7.12.09

Classificando Óbitos


A família, depois que desmembrou-se pelo território nacional, passou a estar pouco tempo presencialmente. Nestes encontros, não poderia lhes faltar a famosa seção obituária, entre uma torta de ricota doce e um bolo de milho, versavam sobre às vidas que se iam, conforme os anos passavam, a seção ia se tornando maior, morriam de medo de tomar todo o tempo. Usavam os mortos para lembrarem dos por menores e não raramente caiam no riso quando se encontravam com o passado, longos tempos, onde juntos dividiam o cotidiano e amavam-se firmemente. Era curioso, descreviam geograficamente os caminhos que percorriam ao falar dos outros, sempre diziam de fulano da rua tal, filho de beltrano que se mudou para além, que pena, morreu... Quando tinham um segredo era nesta hora que partilhavam, iam classificando os personagens e caçavam um por um para recomporem-se. Só desviavam dos obituários quando em situação de enfermidade, talvez, estes fossem os próximos e era melhor trazê-los rapidamente à tona. Só poderia ter uma explicação para esta naturalidade mortuária que os guiavam pela história, eram eles meus eternos.

escrito em 05/08/09

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