12.10.09

Eu sou minha própria


Podia suportar quase tudo, às vezes falta de dinheiro, outras de alguém para amar, até mesmo perspectiva ás vezes faltava, mas se longe da cozinha por muito tempo o insuportável me subia pelas paredes. Vivia grande parte do ano na casa de minha avó paterna, lá uma brecha para o tanto era mesmo muito raro, quando não à segunda, a avó que veio de presente, se irritava ao me ver transitar pela cozinha, ali o espaço do minúsculo latifúndio era disputados num silêncio constrangedor, muitas vezes tornava o ar agressivo. Já ás conhecia tempo de mais para saber que quando uma cantarolava após uma pequena queda de braço, a outra rangia os dentes e alfinetava sobre outro assunto, um balé onde às vezes não havia um único escape. Às duas juntas, somavam mais de 170 anos, tinham um engajar indissolúvel quando mentiam uma para outra, a culpa era tanta, que o próprio estar revelava, para vida de cada um tinham sempre o que dizer, às tardes de inverno eram as mais esdrúxulas, alfinetavam-se fingindo assistir programas sensacionalistas enquanto eu tentava respirar e dedilhar freneticamente entre a bruma de um caldo ou uma grande defumação, digo gigantemente, pois às ervas quando queimavam transformavam o pequeno apartamento nas reais brumas de Avalon, tudo sumia perante a fé de minha avó, pedia sempre tão fervorosamente que a força de suas palavras podiam pender egoístas, os seus eram sempre os preciosos e a eles defendia como leão. Para chegar na cozinha, sem que me sentissem, o ar faltar, sei que tudo isso mora dentro de mim, fazia barulho o menos possível, á mais sensível ao som, a que me veio de presente, percebia mais rápido que a outra, e entre pés me enfrentava sem levantar o tom, mas com grande violência: o que você está cozinhando, não acha que temos comida o suficiente, você é igual a sua avó, sempre inventando!

Nenhum comentário:

Postar um comentário