4.12.09

“Abra as portas e as janelas, por favor, que o pior da tempestade já passou”



Chovia tão forte dentro que o temporal do lado de fora não podia me assustar. A cidade estava congelada sob raios e baldes d’água que caiam sem cessar. Éramos idênticas em meio a caos e pânico. Do alto da torre minha visão era privilegiada, ou pelo menos, a melhor que se pudesse ter em meio tempestade. O meu eterno aguardar ensejava acabar ali, entre passadas abruptas e espasmos febris. Seu atraso foi providencial, uma espécie de punição antecipada, quase medieval; tortuosa. Então, como que em câmara lenta, deu-se início o balé, um esquivar-se sem tamanho que acelerou ainda mais as gotas de fora. Sob pingo fui vendo o descompasso do tempo, lá estava a casa, no lago, em maré cheia. As palavras corriam em rédias curtas e os corpos quase que imobilizados começaram a ferver, evaporar, queimar, enlouquecer. Não seria possível transpor o que estava escrito e para estes o real era desafio quase intransponível, sem tamanho. Embrenharam-se em direções opostas na chuva, já mansa e triste, e perderam-se pela cidade alagada, retida, cheia de tudo, atolada, arisca. Lá vai ela, como eu, soberba impermeável que foi carregada por tromba d’água ao coração humano, ou melhor, urbano. Para receber alguém terei que sair do alto da torre, desobstruir o trajeto das águas, deixar minha periferia circular, fazê-la florir, cuidar de cada célula como à tronco, sem privilégios, abrindo espaço, alargando avenida, tatuando trens, tornando meu ar respirável, fresco, prazeroso, sutil e estrelado, assim como ela, de megalópole cosmopolita à beira do esgotamento à cidade luz, acolhedora e amorosa. Ah...São Paulo, quanto mais teremos que esperar pelo despertar da consciência de nossos peptídeos? Quando poderemos tornar tufão em brisa e abrir as portas que batem sem cessar? Abramo-nos nuas, sem fronteiras, sem churumelas, sem ordens aleatórias ou “pois nãos”.

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