carregou formaram os degraus que ninguém conseguiria subir. Lembrava-se da sogra e das desavenças, dizia que o copo em suas mão a deixou partir e perguntava-se: quem seria a segurar o seu?


Profundo seria recompor-se por completo
Deixar de sobras, vírgulas desnecessárias...
Palhaçadas de narração
Se me catatau a esta altura
Posso alcançar o indesejado
E morrer poeta maldito
Acho que como a amiga das amigas dizia
quero ser avó quituteira, tetuda contadora de causos
Ter pé de Flôr cheirosa sob árvore frondosa
Deslirar com os descendentes, agregados e decentes integrados
E orar, num amontoado de amores
Ver tucano voar,
papagaio gritar e
Claro,
Macaco vigiar
Punir ninguém,
nem à tardinha
Poder soberba ser absorvida pela própria terra
Não se achar nada além do que não necessita de palavras
De pessoa-função não sobrar nem a palavra dúvida
E ao charme retornar, em movimentos quase em lenta câmera
Reencontrar o irmão em si e migrar para outros horizontes
Livre rolar de grama, desnecessário territorializar
Bater tambor, cantar, fazer doer eternos
Despir-se de primores e outras bobagens
Tomar o copo d’água das próprias mão
na doçura de experimentador
E enfim, virar o que sempre foi,
trans, lúcida, borboleta.

Da competição para cooperação:


O leão ama a leoa
O leão odeia a leoa
A leoa tem o filhote
O leão come o filhote
A leoa ama o leão
A leoa odeia o leão
O filhote ama o leão
A leoa quer o filhote
A leoa come o leão
A terra come a leoa

E assim, enfim...
Sucessão
Leãotropofagica

Que leva leão
algum
A comer leão nenhum.

Leãonivo-nos!

Odisséia dos Leos Navegantes


Era uma vez, curiosas almas idênticas que engalfinham-se há muitos anos, ariscas, espelhos de si, amantes soberbos, estes, já nasceram reinantes, predadores e sós. Quando juntos a parecença os levava ao caos, semelhanças abruptas os fizeram derramar-se pelo território nacional, cheio de estados entre os entes, assim imaginavam estar seguros, condizente com a própria natureza de gatos selvagens. Dividiram o país em dois, territorizavam-se e travavam verdadeiras batalhas sociais, curiosamente sob a mesma bandeira e com mãos convictas. Pensadores de seus tempos, articuladores de luta, exímios guerreiros, elos de práxis e saber, afetos comuns. Se perdiam o faro, e por muito tempo ficavam sem qualquer notícia, os calos iam apertando e nada mais fazia sentido, uma queda de braço imaginária os condenava ao eterno, os desencontros providenciais era disfarce essencial, assim deliravam ter controle sobre os corações. Leões, fortes presenças, leais amantes, sagazes, heróis e ternos, mas com garras sempre afiadas, pondiagudas, desordeiras. Uma década e meia de batidas sincrônicas, deuses vaidosos do apocalipse, seres fotossensíveis, poetas esdrúxulos, panteras caçadoras, críticos ferrenhos que transbordavam excessos e oravam ambigüidades. Sonhavam despertar em outra era, lutavam pela cooperação, mas entre eles havia algo, um mistério, um segredo. Sem vestígio de pista que os revelasse, era um eterno aguardar a volta do próprio corpo, viviam como amputados, buscando a parte que não estava alí, camuflando-se em explicações individuais a seus distintos problemas. Juravam conhecer-lhes e surpreendiam-se ao toque, quando as peles encostavam, era como se a superfície da água deixasse de existir por alguns segundos e, como explodindo, integravam-se, como ondas no meio do oceano. Às vezes, tinham medo dos próprios mitos, seriam eles narcisos de si ou alma única, gato que decidiu bifurcar-se. A leoa solar, quando só, desejava compartilhar o continuado, via o Leo, em sua dança, maturar o próprio tempo, mesmo sabendo que aquela poderia se tornar à verdadeira tempestade. Para ela, era irresistível esse afogamento, queria o preenchimento, contemplava a união, acariciava os pelos imaginando-os, todos juntos em cambada. O leão, mais misterioso ainda, mergulhado em sua solidão, mesmo entre muitos, rasgava-se para dar seu salto e encontrar espaço para eles, já mais manso, com menos medo, podia acenar mesmo sem suportar tocá-la, a espera pelo continuado gritava em seu existir espécie, e abrandava seu ser carnívoro. Gatos pardos, esquivos amigos, respiravam num mesmo ritmo, como num só corpo. Deixaram de frustrar-se quando as expectativas perderam o sentido de existir, largaram-se à deriva, ao sonho e abandonaram o pânico de transmutarem-se em presas. Podia se crer nas intempéries do tempo, nas correntes marítimas, nos corais ou formações rochosas, ou mesmo numa máquina de fricção que os conduzisse, mas depois de tudo experimentarem, entenderam que o que determinaria o encontro das naus não eram suas bússolas nem as próprias pulsações sincrônicas cardíacas, confiantes compreenderam que à escrita, ou o segredo, era maior do que qualquer livre arbítrio e mergulharam no misterioso sistema solar expandindo-se no universo, constelados.

Um par de estranhos


Um par de estranhos
Ele era de um tom azul esverdeado, um peito de luz e intenso color,
Ela, de cor folha ao sol, pulava de galho em galho procurando distraí-lo
Se o vissem juntos, juravam ser de espécie diferentes
Podiam até comer-se se não estivéssemos saído das cavernas
O jogo era rápido, ninguém conseguia atrapalhá-lo
Quando juntos, mudavam de cor, simplesmente
Os distintos indistinguíveis eram mesmo inseparáveis
Isso lhes bastava o tempo todo
Quem os contrariava gania em vão
Uma constelação de pios
e perdiam-se no espaço,
camaleando-se
Lá vão eles,
Colorir
o infinito
do duo coração
de um intenso
jardim secreto

Ergum Ego


São City-Ego

subiu
sucesso.
Cita-me
Imploro
Vai,
Cita-me
sorvo
em
ser
vil
Exita-me
sem
ser-se
não posso
mais ser eu
sem ser só
servil
vai
exita-me
cita-me
meu
Súdito,
Meu soluço;
meu par na
escuridão

Ode ao Ser Prefeito Perfeito


Ode ao Ser Prefeito Perfeito,

Revolta Record
Globo Plasme-se
Folhe-se
Estade-se jamais
Isso nunca!
Auto-organização?
Perigo de mais!
Junho,
Dois mil e mais nove
Gélido buraco negro
Capital do capital
Sulga sensacional
Cru cinza e boca oca
Milhões pegrados na cruz
Secretário falou
Polícia aclamou
Ta vendo aquele moço
Infartando o craque coração
Olha lá
Me dá decreto
Pra liminar tirar do chão
Crava choque
Sem a SUS permissão
Que lei que nada
Prende logo!
Num ta vendo
Este é menino-resto.
Não tem alma e emoção
Limpa tudo
Gentrifica
Chama o pipa
Lava o chão
Puni logo
ou vigia esse fujão
Lota o carro
E despeja imigrante solução
Craco bão é craco morto
Manda longe este bundão
Quero tudo direitinho
Vou cuspir no esquerdão
Gente fina
Só bacana
Enche o bolso e põe ao chão
Liminar?
Ta doido moço.
Eu te dou é concessão
É tua moço, pega!
Põe a luz no seu porão
Tira logo
Eu, vista grossa
Pra fazer minha canção
aclamamos nome chique
de desenho aplicação
Vai depressa,
quero muito quarteirão
Essa gente me deu tudo
E imposto uso em vão
Cala a boca dessa gente
Gente pobre e exigente
Vai morar ó Tiradentes
Ou barraco na nascente
Aqui não meu irmão
Aqui é Belém da escuridão
Ortodoxo em pó carente
Vou te dar uma ação
Vai poder pegar moleque
E trancar no camburão
Vai tirar o ganha pão
Nem hotel quero no chão
Minha mão
Oh! obra prima do meu ego
Em cada vão
No futuro, eu homem cita-se
Vou brilhar em bronse vão
Lá vai ele o seu perfeito
Que rasgou a escuridão
Que varreu essa cidade
De quem não tem
Um tustão
Cracolândia?
Nem lembrança
Nova luz
Óh! Solução
No futuro tua lembraça
Jaz pacivo em pó varão
Procuraram em todo canto
Não acharam coração

obs. colagem com fotos de Isadora Lins no dia da reintegração de posse da ocupação Plinio Ramos

Gotas de gênero



Chove em mil todos os idiomas que não li, torna-se urgente este desejo por decifrações, o que invade, rompe a comporta e inunda é o verbo, presente nesta era de extrema informação, carente de subjetivações. Encaro ser observador indotrinável, e arranco todo mapa de narração, o que escapa e espanta, divago-me, persisto. Cada gota trazia do céu torna-me mais humana, fato que apenas pelo meu existir mulher já é cabido. Para Sidarta ser o iluminado abriu as mãos, meditativas, de sua princesa e do próprio continuado, se a mesma desejasse o sempre, como o marido, também poderia tê-los dado à confiança da deriva, mas na condição de gênero esta observação é vã, onde visto-me todas, mistura líquida. Talvez, se outra parte, que não costela, fosse nos dado, teríamos maior restrita liberdade. Desde então correm nuas pelos caminhos e ventam por dentro, a prole proteger, colheita rendar, palavra seduzir e pacientes o etérno aguardar; fez-no todos caminhar e, logicamente, pêlos perder. As mamutes mamães guardam suas lembranças em células ancestrais, milenares, e sonham com pombas e pompas de cada viver continuado, para elas não existe fio tênue, metade ou gêmea gema, se infintram e inflamam-se quando acharem conveniente, observam o balé dos corpos em movimento e calorosamente amam quando podem, e não estão em pé de guerra, dentro da gente, mareadas. Um bater frenético de lucidez e honra, para transmutar cada semente, ovas de si, os vêm blasfemar paixões de esmos com passível perplexidade e em cultura isolam-se sós, carcomidas pelo ireciclavel sistema, sem resignação, dolorosamente. Amontoados de erros ou acertos, tudo se faz indiferente, sonhos de vida inteira ou de meia vida não deixam pó ou rastro de lembranças, certas ou incertas, sem mais importância do que antes, apenas remo forte, contra corrente para, ao menos, transformar solidão em solitude, dignidade, retorno do nunca, a chave para próprios “se nãos”, retornar, voltar, tornar-se, incansáveis vezes. Mesmo podendo a qualquer momento contornar elas mesmas e irradiar tamanha explosão de luz, vão implodindo célula por célula, palavra por palavra, gesto por gesto, navegando-se. Para entende como é possível para estas criaturas criativas este diluir-se e coesas aglutinarem-se emanadas, ousamos dizer, que todas, sem exceção, compreendem, mesmo sem darem conta, que a única forma de uma gota não secar é jogando-na ao oceano. Ao mar, gênero regenero, volto em gota refletir, espelhos de mim, fonte inesgotável de ternura, assim decido chovê-las em mim, em mil e parto para um próximo adentrar, extração relâmpago encharcada de gritos e silêncios, ou até de ausências tardias, e pequenas bobagens que brotam espontaneamente, gargalhadas despida de choves num molha e, como nunca nos falta, baldes de pressentimentos. Lá vou eu, oscilando entre alagar-me e postular-me ao gotejamento das ditaduras, à gota d’água.

obs. a imagem é de uma colagem que fiz para minha mãe, comigo dentro da barriga dela. Depois coloquei as missangas e fiz um bloco de acrílico. No verso esta escrito "era uma casa muito engraçada, não tinha teto..."