30.11.09

Eu borboleta você passarinho



Cruzou os braços no ar e ressuscitou os sentimentos que acreditava estarem extintos, mesmo sem me conhecer passou a me ver por aí. Como mágica uma porção de sósias foram borbulhando no ar, batia as asas ali e logo elas apareciam, efervescência que lentamente o fez divagar e voar ao contrário. Não podia pensar no meu fundo olhar que já o levava ao vacilo e, como que caindo de corrente quente segura, perdia os sentidos e parafraseava o ar em queda abrupta. Um abismo de casa no lago nos fez viver assim, fora do tempo, com asas avessas. Eu, acreditando extinguir-me em presa, ele, fingidor predador de borboletas. No entanto, todos sabíamos que éramos apenas um par de estranhos com tons soberbos, ele nu azul esverdeado, eu verde em folha ao sol. Como separados do ninho nos perdemos em jardim secreto e hoje sou beijaleta, ele, borbo-flôr.

25.11.09

Recuerdos de lolita-me




Já faz um tempo que não perco tempo tentando me definir, lembro-me de movimentos frenéticos que urgiam personalizar a tudo que tocava. Da cor favorita à maneira de expressar-se com ardentes verdades, um querer que não cessava, só de me remeter já sinto o cansar. Quantos “achismos” e barulhos mentais, uma inteligência perversa e brilhante que transformava tudo num chiado fervoroso. Escrevo em busca da saudade, para migrar no tempo, viajar por alguns minutos no remoto e então encontrar onde esta está. Um ser sensual, sem dúvida, que transbordava e como gato, arriscava-se em ser arisca, selvagem. Sinto saudade de suas curvas delineadas e sua sede de vida, disto sim, que saudade desta menina, e do quanto fingia ser mulher. Na dúvida, a lição era logo pronunciada, mantinha-se o charme e ronronava-se deliciosamente. Velas acesas, perfumes e gostos inebriantes, e claro, o que ainda faço sempre, me perder em notas gênio musicais, admirar a arte e tocá-la entre mãos e pés. Sim, to sentindo-a agora, lá vem ela, minha Lolita saudade, agora a entendo, como La Paloma Azul tocada por Paul Desmond, nota por nota, espreguiçando-se em Ipanema, apaixonada, contando grãos, louvando o sol, curvando-se ao infinito e parodiando besteiras, como era bom este meu carnaval. Chegava em casa e corria pela casa, blasfemando verdades e cantando, sempre cantando, cercada de amigos, da família, do ar no mar e seu cheiro de melancia mareada. É, lá estou eu, podendo ser olhada por mim com ternura e saudade. Ah! Se eu pudesse voltar, não tenham dúvidas, “começaria tudo outra vez se preciso fosse”, com cada um de vocês, pois hoje tenho a clareza que parte de mim já é vocês. Com amor da filha, da amiga, da irmã, da prima, da amante, da aprendiz, da menina, Elenira.

De Repente à São Paulo



Meu nome é São Paulo, uma cidade criança, já vivi 455 anos. Homens criam seus ninhos urbanos há muito tempo, os primeiros dizem ter surgido de quinze a cinco mil anos, um pequeno ‘não se sabe quando’ de dez mil anos. Quando viram minha colina, alta e plana, a pele “mui sadia, fresca e de boas águas" foram logo dizendo que tinha "ares frios e temperados como os de Espanha", me senti uma européia, já nasci colonizada, “nova rica”, deslumbrada. Ao olharem minhas veias, cristalinas de antemão, acenaram para baixo e buscaram o portão. Anhangabaú de fronte e Tamanduateí ladrão, como corria translúcida, sem pressa nem posse meu turbilhão.
Engraçado mesmo foi que nunca havia visto tanta gente vestida. Quando calor fazia, era padre que entrava era padre que saía, e assim fui cravada, ponto zero de minha alma na Companhia de Jesus, um sagrado coração. Não tardou sentido fazer e meu coração virou colégio, minha sina: educação. Educação?
Traçaram logo na carne, na tríade de minha ascensão, chamando de vértices os conventos; São Francisco, São Bento e do Carmo. Em 1681, na contagem dos homens, me chamaram de cabeça da Capitania de São Paulo, dei tanta risada. Pouco mais tarde orgulhosos disseram: “agora você não é mais Vila menina, cresceu, já é uma Cidade”. Uma Cidade! Eu sou uma cidade!
Tinha até quartel onde homens vestidos saíam em missões saneadora atrás de homens pelados. Diziam que eram muito diferentes dos outros, confesso que, a não ser pela roupa, demorei a perceber a diferença, moviam-se em bandos atrás de umas pedras, chamadas preciosas, lá pras bandas de sertões, um longe que agora é perto. Cada nome que inventam! Estes eram bandeirantes, hoje sem-teto são.
Em 1895 moravam em mim 130 mil homens, dos quais 71 mil eram estrangeiros. Já se passaram tantos anos e ainda não entendo esta história de “estrangeiro”, se estrangeiro é quem vem de fora, quem são estes que estão aqui? Pisquei rapidamente, e passaram cinco anos, praticamente dobraram de número. Saíram do triangulo no minuto seguinte e de lá para cá me conectaram com o mundo todo, cosmopolita, hoje conurbada e conturbada.
Ganhei linhas de bonde, reservatório d’água e o que mais me emocionou, me “alumiaram” com um tal de lampião de gás. À noite, na penumbra se perdiam em minhas sombras e falava em mil línguas. Bela moça na janela! Era virado paulista que comia lazzanha de mocotó e sonhava com “trigais dançantes”.
Debutei com a Paulista e o chá da construção, viaduto me fez a ponte entre o novo e coração, meu umbigo itinerante. Mais uma virada secular e começa a nossa saga, de leão em leão, o primeiro titulado, tinha nome de patrão, ou melhor, de conselheiro, o Prefeito Silva Prado. Executivo divorciou-se do legislativo, e começa a emoção. Enquanto, Passos rasgava o Rio em Branco, ganhei a Luz, minha estação primeira Railway.
De 1915 pra cá, a moda é um tal de “gueto-seguro”, horas chamam de “bairro-jardim”, ora “Alphaville”. Um tal de americanizar estilo. Tudo isso foi causando muita dor e cicatriz, é problema que não acaba. Rim esquerdo quando inflama, é pior que o Billings, tô na fila do transplante e não implorar. Se não fosse a transfusão Cantareira e mineira não sei onde íamos parar!
Foram me furando tanto que debaixo da saia pareço queijo suíço. Veias entupidas, artérias nem se fala, outro dia a principal parou de vez, disseram ser capote de mais um motoboy, mas era manifestação, tinha gente que gritava: Seu guarda não bate não! É Real, é só família queremos mesmo é habitar. Habitar? Era casa que caia e pobre pelo chão. Realmente não daria pra ficar com o pontão, toda linda, estaiada, palpitava o coração. No jornal só se dizia: motoboy caiu no chão! Entupiu a jugular e carro não anda não! Manifesto sem manchete e mais pobre no sertão.
Automóvel, esse danado, me entope o coração, nem respiro nem cochilo só viário é a razão. Bota plano, dá-lhe ponte e prefeito de freguês. Prestes Maia que faz plano ou o que invade e habita chão. Asfaltada, “espartilhada”, permear não posso não.
Pinheiros, intestino ao contrário, tão dragando a direção, quando enfezo perco logo meu baião. Abusaram! E nem chuva bebo não, cabe só no piscinão ou em copos, já furados, aja visto Cambuçi. De casal abençoado pra penugem no ladrão, esta sina de ser cisne...
Conurbada, minhas irmãs, não perguntam mais se não, vão saindo em contramão na procura do portão. Muitos dizem que sou densa, mas se enganam os que me habitam. São dezenas, já centenas que esperam por morar e a danada desta gente que não tarda de lutar.
Coração, antes sagrado, tem mais ar do que se pesa, uma conta nada exata que não canso de fazer. São milhares de imóveis num vazio de se espantar e centenas de pessoas sem um teto pra morar. Vai pra lá de muitos anos que não paro de contar. Vai família e mais família viaduto habitar. A soma desta conta é mesmo de se espantar.
Tem letrado que diz logo: - essa gente é que atrapalha, tira o pobre e põe a verba que iremos prosperar. Vem empresa, fino trato e imposto, nem pensar! Joga jovem na prisão, põe pivete no furgão e expulsa quem ganha pão. Caí hotel de muambeiro, peruano fujão e terão muita terra pra plantar nesta prisão. Limpa tudo, bem limpinho e de noite tem luz não, de manhã logo cedinho vai passar nosso patrão. Se “Ma puto ou core ano” já abrigo no centrão, por que razão eu teria de pra chineses dizer não?
Outros dizem: - são poetas, argumentam no portão, socializa essa gente que vão ver o que é visão. Pego o oco e taca gente que vai ter a solução.
Tô cansada e gelada, cada vez mais entubada, passa carro, passarada. Se golpeiam como cães e não tardam por penar.
Vamos logo minha gente se levanta e vem brincar! Me ajudem a respirar que não vamos mais tardar. Eu seguro você puxa, “cê” carrega e ela meche. Quando olharem um pro outro ganharão um novo irmão. Antes que a veia arrebente e detone o coração, antes disto, minha gente põe pra fora opinião. Não esqueçam, bem depressa, ponham luz na escuridão.
Afinal este é meu lema: Non ducor duco (Não sou conduzido, conduzo). À condução das minhas próprias vontades e idéias, à desopilação de meu fígado! À minha proposta de alma, ao ser-city, ao habitar-me, ao amor, ao parto de minhas futuras gerações, à sua presença em mim!

23.11.09

Comunhão


Flutuava sobre a terra batida e encerada de tantas gingadas passadas, a luz penetrava pelas frestas do telheiro e ao redor só se via a silhueta dos corpos. Não tinha um único par de olhos que não a fitava sonhando, marejados, seus passos faziam a todos se recordarem, as crianças vagavam livremente sem que houvesse qualquer impedimento para serem, mudavam as flores de lugar. A menina, a mulher e a anciã em uma só presença, a temperança sem pressa de lua, nem resquício de sol. De mãe menininha a Euá, todas ali reunidas em prece num único corpo que transcendia em luz e fé. Os cabelos caiam sobre os ombros nus e esvoaçavam com a brisa que subia pela colina saída do dia que se punha atrás das montanhas, aquele que nunca mais seria o mesmo. O via na perspectiva de sua direção e em saltos seu coração lhe escapava a qualquer jus compreensão, eram apenas as três a caminhar para o encontro de si no outro. Seria através deste estar que se proporcionaria tamanho banquete amoroso, sem pressa, cotidianamente satisfazendo-se de plurais e ardências necessárias. Víamos-nos todos como em câmera lenta, com o vento emaranhando racionalidades e beijando cada corpo emocionado. Quando alcançou sua mão e a puxou para junto de si sentimos o chão nos faltar, o amor tem destas coisas, faz com que o chão, na batida do coração, migre em céu e céu em ser chão, simples assim, como tudo o mais.

18.11.09

O ciclo e a tenda


O ciclo e a tenda
Quando o vi, recém saído da barriga, reconheci entre nós o amor. Suas mãos tão pequenas e enrugadas mal sabiam o que ainda estava por vir, seu próprio viver. Ainda nem abriu seus olhos para ver o vir, está quieto nos braços orgulhosos de sua mãe. O ver dela sim, este está repleto, transbordante, só de cruzar com seus olhos já sinto o arrepio subindo com pressa pela minha coluna. Nosso primeiro encontro foi rápido, pois a próxima visita era de sua própria avó, sedenta por ter nos braços seu primeiro continuado. Voltei com o corpo cheio de vida e esperança, e no dia seguinte, com as mãos tranqüilas, trabalhei o dia inteiro exercitando o meu fazer-se com mais vontade de estar entre nós. À noite, para o meu melhor perceber-me, de moléculas e nacos de ser carnal, estive na yoga por algumas horas em busca de equilíbrio. Voltei caminhando lentamente e observando cada detalhe das ruas por onde passava, algo diferente, como que cotidianamente. Ao chegar, uma notícia que fez com que o arrepio voltasse como que instantaneamente, gelando todo meu corpo, uma pessoa especial havia partido. Incumbida de passar a notícia para uma amada muito próxima meu coração pareceu esmagar-se, ela estaria sendo aguardada para ajudar nas providências do ir-se. Acabo de voltar do momento da despedida, de abraçar os laços desorientados, de sentir tamanha dor, e como dói. Saí como que desesperada por estar em casa e fui direto à tenda do Nilo ter a lembrança do tempero de minha avó no céu da minha boca. Debruçada no balcão, tentei enxergar a roda, o ciclo, a razão, e como num passe de mágica, no meio da selva de concreto entrou no salão a resposta borboleta, obrigada vô, viver vale mesmo tudo a pena, ainda sinto suas partículas moléculas no meu existir completa, até daqui a pouco, no outro extremo da ponte.

Elis Regina cantando "No céu da vibração", música de Gilberto Gil para Chico Xavier: http://www.youtube.com/watch?v=rT6xr7rjw4Y&feature=related

11.11.09

Dependência Luz


Faltou luz para todos por volta das dez horas do dia dez. Eu estava na Granja comemorando o aniversário de uma amiga quando lá por volta da uma da manhã todas as outras quiseram ir embora. Enfrentei os rapozo tavares em comboio feminino e depois uma cidade fantasma que pouco dava para enxergar, uma cidade sem contornos. Algumas ruas com barricadas, idiotas acelerando nas avenidas sem pardais, alguns outros bebendo na escuridão. Como lua não havia ficou ainda mais complicado fazer identificações. Subindo a Inácio vi uma equipe de reportagem do SBT e não tive dúvidas, botei a cara pra fora do carro e gritei: 2012!!! Depois comecei a rir de minha própria piada em quando a outra mostrava centímetros de mais medo. Após deixá-la a aventura acentuou-se, era eu e uma cidade assombrada em sombras. Só fui encontrar ajuda nos cruzamentos da Brasil, a elegante avenida concentrava grande parte dos reguladores do transito, curioso para bons entendedores. Contornei o obelisco e a coisa ficou literalmente preta, não se via mais nada e tive que atravessar a alça da Vinte e Três nas escuras, frio na barriga, mas certeza que não me apagaria agora. Para estacionar foi o maior problema as vagas estavam ocupadas e fui me distanciando mais, ao dobrar a esquina, numa memória de rua já mais escura, parei a jamanta de lata. Ao sair da bolha de proteção veio o medo, não conseguia identificar onde pisava e olhava para trás freneticamente para ter certeza que ninguém me seguia. Cada passo em direção ao portão foi ensaiando minha cegueira até o fim das escadas e à própria cama, onde permaneci até às onze do dia onze deste ano nove. Nove, um, um de Avenida Prestes Maia, de gêmeas voando e pânico planetário. De dependência Luz.

3.11.09

Raquel Trindade declama poema de seu pai, Solano Trindade "Trem sujo da Leopoldina"

Seguem dois presentes incríveis, o primeiro é este vídeo que está no youtube, olhem que coisa mais linda este poema do Solano Trindade recitado por sua filha Raquel. O segundo é um pequeno texto de Bertold Brecht!

http://www.youtube.com/watch?v=bDWEGsNehEE&feature=player_embedded

"Passar fome

Respondendo a uma pessoa sobre a pátria, o sr. K. tinha dito: 'Posso passar fome em todo lugar'. Então um ouvinte mais rigoroso lhe perguntou o que significava ele dizer que passava fome, quando na realidade tinha o que comer. O sr. K. justificou-se dizendo: 'Provavelmente eu quis dizer que posso viver, se quiser viver, em todo lugar onde reina a fome. Admito que é bem diferente se eu mesmo passo fome ou se vivo onde reina a fome. Mas para minha desculpa me será permitido dizer que viver onde reina a fome é, para mim, se não tão ruim quanto passar fome, certamente muito ruim. Para outros não teria importância que eu passasse fome, mas é importante que eu seja contra o fato de haver fome'". Bertold Brecht

O importante é ser contra o fato de haver fome e principalmete não deixar que freio nenhum nos faça calar. Não se fartem de aconchegos desnecessários ainda temos um mundo para construir, um mundo sem fome! Ao trabalho!

amor bastante
Elenira