29.10.09

Quanto Vênus és?


Para consumidores sagazes, os bons, desta crença em coisa mundo, só existe um tipo de mulher ideal. Logicamente magra, delineada, cintura marcada, com cabelos brilhantes e lisos, se possível claros, assim mechado, verdadeiramente. Pele clara de pêssego quase saindo do amarelo e, erupções cutâneas, nem pensar, a poluição obviamente a esta não atingirá. Roncar nem pensar também, nada de gestos largos ou ganisso abrupto, de preferência às que riem de suas piadas e que não se importam com o pouco desempenho quando sós. Fumar, de jeito nenhum, fetiche este era no tempo de suas avós, hoje são verdes e querem a paz mundial. Têm que ser inteligentes e bem informadas, mas não mais do que os bons, os fingidores da autoconfiança. É importante também saberem admirarem as boas coisas da vida para poderem com eles saborear, em pequenas doses é claro, e não as desejando apenas para si. Como bons produtos e atenciosas delicadas é de bom tom que tenham ouvidos pacientes e atentos a cada palavra desperdício. Mulheres infanto-maduras e puras que não tragam problemas gene-familiares ou almejem de mais, simplesmente Deusas receptivas que tragam tudo isso naturalmente para não haver gasto desnecessario por aí, tipo estas coisas fabricadas. Nada mais e nada menos do que Vênus sem braços que demonstram alegremente sua infinita tristeza de enfim pertencerem a esta coisa mundo ao satisfazerem os que apenas pensam ter.

26.10.09

Pé Quente


Quando acreditou compreender seu jogo rápido foi fulminada no instante seguinte, petulância estúpida, de quem exala medo e quer conter. Profanar palavras é o que resta nesta noite vão, não bastava o vento nas árvores, quis à seiva, foi ao chão. Acabou, debruçada mais uma vez na janela, protegida de seus próprios poros, sonâmbula, impermeável. À última porta está bem à frente, da posição que resiste é impossível ângulo ver e, a esta altura, também volta não há. Digo daquele minuto, àquele antes do alastramento, medo de bombeiro de porta que se abre e expande lambe fogo. O desejo carne pulsa, qualquer outra opção é o privar-ser e seus ossos a si isso não permitirão mesmo que para isso cacos tornem-se. Ou se é o que se têm ou se tem o que se é, nada mais há entre as duas opções, numa, seu pé quente é, noutra, cabeça sua fria.

24.10.09

Rodas de vida


A dor que aguda a vi sentir doeu-me à alma, percebi seu desejo ardente pelo desencarno e, diblando o tenso transito a caminho da emergente solução não resisti a uma crise de espirros-envolvimentos, era à direita, espirro, esquerda, espirro, acelera, espirro, breca! O sábado ardendo em primavera asfalto e eu estava ali, pasma, quase sem conseguir reagir. No trajeto conturbado pediu água algumas vezes e eu apressadamente levava a garrafa a sua boca, num momento de difícil flexão, entre uma virada a esquerda, seguida de uma à direita, sentiu sede novamente e sua filha mais velha, sentada no banco de trás se prontificou a ajudar-lhe. Assim que recebi o pedido de socorro tentei me comunicar com os continuados, já estava claro para mim que este compartilhar era primordial, o primeiro não atendeu, o outro não conseguiu sair da própria caverna, então a do Sol, mesmo com fala primeiramente brusca, rapidamente se articulou e já estava lá quando cheguei. Estremeci o corpo todo, aceitar a água desta podia mesmo fazer com que atingisse seus objetivos, afinal, das minhas mãos não significava nada, qualquer questão de gênero que tivesse existido entre nós já havia virado borboleta há muito tempo. Deixe-as na porta-pronto e corri para me livrar do pesado veículo, fui surpreendida na volta por não me permitirem a entrada, aquilo era mesmo algo que viveriam juntas. Após algum tempo, pouco mais de uma hora em pé, resolvi encontrar um canto próximo a um jardim e mergulhar nas páginas Índia, peripécias Sai Baba que coincidia com tudo que se passava num sincrônico balé do tempo. A luz do dia já estava se indo quando me procuraram para seguir, a filha estava aparentemente feliz e orgulhosa, talvez o despencar da mãe fosse mesmo uma oportunidade para colocar-se. Foi contando cada passo do vivido enquanto o pequeno corpo no banco de trás encolhido me olhava. Na porta da casa não foi diferente, fez questão de acompanhá-la e cuidar de seu alimento e graciosamente, o que às vezes é difícil para tal, agradeceu e me dispensou. No instante seguinte passei por aperto coração e o medo de não saber para onde ir, uma espécie de solitude desvairada, me empurrava para o barulho das águas, ladeira a baixo. Me vi absolutamente sozinha numa cidade com mais de vinte milhões de habitantes, como será que é possível tal argumento e passível transpiração, basta um momento e lá estamos todos sós apegados à grande roda das encarnações, apavorados.

23.10.09


Existem pessoas que estão mesmo aí para nos marcar, para trombarmos com sombra de passado e sem medo, transcendermos em mestre. Vê-lo caminhar sobre a água turbulenta é de entendimento tão simples que causa estranheza aos que pouco se conhecem. Como o menino do dedo verde tem o poder e o tormento de tornar mais amado a tudo que toca, não se sabe ao certo se, se tivesse poder de voltar no tempo, faria algo diferente. O que é possível de clareza saber é que nenhum dos seus tocados deseja retroceder. Mesmo quando palhaço com suas trocas de pernas bandeira é o amigo que todos desejam ter, às vezes socos e gritos saem sem que antes possa conter, mas nada que em tapa ofenda. Para alguns a visão das asas é nítida e a plumagem descompassada nada mais do que esplendor. Ontem mesmo, com o copo na mão na madrugada envolvente pensei: inteligente é aquele que escolhe as pessoas certas para conviver, sábio são os que as conservam cotidianamente. É amigo Polly, o tempo, para o amor, é o melhor aliado. Eternamente, Topcy.

22.10.09

distintos inseparáveis




























Quando novos, a impressão é que éramos inseparáveis. De fato, a única verdade obtida é que a minha postura conduzia a esta percepção. Daí supõem que o amor pode mesmo ter lentes parciais, não se sabe de certo se este também pode ser o fato de não haver mais espaço para o ‘nós’. Com opções diversas nos constelamos esparramados pelo território e quando nos poucos momentos juntos não se via mais união tamanha com tal facilidade. No início da bifurcação foi como se o chão me houvesse faltado, doía largamente e o meu medo era do não suportar. Na sua vida não havia uma brecha para o meu existir, talvez pelo meu tamanho estardalhaço ou por sua restrita fenda. Pode ser que meus gestos longos faziam-me não caber, esta é uma grande provável. Hoje a dor não é mais continua, mas como termômetro das intempéries, muitas vezes, não me deixam dormir. Não há como saber da dimensão ou espaço exatos, mas com certeza, no jogo dos encaixes, estes ‘nós’ perderam a mão e como, por conseguinte seu xeque-mate.

21.10.09

Viaduto Santa Efigênia, o rito do tempo


Hoje me aconteceu entender a mágica da desaparecença, enquanto deslizava sobre o geométrico mosaico do viaduto Santa Efigênia, em direção à minha muambização digital, fui observando os ambulantes cosmopolitas que vendiam de tudo, chapéus, porta cds, cintos de couro, pequenos helicópteros, cópias piratas do que você bem entendesse e, até mesmo, um aparente boliviano que vendia orquídeas, fiquei pensando como às produzia. A cada passo de minha observação eu recordava meu avô e das histórias que já ouvi sobre ele, de seu desespero em vender qualquer coisa que fosse para poder levar dinheiro para casa ou de sua maneira mágica de quase existir. Minha vontade era comprar tudo, de alguma forma participar de suas alegrias, mas pelas minhas próprias opções de vida seria impossível com as parcas moedas que continha. Quando dei por mim já estava exatamente no centro do viaduto e em minha direção sem nenhum cuidado ou preocupação avançava com velocidade o carro da guarda civil metropolitana. Ainda a tempo de jogar meu corpo para o lado e safar-me do atropelo virei para acompanhar o trajeto do veículo, deslocando meu corpo novamente. Abri um grande sorriso ao ver que ali já não havia nem vendedor nem mercadoria alguma. Lá estava nas minhas costas um viaduto higienizado, uma paisagem de outro hemisfério ou meu próprio devaneio, foi um só minuto de passadas e me perdi das saudades do avô e deste existir moedas.

Deslocamento na esperança


Meu deslocamento na esperança sempre foi tão fervoroso que aos que provocam-na em mim, certas vezes, os leva aos próprios pânicos. O faiscador arrepende-se ao ver-me tornar-me tocha e disparar o estilhaço. O medo alheio do compromisso por queimar-se é agudo e às vezes, diante do meu arrependimento e invasão, percebo que o que há de bom em mim também destrói tudo, meu próprio lamber floresta e renascer. Um desejo de construir uma vida em luz, de ser livre, de dar-me o tempo necessário e abrir mão das amarguras tornou-me uma mulher perigo, atravessadora de ágil ardor. A está altura, mais do que qualquer um, eu transformo fagulhas alheias em labaredas e caminho certo de construtor de cidades-amores. O egoísmo em não me desfazer dos amores, aqui me torna ancora e quando algum deles acena, como quem indicando ir, eu corro na frente, em disparada, repleta de crenças inúteis. Esse meu adiar desprender-se se tornou perigo aos tão preservados amados e meu desejo por arquitetar sai-me pelas entranhas ao mesmo tempo em que me imobiliza. O salto está por um triz e causará turbulência certa, mas eu terei que fazê-lo sem causar tamanho desconforto aos que acenam, ou seja, meu movimento terá que se descobrir só e ali nitidamente está meu medo de implosão e foco. O barco começou a afundar e não há tanto espaço no bote, caberiam todos, mas o desejo de não enxergar os fez apegar-se ao iate. À minha deriva falta fé, se isso eu tivesse não seria necessário causar ondulações e disparates e, certamente, meu existir confiança estaria repleto.

obs. fotos do filme Manni Sulla Cittá um filme de 62

18.10.09

Egberto, o despertador de giz montes!


Foi uma Gismonte emoção, daquelas que só uma excelência Egberto desperta tão facilmente. A opção de ir só foi logo de bom grado alegremente aceita, assim experimentei emoções impares e despertei momentos lembranças. O início, sempre a pedra mais difícil a estilhaçar-se foi lançada na paisagem diamantina, Chapada de caminhadas exaustivas, recordo de vento e medo, de meu transitar criança e adulta, na passagem. Minhas amigas já longe do horizonte e minha solidão em pânico, medo de nunca mais ser achada ou se encontrar. Às via com admiração quando em pouco as alcançava, nem podiam imaginar o sofrimento, o desespero e presente fracasso, era impossível para minhas carnes o passo sincronizado e a cada minuto, perdida na paisagem, mais uma vez me encontrava. Meu corpo e eu, sempre nesta busca descompassada. Lembrança segunda, após caipira paisagem, foi à nítida imagem de meu irmão, ainda criança, correndo no estreito corredor com cheiro de flor de café, canção “palhaço” saia pela janela da casa e fazia meu irmão correr com mais velocidade. De volta ao show fui acordada com meu próprio transbordar de lágrimas, de uma invasão saudade de iluminar qualquer casa com futuro família. Minha capacidade de amar estava ali estampada entre notas soberbas e gotas despertas. Talvez, alguns de meus filhos que ainda virão me façam recordar aquele rosto alegre e faceiro novamente, sempre tão confortáveis nos braços de minha mãe. Este Egberto é mesmo de marcar o corpo da gente! Terceira lembrança veio logo em seguida, nós todos crianças, a lú, o ti, o di, a fê e eu, o riso de cada um, o momento do meu pai, o cheiro da lasanha da minha mãe, o cachorro enlouquecido, o Zé libertando-se e a tartaruga calmamente ainda perdida no quintal. No futuro direi a meus filhos que momentos são como jóias e só dependem da nossa presença, de Ser Encarnado, e não menos importante, a Arte, que sempre estará aí para nos despertar de cativeiros e aconchegos desnecessários.

15.10.09

Bruta Flôr


Minha amiga Mariana Senne é uma amada que sempre consegue impressionar-me. Quando acredito que ela tornou-se uma atriz completa e atingiu a excelência deparo-me com seu próximo trabalho e perco o fôlego. Desta vez, em “Bruta Flôr”, meu coração quase não aguentou, ao final do espetáculo, ainda em prantos, fui abraça-la tomada de um orgulho e admiração incalculáveis. Não há nada mais emocionante do que quando nos deparamos com pura e esplêndida Obra de Arte. Poderia aqui fazer algum anúncio sobre o se passa quando vivemos tais emoções, mas não posso lhes privar da surpresa de seus encontros, de suas histórias, de suas vidas. Confiem e vão, apenas isso. Parabéns a Cláudia Schapira, Lu Favoreto, Lucienne Guedes, Jerusa Mesina, Cibele Forjaz, Cia. Oito Nova dança, Cia. São Jorge de Variedades, Núcleo Bartolomeu de Depoimentos e claro, minha amada e talentosa amiga, Mari. Meninas vocês me fizeram transmutar, ali queimei minha amargura, estou livre! Obrigada.
Onde: Sesc Consolação
Quando: quinta e sexta 21h
Não se privem deste deleite, suas almas agradecem! Menos que isso é nada!
com amor, Elenira

12.10.09

Para ser-se amoroso


Para ser-se amoroso
devé-se antes reunir as partes,
após argumentação sensata
diz-se rapidamente:
reúna-se semente!
Se comportamento manada brotar,
Grite em berro muito alto
Não resolvendo,
apele
Cachacesse na escarra noite escura
Sozinha em dor resuma-se logo
Urge o tempo
alvoroço
Troca soco arria calça
Vedete patética de sí mesma
Esfrega a carne fria em boca seca
Rala-se no asfalto,
devassa-se devasta-se liberte-se
amoral viceral carnal
esporra-se em ergum city
compre-a
analfabeta medieval
grita mais
esganissada
em caco pare
mine-se
diga rapidamente:
reúna-se semente!
enfia luz
atocha consciencia
afogue-se em sí.
Não resolvendo,
há ainda um argumento
o derradeiro
silencioso
aquele que não pronuncia-se
acata-se e pronto
esvai-se em mil
aquele,
a que todos procuramos
e nem noite
nem dia
nem denso
nem são
ninguém
encontra
sozinho

sem coordenadas


AUSENTO-ME
DE NARRAÇÃO
E DEIXO TE ASSIM:
PASMO DE TANTO
DEVASTADO
IMPURO

MOVIMENTO
ESTÉRICO
SOLTO
SOLUÇANTE
PRANTO TONTO

VOCÊ,
VANGUARDA
NA MINHA VIDA
PRISMA SUBURBANO
ATRAVESSA O SALÃO
SAI DE SI RAPAZ...

DEIXE-SE ENXERGAR
TIRA DURA CAPA
ESGARCESSE FEBRIL
ROMPA
INVADA
VOA-ME

Eu sou minha própria


Podia suportar quase tudo, às vezes falta de dinheiro, outras de alguém para amar, até mesmo perspectiva ás vezes faltava, mas se longe da cozinha por muito tempo o insuportável me subia pelas paredes. Vivia grande parte do ano na casa de minha avó paterna, lá uma brecha para o tanto era mesmo muito raro, quando não à segunda, a avó que veio de presente, se irritava ao me ver transitar pela cozinha, ali o espaço do minúsculo latifúndio era disputados num silêncio constrangedor, muitas vezes tornava o ar agressivo. Já ás conhecia tempo de mais para saber que quando uma cantarolava após uma pequena queda de braço, a outra rangia os dentes e alfinetava sobre outro assunto, um balé onde às vezes não havia um único escape. Às duas juntas, somavam mais de 170 anos, tinham um engajar indissolúvel quando mentiam uma para outra, a culpa era tanta, que o próprio estar revelava, para vida de cada um tinham sempre o que dizer, às tardes de inverno eram as mais esdrúxulas, alfinetavam-se fingindo assistir programas sensacionalistas enquanto eu tentava respirar e dedilhar freneticamente entre a bruma de um caldo ou uma grande defumação, digo gigantemente, pois às ervas quando queimavam transformavam o pequeno apartamento nas reais brumas de Avalon, tudo sumia perante a fé de minha avó, pedia sempre tão fervorosamente que a força de suas palavras podiam pender egoístas, os seus eram sempre os preciosos e a eles defendia como leão. Para chegar na cozinha, sem que me sentissem, o ar faltar, sei que tudo isso mora dentro de mim, fazia barulho o menos possível, á mais sensível ao som, a que me veio de presente, percebia mais rápido que a outra, e entre pés me enfrentava sem levantar o tom, mas com grande violência: o que você está cozinhando, não acha que temos comida o suficiente, você é igual a sua avó, sempre inventando!

11.10.09

O Bote


São Paulo, século XXI, zona de combate tridimensional, vasta arena de jogos, simulações e caças. O fotógrafo é a presa, seu olhar periférico trás vantagem vital, quando em foco, através das suas mil lentes, poeta sente-se. A caçadora, predadora argilosa, com sua visão panorâmica de especialista aérea, confia que o elemento surpresa será sua maior arma na emboscada. Num piscar de olhos aumenta sua velocidade para o bote, mas decepciona-se ao ver que a presa também atinge tal rapidez e desaparece no concreto horizonte das fragmentações. Não desiste fácil, segue na espreita por algum deslize do capturador de instantes, em disparada o encurrala, a presa luta e mais uma vez consegue o escape. A predadora não mede esforços para atingi-lo e numa luta contra a gravidade parte num mergulho rasante, atravessa edifícios longínquos, praças depauperadas e corpos estilhaçados quando então atinge sua velocidade máxima e adentra ao vão interior, prisma bifurcante de improvável transpor, isola-o em si, sem retroagir ou esquecer sonha o alcançar em núpcias.

Vale um conto


O vale á minha frente, é horizonte sinuoso, repleto de ausências, no abafar dos pássaros está a presente serra, a que arranca sem sombra de deixar raiz voltar. Relinchos e sussurros substituem-se por motocas mimadas e competitivas, todos se fartam de carnes congeladas na frente de suas águas represadas e geladas, águas de um azul quase verdadeiro, que só sentem corpos nos esparsos verões, quando não em praia reticulada. O capital em capim, eucalipto ou lote de enfartos, é lotado de domingo e sobra à segunda, lixo extremo de loucura, de ânsia feliz, de querer mais e mais, sucessivamente “antropofagindocoisas”. Restos humanos, gases soturnos de puro estufamento de vazios. A natureza mais próxima é edificada de horizontes, não há isolamento entre os entes, condenados ao conviver não cooperativo, sugam o pouco leite, a miséria de outrora. É aqui, neste paraíso de isolamentos retalhados que aos filhos, terras deixam infeliz. Se decidir não compactuar finja dissimuladamente sem que percebam, fora já vai estar, oculte qualquer clareza e peça o seu mal passado, regado ou enlatado que não a do outro lado, escute, não vai dar grito, urrar é estupimento, prepare a sua barriga e umbigo no sofrimento. Na dúvida mantenha o charme e, para finalizar, ofereça sua sobremesa, recheada de poesia, salpicadas de verdades frescas, escancaradas, talvez, quem sabe, um café e conto de pensamentos.

Odisséia da bifurcação


foto de Anderson Barbosa

caminhos pareados
retorno impossível

à frente apenas
a luz do capital
falo cumieira
palco cínico
esforço civil

acelera!
segue rápido

vai uma trás da outra
rodas duplas
faróis unos
homens correspondências
à prontidão
servos da entrega

acelera!
segue rápido

navegam rispidamente
num mar sólido
intransponível
homens líquidos
efêmeros
fugazes
cruzes da civilização

acelera!
segue rápido

para eles
àquele é ponto chave
espaço
entre
o antes e o depois
passagem rápida
buraco vida

acelera!
segue rápido

dali, à frente
amontoados de moedas
encontros manobras
tiros no silêncio
neblina em vão

acelera!
segue rápido

vedete cafeeira
da Real sensação
arrogante
nem sonhava
ser um dia
palco de migração

acelera!
segue rápido

de palácio à espigão
masp vão
à lima
transmigração
rumo à esvair-se
nas margens do ribeirão

acelera!
segue rápido

como tudo
é cenário
furo metaforização
segue sempre a mesma ordem
buraco fractal da especulação

acelera!
segue rápido

tatuado de grafia
de leitura e muitas mãos
coloridas
inspiradas
segue a sua tradição
de cultura impermanente
à espera de paixão

acelera!
segue rápido

é beleza
é passagem
é blindada à ação
vai crescendo a murada
contra pivetização

acelera!
segue rápido

segui sonho
puro ícone
horizonte bifurcação
sobre ele
quem caminha é de sensação
em seu corpo sub-rua
se pedestre é contra-mão

acelera!
segue rápido

janelas solares
rasgam à visão
bicicletas suspensas
intrigam cada gestão
reunião de camaradas
fomentando articulação

acelera!
segue rápido

objeto em clausura
nó de signo
fixação
sob rodas
sob céu
sub rua
sub emprego
sobe não!

acelera!
segue rápido

10.10.09

Descompassos


Descompassos de trajetória alheia cortam-me a carne sem cessar, quando acesso a memória à mesma arde e torna-me vil, mesquinha, cercada de aconchegos que aprisionam. Não há grades que não posso construir para sustentar cada ilusão segurança. Passa por mim perspectivas inimagináveis, solares, interferentes...A névoa me conduz ao esquecimento, de passado longínquo à presente freqüente, não há sobras, grãos, pente fino, medos soberbos e transbordo de sombra. A exclusão da alegria, o medo do grito, a mão composta. Pare! Solte o crepúsculo infindável de cada dúvida e rapidamente atéie-se em ilha, pudera antes ser isso não possível mais, meus olhos já estiveram percorrendo o corpo, na flor, na pele em luz, no amor. Abre! Imploro seu perdão, ainda há tempo para nesta conseguir, rompa o silêncio da noite escura e projete-se, desperte suas asas, da dor do desuso, de correntes sanguíneas, de vozes que invadem o vento e torne-me um. Qualificar relação e clarear intenção de ação em ser pessoal, movimentar a conquista de si e coordenar as ações que me levam ao prazer, ao lúcido desejar, ao arder em mim, ao satisfazer-me de espaço amoroso, ao transformar-me em mundo, humana.

Copo d’água do perdoa-me


Segure-me
Os sapatos de menina fabricava toda a manhã, corria para preparar o almoço à família do outro. Ele a amava profundamente, nunca esqueceu à primeira vista, cabelos negros molhados num bem cortado vestido branco, pensavam que era bobo e inocente, mas, o futuro, disso achou graça. Ele era a metade lúdica, o homem dos fios e borboletas, ela, a perseverança, um construir infinito de valia e determinação que a levaram ao nada. Olha para trás, a muito sem ele e não encontra razão, presa em seu existir mental, despiu-se de sua amargura perto da hora do reencontro. Seus frutos, perdidos num existir cidade, ainda vivem caverna, quando notou que a desunião era unânime desmoronou todo orgulho construído, às pedras que carregou formaram os degraus que ninguém conseguiria subir. Lembrava-se da sogra e das desavenças, dizia que o copo em suas mão a deixou partir e perguntava-se: quem seria a segurar o seu?


Profundo seria recompor-se por completo
Deixar de sobras, vírgulas desnecessárias...
Palhaçadas de narração
Se me catatau a esta altura
Posso alcançar o indesejado
E morrer poeta maldito
Acho que como a amiga das amigas dizia
quero ser avó quituteira, tetuda contadora de causos
Ter pé de Flôr cheirosa sob árvore frondosa
Deslirar com os descendentes, agregados e decentes integrados
E orar, num amontoado de amores
Ver tucano voar,
papagaio gritar e
Claro,
Macaco vigiar
Punir ninguém,
nem à tardinha
Poder soberba ser absorvida pela própria terra
Não se achar nada além do que não necessita de palavras
De pessoa-função não sobrar nem a palavra dúvida
E ao charme retornar, em movimentos quase em lenta câmera
Reencontrar o irmão em si e migrar para outros horizontes
Livre rolar de grama, desnecessário territorializar
Bater tambor, cantar, fazer doer eternos
Despir-se de primores e outras bobagens
Tomar o copo d’água das próprias mão
na doçura de experimentador
E enfim, virar o que sempre foi,
trans, lúcida, borboleta.

Da competição para cooperação:


O leão ama a leoa
O leão odeia a leoa
A leoa tem o filhote
O leão come o filhote
A leoa ama o leão
A leoa odeia o leão
O filhote ama o leão
A leoa quer o filhote
A leoa come o leão
A terra come a leoa

E assim, enfim...
Sucessão
Leãotropofagica

Que leva leão
algum
A comer leão nenhum.

Leãonivo-nos!

Odisséia dos Leos Navegantes


Era uma vez, curiosas almas idênticas que engalfinham-se há muitos anos, ariscas, espelhos de si, amantes soberbos, estes, já nasceram reinantes, predadores e sós. Quando juntos a parecença os levava ao caos, semelhanças abruptas os fizeram derramar-se pelo território nacional, cheio de estados entre os entes, assim imaginavam estar seguros, condizente com a própria natureza de gatos selvagens. Dividiram o país em dois, territorizavam-se e travavam verdadeiras batalhas sociais, curiosamente sob a mesma bandeira e com mãos convictas. Pensadores de seus tempos, articuladores de luta, exímios guerreiros, elos de práxis e saber, afetos comuns. Se perdiam o faro, e por muito tempo ficavam sem qualquer notícia, os calos iam apertando e nada mais fazia sentido, uma queda de braço imaginária os condenava ao eterno, os desencontros providenciais era disfarce essencial, assim deliravam ter controle sobre os corações. Leões, fortes presenças, leais amantes, sagazes, heróis e ternos, mas com garras sempre afiadas, pondiagudas, desordeiras. Uma década e meia de batidas sincrônicas, deuses vaidosos do apocalipse, seres fotossensíveis, poetas esdrúxulos, panteras caçadoras, críticos ferrenhos que transbordavam excessos e oravam ambigüidades. Sonhavam despertar em outra era, lutavam pela cooperação, mas entre eles havia algo, um mistério, um segredo. Sem vestígio de pista que os revelasse, era um eterno aguardar a volta do próprio corpo, viviam como amputados, buscando a parte que não estava alí, camuflando-se em explicações individuais a seus distintos problemas. Juravam conhecer-lhes e surpreendiam-se ao toque, quando as peles encostavam, era como se a superfície da água deixasse de existir por alguns segundos e, como explodindo, integravam-se, como ondas no meio do oceano. Às vezes, tinham medo dos próprios mitos, seriam eles narcisos de si ou alma única, gato que decidiu bifurcar-se. A leoa solar, quando só, desejava compartilhar o continuado, via o Leo, em sua dança, maturar o próprio tempo, mesmo sabendo que aquela poderia se tornar à verdadeira tempestade. Para ela, era irresistível esse afogamento, queria o preenchimento, contemplava a união, acariciava os pelos imaginando-os, todos juntos em cambada. O leão, mais misterioso ainda, mergulhado em sua solidão, mesmo entre muitos, rasgava-se para dar seu salto e encontrar espaço para eles, já mais manso, com menos medo, podia acenar mesmo sem suportar tocá-la, a espera pelo continuado gritava em seu existir espécie, e abrandava seu ser carnívoro. Gatos pardos, esquivos amigos, respiravam num mesmo ritmo, como num só corpo. Deixaram de frustrar-se quando as expectativas perderam o sentido de existir, largaram-se à deriva, ao sonho e abandonaram o pânico de transmutarem-se em presas. Podia se crer nas intempéries do tempo, nas correntes marítimas, nos corais ou formações rochosas, ou mesmo numa máquina de fricção que os conduzisse, mas depois de tudo experimentarem, entenderam que o que determinaria o encontro das naus não eram suas bússolas nem as próprias pulsações sincrônicas cardíacas, confiantes compreenderam que à escrita, ou o segredo, era maior do que qualquer livre arbítrio e mergulharam no misterioso sistema solar expandindo-se no universo, constelados.

Um par de estranhos


Um par de estranhos
Ele era de um tom azul esverdeado, um peito de luz e intenso color,
Ela, de cor folha ao sol, pulava de galho em galho procurando distraí-lo
Se o vissem juntos, juravam ser de espécie diferentes
Podiam até comer-se se não estivéssemos saído das cavernas
O jogo era rápido, ninguém conseguia atrapalhá-lo
Quando juntos, mudavam de cor, simplesmente
Os distintos indistinguíveis eram mesmo inseparáveis
Isso lhes bastava o tempo todo
Quem os contrariava gania em vão
Uma constelação de pios
e perdiam-se no espaço,
camaleando-se
Lá vão eles,
Colorir
o infinito
do duo coração
de um intenso
jardim secreto

Ergum Ego


São City-Ego

subiu
sucesso.
Cita-me
Imploro
Vai,
Cita-me
sorvo
em
ser
vil
Exita-me
sem
ser-se
não posso
mais ser eu
sem ser só
servil
vai
exita-me
cita-me
meu
Súdito,
Meu soluço;
meu par na
escuridão

Ode ao Ser Prefeito Perfeito


Ode ao Ser Prefeito Perfeito,

Revolta Record
Globo Plasme-se
Folhe-se
Estade-se jamais
Isso nunca!
Auto-organização?
Perigo de mais!
Junho,
Dois mil e mais nove
Gélido buraco negro
Capital do capital
Sulga sensacional
Cru cinza e boca oca
Milhões pegrados na cruz
Secretário falou
Polícia aclamou
Ta vendo aquele moço
Infartando o craque coração
Olha lá
Me dá decreto
Pra liminar tirar do chão
Crava choque
Sem a SUS permissão
Que lei que nada
Prende logo!
Num ta vendo
Este é menino-resto.
Não tem alma e emoção
Limpa tudo
Gentrifica
Chama o pipa
Lava o chão
Puni logo
ou vigia esse fujão
Lota o carro
E despeja imigrante solução
Craco bão é craco morto
Manda longe este bundão
Quero tudo direitinho
Vou cuspir no esquerdão
Gente fina
Só bacana
Enche o bolso e põe ao chão
Liminar?
Ta doido moço.
Eu te dou é concessão
É tua moço, pega!
Põe a luz no seu porão
Tira logo
Eu, vista grossa
Pra fazer minha canção
aclamamos nome chique
de desenho aplicação
Vai depressa,
quero muito quarteirão
Essa gente me deu tudo
E imposto uso em vão
Cala a boca dessa gente
Gente pobre e exigente
Vai morar ó Tiradentes
Ou barraco na nascente
Aqui não meu irmão
Aqui é Belém da escuridão
Ortodoxo em pó carente
Vou te dar uma ação
Vai poder pegar moleque
E trancar no camburão
Vai tirar o ganha pão
Nem hotel quero no chão
Minha mão
Oh! obra prima do meu ego
Em cada vão
No futuro, eu homem cita-se
Vou brilhar em bronse vão
Lá vai ele o seu perfeito
Que rasgou a escuridão
Que varreu essa cidade
De quem não tem
Um tustão
Cracolândia?
Nem lembrança
Nova luz
Óh! Solução
No futuro tua lembraça
Jaz pacivo em pó varão
Procuraram em todo canto
Não acharam coração

obs. colagem com fotos de Isadora Lins no dia da reintegração de posse da ocupação Plinio Ramos

Gotas de gênero



Chove em mil todos os idiomas que não li, torna-se urgente este desejo por decifrações, o que invade, rompe a comporta e inunda é o verbo, presente nesta era de extrema informação, carente de subjetivações. Encaro ser observador indotrinável, e arranco todo mapa de narração, o que escapa e espanta, divago-me, persisto. Cada gota trazia do céu torna-me mais humana, fato que apenas pelo meu existir mulher já é cabido. Para Sidarta ser o iluminado abriu as mãos, meditativas, de sua princesa e do próprio continuado, se a mesma desejasse o sempre, como o marido, também poderia tê-los dado à confiança da deriva, mas na condição de gênero esta observação é vã, onde visto-me todas, mistura líquida. Talvez, se outra parte, que não costela, fosse nos dado, teríamos maior restrita liberdade. Desde então correm nuas pelos caminhos e ventam por dentro, a prole proteger, colheita rendar, palavra seduzir e pacientes o etérno aguardar; fez-no todos caminhar e, logicamente, pêlos perder. As mamutes mamães guardam suas lembranças em células ancestrais, milenares, e sonham com pombas e pompas de cada viver continuado, para elas não existe fio tênue, metade ou gêmea gema, se infintram e inflamam-se quando acharem conveniente, observam o balé dos corpos em movimento e calorosamente amam quando podem, e não estão em pé de guerra, dentro da gente, mareadas. Um bater frenético de lucidez e honra, para transmutar cada semente, ovas de si, os vêm blasfemar paixões de esmos com passível perplexidade e em cultura isolam-se sós, carcomidas pelo ireciclavel sistema, sem resignação, dolorosamente. Amontoados de erros ou acertos, tudo se faz indiferente, sonhos de vida inteira ou de meia vida não deixam pó ou rastro de lembranças, certas ou incertas, sem mais importância do que antes, apenas remo forte, contra corrente para, ao menos, transformar solidão em solitude, dignidade, retorno do nunca, a chave para próprios “se nãos”, retornar, voltar, tornar-se, incansáveis vezes. Mesmo podendo a qualquer momento contornar elas mesmas e irradiar tamanha explosão de luz, vão implodindo célula por célula, palavra por palavra, gesto por gesto, navegando-se. Para entende como é possível para estas criaturas criativas este diluir-se e coesas aglutinarem-se emanadas, ousamos dizer, que todas, sem exceção, compreendem, mesmo sem darem conta, que a única forma de uma gota não secar é jogando-na ao oceano. Ao mar, gênero regenero, volto em gota refletir, espelhos de mim, fonte inesgotável de ternura, assim decido chovê-las em mim, em mil e parto para um próximo adentrar, extração relâmpago encharcada de gritos e silêncios, ou até de ausências tardias, e pequenas bobagens que brotam espontaneamente, gargalhadas despida de choves num molha e, como nunca nos falta, baldes de pressentimentos. Lá vou eu, oscilando entre alagar-me e postular-me ao gotejamento das ditaduras, à gota d’água.

obs. a imagem é de uma colagem que fiz para minha mãe, comigo dentro da barriga dela. Depois coloquei as missangas e fiz um bloco de acrílico. No verso esta escrito "era uma casa muito engraçada, não tinha teto..."

Angiorradiologica


Angiorradiologica
Quando me vir inconsciente, perdida, surfando na ignorância, arranque-me bruscamente. Com amor, não permita que me afogue, que as emoções se façam inteiras e que a mente não engane meus atos, ame-me, estenda sua mão e oportune espelho. Que eu possa junto de ti ter sentimento compartilhado e que nossos egos ísmos não cavalguem no esquecimento, se eu demorar a acordar, por favor, não me abandone, lembre-se que estou fazendo o que posso no momento e infelizmente ainda não tenho como ser igual você. Lembre de meu sorriso e conte-me quantas vezes puder nossas histórias, quando cruzamos nossos caminhos, como falei, orei e amei. Se no minuto seguinte eu perdida estar novamente, sacuda-me, honre o eterno, não tente esquecer-nos eu ainda chovo muito por dentro, trovões desnecessários ventam-me sem cessar. Quando o vejo sereno com seu pesar desconsolo tento alcançar seus passos, mas em vão tropeço novamente, onde deixei as letras que me orientavam... Amor, me diga quando eu em mil tornei-me só, por qual razão esqueci quem sou, onde estou e principalmente, porque não consigo me mexer, e, mesmo quando posso é puro atropelo de outros. A cegueira de uma cidade perdida entre ísmos de silêncio e pânicos de desencontros me consome, por que raio que, enquanto espécie, não saltamos num existir amoroso repleto, ou melhor, por que, nem ao menos consigo pular este meu te desesperar. Que infortúnio, o saber reprime as entrelinhas das pulsações e mais uma vez torno-me cruel, voraz e besta, seguro suas marcadas mãos... Devora-me! Aja rapidamente, tire estes livros de dentro de mim, estou estufada de antropofagias críticas e cuspes poéticos catárticos, de noite, quando acordo e tento em vão procurar seu inexistente corpo lembro-me de seu desistir, ou nunca existir, da ausência de chegadas e saídas, de minha inesgotável imaginação, quando terei coragem para enfiar a mão goela abaixo e tocá-lo, bata-me.