
Era uma vez, curiosas almas idênticas que engalfinham-se há muitos anos, ariscas, espelhos de si, amantes soberbos, estes, já nasceram reinantes, predadores e sós. Quando juntos a parecença os levava ao caos, semelhanças abruptas os fizeram derramar-se pelo território nacional, cheio de estados entre os entes, assim imaginavam estar seguros, condizente com a própria natureza de gatos selvagens. Dividiram o país em dois, territorizavam-se e travavam verdadeiras batalhas sociais, curiosamente sob a mesma bandeira e com mãos convictas. Pensadores de seus tempos, articuladores de luta, exímios guerreiros, elos de práxis e saber, afetos comuns. Se perdiam o faro, e por muito tempo ficavam sem qualquer notícia, os calos iam apertando e nada mais fazia sentido, uma queda de braço imaginária os condenava ao eterno, os desencontros providenciais era disfarce essencial, assim deliravam ter controle sobre os corações. Leões, fortes presenças, leais amantes, sagazes, heróis e ternos, mas com garras sempre afiadas, pondiagudas, desordeiras. Uma década e meia de batidas sincrônicas, deuses vaidosos do apocalipse, seres fotossensíveis, poetas esdrúxulos, panteras caçadoras, críticos ferrenhos que transbordavam excessos e oravam ambigüidades. Sonhavam despertar em outra era, lutavam pela cooperação, mas entre eles havia algo, um mistério, um segredo. Sem vestígio de pista que os revelasse, era um eterno aguardar a volta do próprio corpo, viviam como amputados, buscando a parte que não estava alí, camuflando-se em explicações individuais a seus distintos problemas. Juravam conhecer-lhes e surpreendiam-se ao toque, quando as peles encostavam, era como se a superfície da água deixasse de existir por alguns segundos e, como explodindo, integravam-se, como ondas no meio do oceano. Às vezes, tinham medo dos próprios mitos, seriam eles narcisos de si ou alma única, gato que decidiu bifurcar-se. A leoa solar, quando só, desejava compartilhar o continuado, via o Leo, em sua dança, maturar o próprio tempo, mesmo sabendo que aquela poderia se tornar à verdadeira tempestade. Para ela, era irresistível esse afogamento, queria o preenchimento, contemplava a união, acariciava os pelos imaginando-os, todos juntos em cambada. O leão, mais misterioso ainda, mergulhado em sua solidão, mesmo entre muitos, rasgava-se para dar seu salto e encontrar espaço para eles, já mais manso, com menos medo, podia acenar mesmo sem suportar tocá-la, a espera pelo continuado gritava em seu existir espécie, e abrandava seu ser carnívoro. Gatos pardos, esquivos amigos, respiravam num mesmo ritmo, como num só corpo. Deixaram de frustrar-se quando as expectativas perderam o sentido de existir, largaram-se à deriva, ao sonho e abandonaram o pânico de transmutarem-se em presas. Podia se crer nas intempéries do tempo, nas correntes marítimas, nos corais ou formações rochosas, ou mesmo numa máquina de fricção que os conduzisse, mas depois de tudo experimentarem, entenderam que o que determinaria o encontro das naus não eram suas bússolas nem as próprias pulsações sincrônicas cardíacas, confiantes compreenderam que à escrita, ou o segredo, era maior do que qualquer livre arbítrio e mergulharam no misterioso sistema solar expandindo-se no universo, constelados.
Nenhum comentário:
Postar um comentário