23.11.09

Comunhão


Flutuava sobre a terra batida e encerada de tantas gingadas passadas, a luz penetrava pelas frestas do telheiro e ao redor só se via a silhueta dos corpos. Não tinha um único par de olhos que não a fitava sonhando, marejados, seus passos faziam a todos se recordarem, as crianças vagavam livremente sem que houvesse qualquer impedimento para serem, mudavam as flores de lugar. A menina, a mulher e a anciã em uma só presença, a temperança sem pressa de lua, nem resquício de sol. De mãe menininha a Euá, todas ali reunidas em prece num único corpo que transcendia em luz e fé. Os cabelos caiam sobre os ombros nus e esvoaçavam com a brisa que subia pela colina saída do dia que se punha atrás das montanhas, aquele que nunca mais seria o mesmo. O via na perspectiva de sua direção e em saltos seu coração lhe escapava a qualquer jus compreensão, eram apenas as três a caminhar para o encontro de si no outro. Seria através deste estar que se proporcionaria tamanho banquete amoroso, sem pressa, cotidianamente satisfazendo-se de plurais e ardências necessárias. Víamos-nos todos como em câmera lenta, com o vento emaranhando racionalidades e beijando cada corpo emocionado. Quando alcançou sua mão e a puxou para junto de si sentimos o chão nos faltar, o amor tem destas coisas, faz com que o chão, na batida do coração, migre em céu e céu em ser chão, simples assim, como tudo o mais.

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