
Chove em mil todos os idiomas que não li, torna-se urgente este desejo por decifrações, o que invade, rompe a comporta e inunda é o verbo, presente nesta era de extrema informação, carente de subjetivações. Encaro ser observador indotrinável, e arranco todo mapa de narração, o que escapa e espanta, divago-me, persisto. Cada gota trazia do céu torna-me mais humana, fato que apenas pelo meu existir mulher já é cabido. Para Sidarta ser o iluminado abriu as mãos, meditativas, de sua princesa e do próprio continuado, se a mesma desejasse o sempre, como o marido, também poderia tê-los dado à confiança da deriva, mas na condição de gênero esta observação é vã, onde visto-me todas, mistura líquida. Talvez, se outra parte, que não costela, fosse nos dado, teríamos maior restrita liberdade. Desde então correm nuas pelos caminhos e ventam por dentro, a prole proteger, colheita rendar, palavra seduzir e pacientes o etérno aguardar; fez-no todos caminhar e, logicamente, pêlos perder. As mamutes mamães guardam suas lembranças em células ancestrais, milenares, e sonham com pombas e pompas de cada viver continuado, para elas não existe fio tênue, metade ou gêmea gema, se infintram e inflamam-se quando acharem conveniente, observam o balé dos corpos em movimento e calorosamente amam quando podem, e não estão em pé de guerra, dentro da gente, mareadas. Um bater frenético de lucidez e honra, para transmutar cada semente, ovas de si, os vêm blasfemar paixões de esmos com passível perplexidade e em cultura isolam-se sós, carcomidas pelo ireciclavel sistema, sem resignação, dolorosamente. Amontoados de erros ou acertos, tudo se faz indiferente, sonhos de vida inteira ou de meia vida não deixam pó ou rastro de lembranças, certas ou incertas, sem mais importância do que antes, apenas remo forte, contra corrente para, ao menos, transformar solidão em solitude, dignidade, retorno do nunca, a chave para próprios “se nãos”, retornar, voltar, tornar-se, incansáveis vezes. Mesmo podendo a qualquer momento contornar elas mesmas e irradiar tamanha explosão de luz, vão implodindo célula por célula, palavra por palavra, gesto por gesto, navegando-se. Para entende como é possível para estas criaturas criativas este diluir-se e coesas aglutinarem-se emanadas, ousamos dizer, que todas, sem exceção, compreendem, mesmo sem darem conta, que a única forma de uma gota não secar é jogando-na ao oceano. Ao mar, gênero regenero, volto em gota refletir, espelhos de mim, fonte inesgotável de ternura, assim decido chovê-las em mim, em mil e parto para um próximo adentrar, extração relâmpago encharcada de gritos e silêncios, ou até de ausências tardias, e pequenas bobagens que brotam espontaneamente, gargalhadas despida de choves num molha e, como nunca nos falta, baldes de pressentimentos. Lá vou eu, oscilando entre alagar-me e postular-me ao gotejamento das ditaduras, à gota d’água.
obs. a imagem é de uma colagem que fiz para minha mãe, comigo dentro da barriga dela. Depois coloquei as missangas e fiz um bloco de acrílico. No verso esta escrito "era uma casa muito engraçada, não tinha teto..."