18.11.09

O ciclo e a tenda


O ciclo e a tenda
Quando o vi, recém saído da barriga, reconheci entre nós o amor. Suas mãos tão pequenas e enrugadas mal sabiam o que ainda estava por vir, seu próprio viver. Ainda nem abriu seus olhos para ver o vir, está quieto nos braços orgulhosos de sua mãe. O ver dela sim, este está repleto, transbordante, só de cruzar com seus olhos já sinto o arrepio subindo com pressa pela minha coluna. Nosso primeiro encontro foi rápido, pois a próxima visita era de sua própria avó, sedenta por ter nos braços seu primeiro continuado. Voltei com o corpo cheio de vida e esperança, e no dia seguinte, com as mãos tranqüilas, trabalhei o dia inteiro exercitando o meu fazer-se com mais vontade de estar entre nós. À noite, para o meu melhor perceber-me, de moléculas e nacos de ser carnal, estive na yoga por algumas horas em busca de equilíbrio. Voltei caminhando lentamente e observando cada detalhe das ruas por onde passava, algo diferente, como que cotidianamente. Ao chegar, uma notícia que fez com que o arrepio voltasse como que instantaneamente, gelando todo meu corpo, uma pessoa especial havia partido. Incumbida de passar a notícia para uma amada muito próxima meu coração pareceu esmagar-se, ela estaria sendo aguardada para ajudar nas providências do ir-se. Acabo de voltar do momento da despedida, de abraçar os laços desorientados, de sentir tamanha dor, e como dói. Saí como que desesperada por estar em casa e fui direto à tenda do Nilo ter a lembrança do tempero de minha avó no céu da minha boca. Debruçada no balcão, tentei enxergar a roda, o ciclo, a razão, e como num passe de mágica, no meio da selva de concreto entrou no salão a resposta borboleta, obrigada vô, viver vale mesmo tudo a pena, ainda sinto suas partículas moléculas no meu existir completa, até daqui a pouco, no outro extremo da ponte.

Elis Regina cantando "No céu da vibração", música de Gilberto Gil para Chico Xavier: http://www.youtube.com/watch?v=rT6xr7rjw4Y&feature=related

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