
Meu nome é São Paulo, uma cidade criança, já vivi 455 anos. Homens criam seus ninhos urbanos há muito tempo, os primeiros dizem ter surgido de quinze a cinco mil anos, um pequeno ‘não se sabe quando’ de dez mil anos. Quando viram minha colina, alta e plana, a pele “mui sadia, fresca e de boas águas" foram logo dizendo que tinha "ares frios e temperados como os de Espanha", me senti uma européia, já nasci colonizada, “nova rica”, deslumbrada. Ao olharem minhas veias, cristalinas de antemão, acenaram para baixo e buscaram o portão. Anhangabaú de fronte e Tamanduateí ladrão, como corria translúcida, sem pressa nem posse meu turbilhão.
Engraçado mesmo foi que nunca havia visto tanta gente vestida. Quando calor fazia, era padre que entrava era padre que saía, e assim fui cravada, ponto zero de minha alma na Companhia de Jesus, um sagrado coração. Não tardou sentido fazer e meu coração virou colégio, minha sina: educação. Educação?
Traçaram logo na carne, na tríade de minha ascensão, chamando de vértices os conventos; São Francisco, São Bento e do Carmo. Em 1681, na contagem dos homens, me chamaram de cabeça da Capitania de São Paulo, dei tanta risada. Pouco mais tarde orgulhosos disseram: “agora você não é mais Vila menina, cresceu, já é uma Cidade”. Uma Cidade! Eu sou uma cidade!
Tinha até quartel onde homens vestidos saíam em missões saneadora atrás de homens pelados. Diziam que eram muito diferentes dos outros, confesso que, a não ser pela roupa, demorei a perceber a diferença, moviam-se em bandos atrás de umas pedras, chamadas preciosas, lá pras bandas de sertões, um longe que agora é perto. Cada nome que inventam! Estes eram bandeirantes, hoje sem-teto são.
Em 1895 moravam em mim 130 mil homens, dos quais 71 mil eram estrangeiros. Já se passaram tantos anos e ainda não entendo esta história de “estrangeiro”, se estrangeiro é quem vem de fora, quem são estes que estão aqui? Pisquei rapidamente, e passaram cinco anos, praticamente dobraram de número. Saíram do triangulo no minuto seguinte e de lá para cá me conectaram com o mundo todo, cosmopolita, hoje conurbada e conturbada.
Ganhei linhas de bonde, reservatório d’água e o que mais me emocionou, me “alumiaram” com um tal de lampião de gás. À noite, na penumbra se perdiam em minhas sombras e falava em mil línguas. Bela moça na janela! Era virado paulista que comia lazzanha de mocotó e sonhava com “trigais dançantes”.
Debutei com a Paulista e o chá da construção, viaduto me fez a ponte entre o novo e coração, meu umbigo itinerante. Mais uma virada secular e começa a nossa saga, de leão em leão, o primeiro titulado, tinha nome de patrão, ou melhor, de conselheiro, o Prefeito Silva Prado. Executivo divorciou-se do legislativo, e começa a emoção. Enquanto, Passos rasgava o Rio em Branco, ganhei a Luz, minha estação primeira Railway.
De 1915 pra cá, a moda é um tal de “gueto-seguro”, horas chamam de “bairro-jardim”, ora “Alphaville”. Um tal de americanizar estilo. Tudo isso foi causando muita dor e cicatriz, é problema que não acaba. Rim esquerdo quando inflama, é pior que o Billings, tô na fila do transplante e não implorar. Se não fosse a transfusão Cantareira e mineira não sei onde íamos parar!
Foram me furando tanto que debaixo da saia pareço queijo suíço. Veias entupidas, artérias nem se fala, outro dia a principal parou de vez, disseram ser capote de mais um motoboy, mas era manifestação, tinha gente que gritava: Seu guarda não bate não! É Real, é só família queremos mesmo é habitar. Habitar? Era casa que caia e pobre pelo chão. Realmente não daria pra ficar com o pontão, toda linda, estaiada, palpitava o coração. No jornal só se dizia: motoboy caiu no chão! Entupiu a jugular e carro não anda não! Manifesto sem manchete e mais pobre no sertão.
Automóvel, esse danado, me entope o coração, nem respiro nem cochilo só viário é a razão. Bota plano, dá-lhe ponte e prefeito de freguês. Prestes Maia que faz plano ou o que invade e habita chão. Asfaltada, “espartilhada”, permear não posso não.
Pinheiros, intestino ao contrário, tão dragando a direção, quando enfezo perco logo meu baião. Abusaram! E nem chuva bebo não, cabe só no piscinão ou em copos, já furados, aja visto Cambuçi. De casal abençoado pra penugem no ladrão, esta sina de ser cisne...
Conurbada, minhas irmãs, não perguntam mais se não, vão saindo em contramão na procura do portão. Muitos dizem que sou densa, mas se enganam os que me habitam. São dezenas, já centenas que esperam por morar e a danada desta gente que não tarda de lutar.
Coração, antes sagrado, tem mais ar do que se pesa, uma conta nada exata que não canso de fazer. São milhares de imóveis num vazio de se espantar e centenas de pessoas sem um teto pra morar. Vai pra lá de muitos anos que não paro de contar. Vai família e mais família viaduto habitar. A soma desta conta é mesmo de se espantar.
Tem letrado que diz logo: - essa gente é que atrapalha, tira o pobre e põe a verba que iremos prosperar. Vem empresa, fino trato e imposto, nem pensar! Joga jovem na prisão, põe pivete no furgão e expulsa quem ganha pão. Caí hotel de muambeiro, peruano fujão e terão muita terra pra plantar nesta prisão. Limpa tudo, bem limpinho e de noite tem luz não, de manhã logo cedinho vai passar nosso patrão. Se “Ma puto ou core ano” já abrigo no centrão, por que razão eu teria de pra chineses dizer não?
Outros dizem: - são poetas, argumentam no portão, socializa essa gente que vão ver o que é visão. Pego o oco e taca gente que vai ter a solução.
Tô cansada e gelada, cada vez mais entubada, passa carro, passarada. Se golpeiam como cães e não tardam por penar.
Vamos logo minha gente se levanta e vem brincar! Me ajudem a respirar que não vamos mais tardar. Eu seguro você puxa, “cê” carrega e ela meche. Quando olharem um pro outro ganharão um novo irmão. Antes que a veia arrebente e detone o coração, antes disto, minha gente põe pra fora opinião. Não esqueçam, bem depressa, ponham luz na escuridão.
Afinal este é meu lema: Non ducor duco (Não sou conduzido, conduzo). À condução das minhas próprias vontades e idéias, à desopilação de meu fígado! À minha proposta de alma, ao ser-city, ao habitar-me, ao amor, ao parto de minhas futuras gerações, à sua presença em mim!