
Estamos no final de nossa segunda década e de lá para cá já fomos muitas. + intensas... + presentes... + difíceis... + amorosas...- fugazes... - ariscas... - sutis... De inimigas vulgares à salvadora humanas, sim, nós já fomos todas estas. Nos últimos tempos meu amar loucamente me fez vacilar, transbordar. Estar presente mais que o digerível e deste então minha maneira intensa e exagerada de estar no mundo causa julgamentos desnecessários e oportunidades cruéis. Se assim convém ocupo lugar de algoz e deixo-as + yin ou + vítimas, mesmo quando palavra nenhuma sai boca afora blasfemando verdades. Errar é imperdoável, nem quando se admite e transforma-se folha seca e broto grão. Hoje, meu coração leonino suscitou magoado e aqui permanece jazz. A traição a mim mesma por permanecer ali, disponível, exposta, como Leminski quando dizia “ ...Serei tanto e tudo e todos. Vais ter nojo de eu ser isso. E estarei a teu serviço. Enquanto durar meu corpo. Enquanto me correr nas veias. O rio vermelho que se inflama. Ao ver teu rosto feito tocha. Serei teu rei, teu pão, tua coisa, tua rocha. Sim, eu estarei aqui…”. É... Este estar aqui acabou me rompendo as veias e tornando a digestão trabalhosa. Vontade que às vezes assola de voar, sair por aí esquecendo da importância cotidiana e da dedicação aos afetos. Simplesmente voar, ser ex-estranha como o poeta e partir, como sempre faço, recolher acampamento e marchar com pressa para o estar ponte de si. Lá vou eu de novo, misturar-me à multidão para ver o mar, recolhendo-me em último ato, só.
Lua quando míngua, sofre
ResponderExcluirÉ de sua natureza, em cada ciclo uma vida inteira.
De sua natureza também é entregar-se por completo,
inteira e intensa no seu próprio movimento de morte e vida.
Sabe-se que Lua se percebe inteira e radiante no céu
voo solo,
mas se maravilha ao espalhar sua luz refletida...
iluminar o rosto rubro de menina na hora do beijo,
apontar o caminho aos peregrinos noturnos,
servir de farol aos navegantes,
ser a musa dos poetas
divindade merecidamente cultuada por tantos povos.
A míngua fica toda vez que o movimento de recolher-se se impõe, impiedoso.
Seu esplendor pleno, Lua iluminada, diva no céu
dá espaço para a sombra que se projeta, lhe escurecendo o brilho, a carne e a razão.
Ao mesmo tempo dor, desprendimento e mergulho
pois abre o corpo à sombra e entrega seu brilho ao céu,
a promessa do frescor, do novo, do renascer-se em luz
do eterno movimento que a liberta do tédio profundo das coisas iguais.
Mas este momento de míngua tem seus caprichos;
as vezes as nuvens que, delicada ou fervorosamente a protegem e esconde nesse movimento
se retiram, as vezes displicentemente sopradas por uma brisa morna,
as vezes violentamente impelidas por ventanias de sul.
Neste último minguar, ainda ao achar-se em pela metade e desmilinguindo
percebe seu reflexo nas águas do Mar,
não enxerga mais o brilho da sua luz refletida nas Flores,
se revolta; transborda de raiva, ardor, terror. Fim.
É sempre fim o movimento de minguar
e sempre rebrotar
Passada a dor e a loucura do desfazer-se, vem a quietude.
Mergulha inteira no escuro, quase conforto
um sono profundo que a abate para rever-se em sonho.
Fica nova. Lua Nova, emprestando o palco às estrelas
divertindo-se em silêncio com os vagalumes, estrelas na Terra
Seu brilho inicia o retorno, e vem, criança chegando em festa
novamente alegria e travessura, retomando seu espaço
ocupando novamente o lugar que lhe pertence.
Até ficar plena, cheia e transbordante
e retomar seu ciclo.
Essa é sua natureza!!
Diferente da natureza de Mar, de Flor, de Sol,
cada qual com seu percurso de vida, morte, renascimento.
Intrinsecamente ligadas em sua essência
é da natureza dessa existência também experimentar seus ciclos
na certeza de que, o renascer de cada uma só fortalece a vida
a ligação, a beleza de sermos UM
uma ecologia inteira.
Uma vez Lua quis ser pássaro....
sonhou-se fênix!
Não conseguiu nunca enganar seu ciclo!!!
TE AMO
MARina
Elenira Lua,
ResponderExcluirDistraídas nos atraímos em experimentos muito opostos. Você já leoa solar e eu ainda tudo nuvem... Penso que todos os relacionamentos têm seus pingos e cada um tem sua graça particular. Mas antes de começar, devo confessar-te que creio na purificação e no renascimento dos afetos. Quanto mais chama arde pele é porque já sabemos onde estamos entre carne-viva. E se confessar é tarefa que creditamos aos padres e juízes, peço-te logo perdão por te colocar no difícil papel algoz. Não raro vejo que ainda me lês em tábuas de marés passadas para traçar em torto meus novos rumos. Me atiras feitos e não-feitos sobre meu corpo já por mim tão castigado. Meu coração criança sabe que no fundo a ti só cabe amar, mas ele, bobo, acha que só lhe resta defender-me. Tu, querida amiga, partícipe incontestável dos meus movimentos mais profundos, espelho do meu melhor, de incansável esperança em expurgar o meu pior sem negociação, porque teu coração raro é assim intempestivo: sabe ver através dos véus e exige simplesmente nada menos do que já se é. Depois das tormentas caminhamos entre rosas e humanizando-nos-aceitamos. Agora vejo-te entre mil respiros-sobrevivência e quase entendo tua dor e teu privilégio de ter olhos quando todos já cegos. Será que não sabes, leoa, que mesmo quando o sol se veste de noite ainda vemos teu rosto espelhado em mil luas? É que teu brilho solar é tão intenso que só pode ser apreciado assim, de dentro. Que morram as vacas e sangrem os tigres! Hei de conquistar-te, leoa solar, nem com ouro, mirra ou incenso, seremos!
Com amor,
Verônica Natividade