18.11.10
Perceber a gota d’água que era para seguir gravidade à dentro e esparramar-se no chão, mas contrária que é desejou ser leve e flutuar intacta, tornando o céu próximo e cinza-luz. Um dia perfeito para melancólicos e para não melancólicos. Quem é, assim se sente. E quem não, apenas respeita o tempo barroco e alonga-se nos lençóis procurando outro corpo. Dia livre para preguiças e chamegos sem remorsos ridículos e ímpetos avessos. Dia que insiste em querer ser outro por estar suspenso e, graças à sua predisposição arriscamo-nos a apenas olhar a paisagem molhada pela janela de nossa alma, percebendo as sombras e honrando as cinzas de cada dia. Enfim, mais um dia que nasceu para ser feliz e que deixa a imagem para sua paisagem.
11.11.10
Um

Longo período de palavras mudas e ações repletas acabam por findar. Foram tantas emoções vividas que minha alma está tomada da mais integra gratidão. Cada instante merecido sem desperdícios culpas e outras bobagens pormenores, que sempre nos fazem duvidar do que realmente somos. Cá estou eu, diante do que sempre desejei ser e viver, na simplicidade dos instantes, mergulhada no amor.
O resultado de tudo isso foi finalmente poder receber outro corpo no meu, meu continuado, ainda sem saber seu gênero de gotas, mas já o/a amando incondicionalmente, herança que o meu carrega.
Plenitude é uma palavra que antes só existia efêmera e, de fato, desejos me corroíam cega, em ego inteiro. Não foi necessário sentir saudade das palavras, pois letras borboleteavam sem cessar em seus tempos exatos, pasmano-me por completo.
Quantos absurdos em nome do que pensamos que somos são blasfemados quando não temos espaço para estar inteiramente entre outros. E o mais incrível que qualquer resto: como é bom nos vermos no outro, amar.
Meu corpo é nosso lar e é nele que repousamos depois de um dia pleno, eu e minha família, com Outronau acariciando a casa-ventre de nosso, ou nossa, continuada. Aqui, a sete mil léguas das distancias infindas dos desencontros, somos todos Um, sem transbordamentos e distrações.
15.9.10
15.6.10
A Tampa-Nau
10.6.10
Mimkais torrencial e um OutroNau sensacional

É assim, um dia somos um e no outro somos o infinito. De repente, num pulinho e estamos lá, do outro lado, onde antes não conseguíamos nem se quer enxergar existência. Imaginar era preciso, mas o tempo andava em descompasso no lago. Algo em mim, que também não lembrava existir deu um passo à frente e floriu ritmado, em passadas largas. Não posso nem ao menos dizer que ‘estou que não me caibo’, pois estaria sendo injusta, afinal, a xícara está na medida certa, no tempo exato e com o chá quente de ambos na ponta dos dedos. As palavras andam cabulando minhas mãos por quase falta de sangue. Com a força total no cardíaco meu caminhar está para lá das montanhas geladas e, bem no centro da salamandra, brasa um vôo tórrido entre dois seres alados que tomaram a decisão certa na hora exata e juntaram cada telha de perfeito encaixe num mesmo lago, não mais congelado, não mais em ondas, não mais repleto de lodo, não mais o que o impede de ser, apenas ‘Primavera, Verão, Outono, Inverno, Primavera’* , conseqüências de pequenos atos que podem durar a vida toda. Mimkais e OutroNau estão se metamorfoseando em KaisNau, porto nosso de cada dia, além.
*filme do diretor sul-coreano Ki-duk Kim
31.5.10
Osmoso
"Vontade de cantar tão absoluta que"

Uma pá de coisa acontecem a custa de muito trabalho, não poderia ser diferente com cada pa-lavra. É preciso preparar o solo, introduzir a semente e cuidar diariamente para que então em algum momento possa presente seguir florida. Tão pouco conosco é diferente. A ninguém existem garantias que o broto ‘árvore-se’ e assim seguimos adubando o corpo, acolhendo a grão, semeando os caminhos do devir em aparente deriva, porém sem esmorecer alma coerente. Mimkais por vezes se senti fatigado e é tratado como carcaça, sempre tentando esquecer que o único caminho possível é o da disciplina, da perseverança e o da alegria. Às vezes o vento muda de direção e tudo quente torna-se novamente e é nisto que ponho fé, ou ao menos tento. Mim’alma segue exigindo-se por completo e este ou zero ou nada um dia vai ter que passar para o está parecendo iniciar o um mais um e é nisto que invisto agora. Será necessário desvendar tal mistério ancestral e adubar o buraco certo para que no futuro ‘dês-frute’. Enquanto aguardo o momento da revelação ‘osmoso’ alegria na cidade dos elefantes, que até agora sobrevivem aos solitários tigres da arrogância. Hoje está parecendo o primeiro dia do resto da minha vida, se olhassem meus olhos-kais agora viriam que, como o poeta, “calo-me repleta”.
Porta gen-borboleta

Quando a porta se abriu o avô que estava por de trás das orelhas entranhou em cada partícula paterna. Foi como um suspiro, de um momento para o seguinte e já havia inalado milhares de borboletas apaziguando-se por completo. As moedas passaram a lhe fazer outro sentido, não mais o da sobrevivência como o do outro, mas no reflexo das avessas, o que também não quer dizer nada. À razão agora o visita sempre e quando não tem ninguém por perto todos pasmam com tal mistério. O que se passa no coração desta mente é mesmo de se criativar e por este motivo sugere-nos sempre que está tudo muito bem apesar das nuvens. A porta, no entanto, o aguarda sorridente para os momentos do afinal de contas. Quando fecha dói ‘purrrmão’ e entope tudo, mas como boa tramela que tem, logo sai em disparada causando folia e espalhando sítio pelos corredores. Lá em casa, aquela que só existe nas antigas lembranças, ele, porta, estaria adivinhando mais um passe de mágica do homem borboleta, enrolado na sua manta mágica multicolorida e, como frequentemente, procurando suas moedas entre pipas.
Lua precisa de Sol

Simplesmente pelo fato de ser humana viver sem a Sol beira o insuportável. Sem raio que me corra, num fim de tarde ou numa manhã qualquer, torno-me menos do que posso ser. Algumas pessoas tecem essa qualidade, incitam o melhor de ti e fazem nosso coração suavizar. Depois que as temos é um verdadeiro lamento estar sem suas presenças iluminadas. Parece-me que no fundo a vida não passa disso, uma possibilidade de rendarmos relações amorosas e amizades verdadeiras. Toda vez que eu digo adeus e quem compartilha comigo já observou que minha alma nômade, derivada de ancestrais, parti inúmeras vezes carregando cada lembrança-dedicação e afeto em bagagem Mimkais. Os aromas e gostos me acompanham também e lá no fundo, quando não tem mais ninguém por perto os deixo sair e as lágrimas escorrem tranqüilamente, felizes por estarem vivas novamente. Se alguém por aí perguntar do que sou composta não se esqueçam de dizer que fora os ossos, a carne, a pele, os órgãos e a alma, há uma porção bem generosa de cada ser que amo. Sol-me, Mar-me, Flor-me, Fê-me, Mãn-me, Pá-me, Tí-me, Flor-me, Negra-me, Rosa-me, Zéfá-me, Duda-me, Di-me, ou melhor, Martrize-me, Gina-me, Jãn-me, Vê-me, Poly-me, Rey-me, Alex-me, Lú-me, Má-me, Zunga-me, Uri-me, Dé-me, Cá-me, Jô-me, Dada-me, Mô-me, Chefinho-me, Ingrid-me, Dani-me, Cã-me, Zan-me, Gê-me, Dê-me, Mariá-me, Bruno-me, enfim, parte de Mimkais já é você. E, definitivamente, a Lua precisa da Sol para brilhar.
O dia em que a Mar subiu até a Lua

Sua alma e a minha estavam entrelaçadas de forma complexa, já somam, desta vez, pra lá da metade de nossas vidas e nem apresentam sinais de ser-parar-se. Veio ver Mimkais nas alturas e chegou como a conheci, aquela da qual já senti tanta saudade, esplendida, integra, em si. Aventurou-se pelo salão do bar dos homens, acertou bolas concomitantes, gritou, trocou afinidades, espantou-se com a cabeça do javali, mas quis seus dentes, adentrou casa adentro sorridente e fez-nos chás especiarias em plena forma abertura, pronta. No dia seguinte tocou a terra, recebeu lições preciosas, emplumou-se, cavalgou pelo vale, avermelhou-se por completo, lambarizou pela horta na plenitude da lua cheia de gêmeos bem no meio da calda do escorpião e trocou causos sentada no fogão com lenha fumegando gargalhando sem parar. Vimos um Mundo Novo e mais uma vez eternizamos fim de tarde derramando lágrimas emoção na soleira de mais uma de nossas portas. Lá vai ela recolhendo maré cheia para oceanizar-se amarela enquanto a Lua em mimkais alumia-me lar. É sempre assim quando descobrimos que nunca estamos sós: a mar refleti lua enquanto a lua refrata mar. Lá vamos nós mareluando pelos vales encantados catando pinhão e sonhos bromélia.
25.5.10
Perdão

Foi de uma só vez, pisquei e estava lá, a resposta revelada. Por vezes olhamos para uma pessoa a vida inteira sem entender o porque de suas coisas e num belo dia, entre uma carta e outra, surge o gesto que transmuta toda sua linhagem e o entendimento sobre o por quê das minhas próprias coisas, agora avessas por completo. Estava ali o tempo todo e como véu de noiva nublava-nos. Olho para ela hoje e vejo o amor e a doçura, quando criança por vezes sentia medo, sempre me questionava sobre nosso amor e de fato acabei derivando com minha mãe tais asperezas e espero que o presente-flor baste para tanto futuro desejado. A vi imacular seu passado diversas vezes com palavras duras de escorrer sangue e foi justamente quando às próprias mãos não podia controlar que amorou-se por completo, espalhando ternura e gestos mágicos. Estava ali a dificuldade nas minhas próprias coisas, nada mais do que isso, mais uma vez, pura oportunidade de transformar-me em curto espaço tempo. Suas rugas reveladas, que honro todos os dias existindo e colocando-me a serviço de Nós, enxergaram o porque de atrair experimentos por vezes tão dolorosos, exatamente como uma frágil floresta de bromélias que surge em estreitas fendas na bruta pedra e por fim flori sem dispersar letras contrarias e transpor passado perfeito. Foi necessária cada lágrima para torná-la o que viemos para ser e é daí, desta janela da alma que migro olhar futuro e os imagino pulando no banco de trás, na véspera de fins e pronta para os próximos.
24.5.10
coraçãozadas
Gonçalvando-me com o poder das palavras
Texto escrito dia 13 de maio de 2010, antes do plano divino reconfigurar-se por completo. Aquarela minha
Andando… Dia após dia no devir de entender estes homens circulando como baratas tontas em busca de si mesmos. Em raros e inesquecíveis momentos quando os vejo olhar o próximo é mesmo de se arrepiar. No fundo creio que estas lembranças são as que permanecerão no momento afinal de contas e isso, logicamente, muda as coisas de lugar.
Penso em tudo que me tornei quando honro meus antepassados através do cotidiano. Diferente de alguns e iguais a outros sigo em busca dos caminhos do meio, na corrida desenfreada para sair dos extremos. Apegada a poucas coisas, mas a estas de maneira significativa, como, por exemplo, viver apaixonadamente, quando borboleteio causando estranheza nos que são tocados pela maré das circunstancias e, não raramente, desperto seus tigres famintos e medrosos. Cegos e, muitas vezes, loucos, com uma raiva irracional ancestral, às vezes, diante de tanta intensidade me falta espantamento ao observar o transbordar.
O que mais gosto mesmo é de trocar olhares profundos e escutar palavras de doçura dos que têem seus egos amainados pelo amor e, portanto, tornaram-se simples, já que podem viver auto-organizados em comunidades humanas e comunicam-se espontaneamente.
Juntando papeis e propagando sonhos vou migrando pelas estradas do interior interagindo e procurando estar presente em espírito, corpo e mente na paisagem. Composta de partículas, como tudo o mais, tento identificar-nos além e encaro o desafio de tornar-me xícara acolhimento, colocando as informações demasiadas em lugar certo para que caiba o novo, a bruma. O observar da xícara com o líquido quente revela o tal: se está cheia de mais o evaporado não tem seu minuto para se aglutinar e se desvai fraco e dispenso, se está vazia de mais, não tem forças e conteúdo para alçar vôo. É preciso esta preparada, na medida certa, para que tenha espaço, conteúdo e força de transformação e então, lugar de recepção. Este sim, aconchego que não é cativeiro.
Frequentemente me via repleta, inflada, ou melhor, atolada em tantas informações, enlatada entre leituras, vivencias e imagens em demasia. Capturar nunca foi um problema para mim, nem mesmo metamoforsear o depois, mas, apesar de criativo, este diferente também nascia complexo. O minimalismo nunca foi meu forte, segundo uma amiga muito querida, de minimalista eu só tinha saias quando éramos adolescentes e apoteávamos na orla carioca.
Pelo próprio linguajar notam-se quantas palavras habitam este caos que, em hipótese alguma, anda atrás de ordem. Comecei escrevendo Haicais e hoje, mais uma vez, estou em busca deles, agora em lugar contrário, em MimKais. Quase como olhar um gramado contra o sol em colina de fim de outono, com a luz já na tangente. A princípio vemos aquele verde único, vibrante, mas, logo após a primeira piscadela notamos cada mico folha com seu verso iluminado transparente e pasmamos na primeira rajada de vento, quando dançam, como nós ao olharmos.
Este amadurecimento imaginético é fruto de uma espécie de silêncio que adquirimos com trabalho e tempo. É o poder de parar a mente por alguns segundos e permitir-se apenas movimentar os olhos na paisagem, respirar e notar-se pelo corpo, sossegando o raciocínio e pondo-se para fora. Meu corpo é mimkais, onde sou marcada pelo viver, onde posso me encontrar, em casa, na alma-corpo, no lar onde habito-me, repleta ou despida de vestígios, desencontrada ou em si, em solitude ou populada, serena ou arisca, selvagem e civilizada, enfim, aqui, em casa, vivo no mar das possibilidades e escolho à cada novo toque para onde vou ser e levar mimkais viventi.
Quando me recolho para escrever palavras e imagens é exatamente no intuito de antropofagiar o que existiu em mimkais, uma espécie de entendimento, um querer dizer que aqui agora ficou assim, sem esquecer de estar sempre à espera das próximas mudanças, ou melhor, oportunidades.
Olho para minhas rugas começando a surgir lentamente e lembro do meu primeiro amor. O que era aquele sentimento único, porque as avalanches surgem quando nem imaginamos ser possível existir e, o mais relevante, o que eu faria hoje se mais uma vez fosse possível oportuná-lo. Claro que tirando o óbvio de ser menos tola, menos prepotente e eterna, mesmo sabendo que deveria querê-lo menos, e não falo da pessoa, e sim do amor, ainda noto-me buscando extremos, vacilando na capacidade de crer no caminho do meio, ou ainda muito ignorante ou soberba para tal.
Confiar no plano divino me deixa assim, crente que a qualquer momento Mimkais vai receber um OutroNau e compartilharemos preciosidades quando em cotidiano. Afinar posturas e atitudes de ser no espaço-mundo, caminhar em passos próximos e espelhar sombras sem sobras de azar ou sorte, apenas dedicação e avesso, verso e prosa, construindo lembranças cardíacas, visto que podemos tanto na falta da necessidade de. A paisagem modifica-se com o trajeto da luz, a força do vento, da temperatura, do homem, da dor e do amor, não é para autentificarmos o que vemos que queremos compartilhar é porque já podemos fazê-lo sem evasão ou o oculto medo de ser querida.
Tons soturnos enebriam o instante das coisas, que tentam inutilmente permanecer imóveis, se nem as rochas crêem na fugas estabilidade quiçá nós, descobridores. Quem de nós optaria tornar-se ilha quando podemos navegar, zarpar para novos horizontes e renascer. Ninguém vai chegar a lugar nenhum sozinho visto que somos humanos e como formigas construímos e existimos em sociedade.
23.4.10
vai um lambarizin

Quando estamos entre amorosos podemos notar cada derramada de emoção alheia e conjunto transbordar, mesmo quando não nos conhecemos. De fato somos tão felizes que vemo-nos no micro do macro, no macro no micro e, quando pensamos estar repletos vai mais um lambarizin da horta à dentro. Compartilhar é o meu esbanjamento, minha alegria, minha pururuca! VALEU a meus lambaris da horta. Tô chegando.
15.4.10
Gamela
Além das lente, há sempre algo que nu seria o que não sabemos e, por mais que aja esforço mútuo em estarmos vivos, nos remete a tal condição tacanha: vermo-nos sempre como distintos. O eu sempre eu e você ainda o outro, bifurcados. Um outro incógnita é o que meu eu-esfinge, cego exige e assim vamos nos enganando pelo tempo afora, longínquos equivocados de nós mesmos. O que ofereço ao mundo é meu próprio existir gamela, simples estar a mercê canibal da espera antropofagica. Assim: como quem não quer nada, num fim de tarde cinematográfico quando as palavras já não fazem sentindo algum e não importam para nada, incognoscíveis, indizíveis, improváveis e transbordadas. Renuncia sublime que liberta e coloca-se presente ao mundo das possibilidades.
OPORTUNO

OPORTUNO seria ser sem precedentes, sair da tormenta que nos atordoa, apenas arder, crescer como árvore paciente, florir e passar para o próximo gomo, continuamente. Mas algo lá dentro, num galho entranhado, quase imperceptível frutificou e maduro aguarda o devir fazer migrar caroço. Cada palavra é soletrada até um congestionar de letras, mas, ao contrário da noção de ordem, organizam-se mesmo é no caos, reconfortadas por serem fractais de pontos e vírgulas. O que aqui parece incompreensível um dia será óbvio para outro um e nascerá o inesperado. A redundância de quem finge que não espera e transporta, ao outro, origem surpresa. O exagero nasceu impregnado na minha alma de uma maneira adequada, por mais que não pareça à primeira vista dos náufragos. O exercício aqui é sair do estado máximo e procurar o caminho do meio ao contrário, como a volta do retorno. Ser composta de grandes desafios me causa sobras e restos que justificam minha ausência, ou minha preguiça de apenas deixar às folhas saírem. Incógnita infinda para uns, mar do descobrimento para outros, e, para mim, apenas OPORTUNO.
1.4.10
Borboleta pequenina

(escrito dia 17 de março de 2010_colagem com fotos do passeio do dia 19 no restaurante da Dona Neide)
Pela primeira vez na vida cheguei no momento certo. Após um café em Jerusalém, com os relatos invisíveis de sua filha, fui alongar-me na varanda sob o jardim do rio sinuoso. Foi nesta hora, neste instante exato que a vi sair de seu casulo, titubeando partes, com medo, está sim se espreguiçava com vontade, com sede de vida. Enquanto a eternizava soltou suas garras e fez seu primeiro pouso, precisamente no meu coração, certeira. A metáfora da metamorfose chamava a de fora para ser de dentro e enfim, derramávamos sobre o jardim. Como posso afirmar que não estou nem há uma semana aqui se em mim permaneço. O ar que entra em meus pulmões vai lavando resquícios de cracas-máguas e o barulho das águas é límpido, nascente. Este é o ponto encruzilhada daqui para frente nada poderá tornar-se o patético mesmo, mas agora, ainda em câmera lenta, os ventos afagam meus cabelos e a presença teia inicia sua jornada sistêmica. Tenho conhecido, tocado e trocado ideias com muitos enraizados por dia, olhamos profundamente um para o outro, dizemos nossos nomes e convidamo-nos ao existir mútuo. Observo minha presença sem árduas críticas ou margem de preocupação, apenas sou o que posso da forma mais simples que no momento existo. Hoje está anunciado um dia mágico, dentre as muitas que sou a oradora ventará pela Terra Fria, este estar já me causou antigos pânicos, principalmente quando havia uma mistura entre a pessoa-função e a pessoa papel, ainda bem que liberte-me no momento anterior, quando o trabalho queria ser eu, mas pude ser mais. Hoje estou aqui, no meu menor tamanho, podendo sobreviver a qualquer tempestade, integra, contagiando fé e amorosidade pelas estradas de Terra. Grata por sair da confusão da mente e existir nas alturas, metamorfoseando e notando-se borboleta.
10.3.10
véspera subida

Daqui a exatamente 48h amanhecerei em novos horizontes. Esta véspera, ainda noite, está tão próxima de iluminar que ouço meu frisson borbulhar. Respirar fundo e subir no esplendor da terceira montanha, migrar meus átomos, quimicar nas alturas, transcender comunitariamentente. "Quem tá comigo me acompanha"
5.3.10
mama mia
inercia devir

Sabe a sensação de quando estamos andando em uma extensa esteira rolante; tipo a da estação Copacabana; e ela termina. Nosso cérebro por alguns segundos demora a entender-se com as pernas e temos a sensação que vamos cair, que perdemos o chão. Pois é assim sinto-me agora, após depositar a dissertação. Como se o corpo estivesse em desaceleração, em choque à inércia. Uma felicidade por ter cumprido o que me propus e adquirido uma visão futuro ampla, cheia de idéias, farta. Ser grata pelo processo, pelo crescimento, pelos valores, pelos laços. Saber, como o pequeno príncipe, que o cativar é o essencial e nada mais é importante do que SER na sua integridade. Agradeço a todos os laços e compartilho está vitória dissertativa. Obrigados queridos, por me tornarem uma pessoa tão rica, tão repleta, tão integrada de afetos. À nossa teia com ternura.
25.2.10
o ovo ou a galinha
A lógica é perversa e o capital especula em línguas inimagináveis, pior que ele são os seus pro-pragadores, puros egos. Apesar de espremer e sair sacanagem que não acaba mais, ainda olho pra isto tudo com um orgulho danado. Após 25 anos de abertura democrática estamos em pleno desenvolvimento civilizatório e ver os auto-organizados deslocando-se pelo território, imperando direitos e “blasfemando verdades” é mesmo de se admirar, sinal que somos mesmo centelha divida. Hoje, fora estas, escrevi mais de cinco milhares de palavras, os dedos da mão direita estão bastante doloridos e, pela postura adotada, o resto também. Fico pensando se todas elas caberiam dentro de uma imagem e, se esta, seria suficiente para dizer tudo que penso. Tenho postado neste espaço, sempre que posso, um processo dos avessos, como “o ovo e a galinha”, nunca sei quem nasceu primeiro se foi à imagem ou o enredo de palavras. A narração sem mapa torna-me o cristalino de momentos que transparecem, mas como “num piscar de olhos”, entardeço novamente e noto-me turva. Se fosse para me fazer entender eu estaria em “maus lençóis”, com palavras driblando ambíguas e figuras que se transformam em ler, não hei de fazer-me compreender com tanta facilidade desta maneira arisca, mas o que seria deste mistério se existisse pensando em existir... Hoje, cruel como um pro-pragador não facilitarei seu rumo e deixarei a imagem por tua conta. Capricha no pensamento e aflore-se lá pra dentro, arriscando a ser quem se é pode nos levar a além.
20.2.10
21*0*21*0

Domingo, Século 21, dia 21, mês 2 ano 10, faltam uns 21 dias para a defesa da dissertação. Quando tiver passado mais 21 dias, tudo terá história velha. O dia terá número múltiplo de 7, como este, o próprio dobro. Faltarão 292 dias para acabar o ano. Mas a previsão para hoje é de temperatura estável, claro, se nada me ventar por dentro. Caso aja chuva isolada, tudo bem, ainda vá lá... Mas tempestade não vai dar não, faltam 21 páginas para terminar a pesquisa-ação. Este dia vinte e um... um dia de lembranças solenes, começava o julgamento de Joana d’Arc, Marx publicava o Manifesto Comunista, nascia Nina Simone, morria Sérgio Naya... Ah! Que saudade deste dia que ainda não vivi, e já começa com uma hora a mais. Tudo certo! A soma dos números-dia anuncia que dois mais um é igual a três. Como à lógica, fractal-ancestral, eu diria que de duas uma, ou encaramos o terceiro milênio com igualdade, ou sobrará só um, provável que seja o Ego, sabe-se lá...
19.2.10
Ser-Parte

A sensação que se aproxima é de primavera, realização e esplendor. Tarefa cumprida de experimentador, do talho bruto ao requinte flor. Sempre achamos que podia ser mais, se houvesse tempo de aprofundar cada passo... Ah! Como seria bom! Contribuir para possível construção de Homem Humano é o que me sobe pela espinha arrepiando. Saber que tudo isso não passa de pó e perceber a dimensão da alma se alongar, compreender o todo em um minuto para no seguinte querer viver detalhe. Tirar o mapa de narração do próprio eixo e enfim poder avistá-lo. Cá está ele, repleto de estrelinhas sem derramar, apenas do tamanho que se é, infinitamente um minúsculo gigantesco, um Ser-parte. Dê tudo que li, vi, escutei, toquei e compreendi, neste processo dissertação, há uma coisa que para sempre estará em cerne, a coletivização. Sem ela, camaradas, somos pobres, isolados e medíocres. Que possamos ter a consciência de que aqui, ou irá caber todo mundo, ou não restará ninguém. Através de meus olhos saem o que criativamente desejo passar e num piscar borboleta sinto-me assim, em expansão fractal, cativando pelo avesso este universo encantado de letras, sons e números, “como uma onda no mar”.
16.2.10
Distingui-se?

Colagem= Foto de Antonio Brasiliano do trabalho do coletivo Elefante e emburra empurra na estação da luz foto de Nilton Fukuda
Segundo o relato de uma ex-moradora da ocupação Prestes Maia, há 4 anos atrás, a prefeitura de São Paulo, através de uma promotora pública e uma assistente social da subprefeitura da Sé , ofereceram a quantia de R$ 5 mil reais para "para aqueles que decidissem deixar o estado de São Paulo e voltar para sua terra natal”. A moradora, complementa: "ela me pediu falar bem claramente para as famílias que quem pegar essa verba não vai ter mais nenhum atendimento, nem o vale leite, nem o bolsa família, nem o bolsa escola, automaticamente é cortado tudo".
As famílias que aceitam este tipo de “benefício” são consideradas atendidas pelo poder público e perdem o direito a cadastros em qualquer outro programa. Outro morador, não escondeu a sua indignação com a proposta da promotora,
“isso pra mim é querer higienizar a cidade, achara que nós somos impuros para morar aqui (...) Pra albergue não vou, como você faz, um pai de família, num albergue? Não tem o seu cantinho, você fica dentro de um quarto com 12, 13 homens, metade viciado, outros que já tiraram cadeia, como você faz num lugar desses com seu filho adolescente? Essa proposta nem devia existir, querem higienizar a humanidade. Em que século nós estamos?”
Este tipo de conduta ainda é utilizada na cidade de São Paulo. Agora quem te pergunta sou eu: Será que podemos classificar este tipo de conduta uma política pública? Desconsiderando completamente os direitos constitucionais de um cidadão brasileiro. Quem seriam os verdadeiros paulistanos com direitos de nascença, seriam eles os Guaranis? Como numa cidade considerada cosmopolita como São Paulo; composto de originais, como os indígenas; os que obrigados foram arrastados para cá, escravos africanos; os que aqui reinaram torturar, conquistadores portugueses; os que acreditaram numa terra sonho, italianos e japoneses, ou mesmo judeus; os refugiados de genocídios, armênios; os que buscam oportunidades, coreanos e seus rivais chineses; os estrangeiros que prestam o papel de escravos voluntários no centro de São Paulo, refugiados da miséria, bolivianos e peruanos; sem contar os Haitianos que estão por desembarcar, os angolanos, cabo-verdianos; há também os nossos próprios, brasileiros, atraídos como estes estrangeiros, por razões bastante conhecidas, fruto das desigualdades deste país, os nordestinos e povos do norte, estão aqui há algumas décadas, desde que os estrangeiros emanciparam-se a patrões. Seria São Paulo ainda o mesmo “sertão de índios brabos” da outrora original Guarani? Quem é branco? Quem é preto? Quem é brasileiro? Não sabemos há muito tempo, mas, o que temos certeza e podemos infelizmente apontar por aí é: quem é pobre. Esta foi uma cidade que nasceu para ter os "ares frios e temperados como os de Espanha", já brotou colonizada, “nova rica”, deslumbrada e devemos a todo o momento recordar que ninguém, ninguém, daqui surgiu espontaneamente. Aqui se construíram natividades, “lares-cidade”, sonhos, paixões. Tentar exportar a própria pobreza é no mínimo uma porcaria. Quem pode distinguir-se?
obs1: para ver o depoimento dos moradores na íntegra Blog da ocupação Prestes Maia. Postagem do dia 15/02/2006. Disponível em: http://ocupacaoprestesmaia.zip.net/arch2006-02-12_2006-02-18.html
obs2: Melhor Resposta: vídeo: Z'Africa Brasil no documentário Zumbi Somos Nós http://www.youtube.com/watch?v=_1k6LOdKquI
12.2.10
Minha Mona Negra

Ontem após postar minhas “monisses”, a Lisa e a City, fiquei pensando na minha sorte de ter ao meu lado esta Negra mona-vó. Que privilégio poder ser tratada com tamanho cuidado e carinho, generosidade e amor. Fito-a me olhando com a cara do Édipo antes de partir ou com a complacência da Monalisa ao sorrir e, pelo espelho da sala, transparecendo espelhada as infinitas gerações, a imagino sonhando entre seus pais sobre nossos futuros na Mona-city e o meu possível existir. O trabalho disserta-ação já vai pra lá de cem mil palavras e, como o ditado, a resumirei em dez imagens mono-plásticas. Sem a participação dos seus aromas, vapores, risadas, aconchegos, canções e pontuadas estas dez mil expressões estariam perdidas, sem-teto na monocity, dez-oladas. Como sou grata à minha Mona-vó por cativar-me... De madrugada, enquanto dedilho, ela aparece na ponta dos pés e debruça-se para solidarizar-se. Quando amanhece já está radiante, participando seus afetos e preparando delícias tão gostosas que não tem como eu não me sentir linda, assim redonda, como a Monalisa e meus ancestrais. Eternamente ternurosa, eu a amo! Mesmo quando revelo meu desassossego de tanto procurar sentidos nas justificativas sem razão desta cidade, ela de maneira compreensiva, manipula segredos, entra-nos imitando e mostra-se como é: sacerdotisa suprema, guardiã fruta-cor na energia da ancestralidade coletiva feminina de Ìyá Nla. Líder conhecedora de Orum, eu te reverencio e sinto-me integrada, até perante a parábola de nossas intempéries.
11.2.10
Monas

A Mona-centro, como à outra, a sinuosa, é por vezes mórbida e habita meus pensamentos populosos florescendo em luz. O entendimento de formigueiro comum a todos, complexo-teia é. E, à beira de um ataque carnavalesco, deixo-a vã, a procurar seus por quês de vazios, longe da serenidade de cidade humana, apenas escura e deserta, já sem função de toca. Empalidece amarelada de surto original, como nasceram para o mundo “civilizado”, ela, a Lisa intacta, de músculo plácido, já morta e eterna e a Centro, cosmopolita de olhos estupefatos, já sem árvores e alagada, em tropa de raios e trovões que devoram-na. Sombras e sfumatos de cotidianidade que transgridem o tempo e, ambas quinhentistas, com as bocas serradas gritam silêncios e sonham dizer outra coisa, que não o que esta ali em atracção erótica, como observou Freud ao sorrir. Um algoritmo de computador desenvolvido na Holanda descreveu ‘o sorriso’ Lisa, como 83% feliz, 9% enjoada, 6% atemorizada e 2% incomodada. Como será que matematicamente, os Holandeses, descreveria o nosso? Não sei, mas com certeza, como nossos olhos não estão mortos podemos fixá-los onde quisermos, e assim percorrermos visão em ação. Vai que é tua Mona! Se sair de panóptica, não se esqueça que em terra de cego, quem tem olho é rei, caolha, perneta e atriz, samba no pé, carna é! "Desce do trono rainha, desce do seu pedestal.."
7.2.10
Avessa à versada em ponto

Colagem= foto de Anderson Barbosa dentro da ocupação Prestes Mais e visão do rio Pinheiros
O seguinte é o negócio, escrevo sem parar a tantos dias que perdi a noção das letras. Como, letra! Durmo, letra! No banho é certo: consoante voa pela cabeça e estilhaça em gota no chão de pauta, pinga ponto, escorre virgula. No dia que vogal me vier vai me encontrar sem aspas e, mesmo em letra morta, porei a trema para fora, tilintando partes. O c-e-n-t-r-o d-e S-ã-o P-a-u-l-o e s-e-u c-o-r-a-ç-ã-o s-e-m t-e-t-o não me saem do raciocínio e mesmo quando exausta me pego pensando solução. Vêm-me imagens sobrepostas, a primeira das “mulheres-coragens” lavando caminho escada e, segunda, água correndo contrário Pinheiros, é nesta hora, que sonho em ser página em branco e ver tudo começar do zero. Falta pouco para o trem chegar na estação com sua bagagem de letras e espantos, mas aos pulos meu coração palpita ações enquanto vomito números de dízima infinita. Perto do derradeiro exausto-me de tantos “se nãos” e torno-me está prosopopéia avessa à versada douta. Consciente “quero me dedicar a criar confusões de prosódia e uma profusão de paródias” que “dêm passagem pra quem é do bem” e p-o-n-t-o.
3.2.10
Resignação

Colagem= foto de André Montenegro, mostrando o prédio da Ocupação Prestes Maia com uma bandeira colocada pela Frente 3 de Fevereiro + Foto de Antonio Brasiliano da porta da Catedral da Sé + foto histórica de ritual Camdomblé
Tem horas que não tem jeito o embrulho é certo, não tem estomago que aguente tanta resignação. Ave Maria! Olhar o Homem de perto é mesmo de se estremecer! Dizem que blasfemo inocência quando de fato engulo verdades. Tiram as insígnias e gozam humilhações, quando é assim, já são grupo certo, os promovidos, os cães de guarda, os edu-choque, adoradores do sistema anos luz dos corregedores. Voa criança, o que tiver pela frente e assim vivem as ditaduras da miséria com o apoio de certos homens-públicos. A receita óbvia foi a grande solução, alimentem os que pensam que sabem e os distraia consumindo-os, isolem os que se fazem diferentes e paguem o circo, para os outros, à maioria, este exército de desesperados, encurrale-os em outro território, à deriva a mercê da nossa sorte. São investimentos, nada mais, o barco é grande e repleto de iguarias, mas não vai dar para todos e os zumbis estão fora! “- Saiam do caminho! Vão lutar na freguesia, que é pra lá da conchincina... Quilombo-centro vivo? Que isso agora? Ponham-se no seu lugar sobra e desinfete do meu padrão asfalto. Quem são vocês para querer pertencer? Meninos-resto? Homens-lixo? mulheres-ir-recicláveis? velhas-vãns?” As falas indignas aparecem no meu caminho e não posso mais ignorá-las, nem eu, nem a cidade afogada, impermeável, transbordante, sob rodas, rumo ao caos. Saudade dos amigos que acreditam poder mudar o mundo, transcender, concretizar o poético. Dos que resignam na ação e não se calam repletos com a boca escancarada de eletrônicos. As necessidades das identidades retardam os nossos coletivizar-se. Ateie-se teia e zumbize-se em Sampa-ego-city, que este toró desenfreado de vaidades ainda vai nos levar ao ralo, já sinto o cheiro. Fica conosco esta noite e constele-se!
1.2.10
Causi per dão

O “causis” é o seguinte: reagir raivosamente causa colapsos interiores e erupções externas. Fora isso, o óbvio: engorda! Cuspiu verbo ríspido já era, não tem mais jeito, o tempo venta e é porta que não cessa de bater. Cachorro late, vizinho uiva, família sofre. É genético, coisa que também é de causo conhecido, de temperamento herdado os honorários estão cheios. Se tapa ou coice resolvesse por decreto não haveria mágoas ou problemas, mas não, lá vem o poeta de novo, “poema tem família grande”. A burrice é que mesmo sabendo que dois mais dois são quatro ainda proclamamos besteiras em alto tom. Que infortúnio! Com a inteligência emocional de um primata e com a coragem de um tigre dissertamos asneiras que ferem e maciamente nos protegem. Podemos dizer que são confortos da estupidez e, pós relincho abrupto, nos arrependermos calmamente, com as células ainda em chamas, remorsas. O primeiro serviço do bom tempo é fazer com que estes lapsos só ocorram com quem amamos, se é que quem ama verdadeiramente alguém é capaz de enfiar peixeira fina ou pelica lustrosa. O segundo, inconfundível, é fazer-nos crer que o glorioso vai nos gratificar com esquecimento alheio, mas como uma criança peralta, o bom tempo, sempre trás lembrança à tona quando transparece. Pirracento! Infantil! Covarde! Culpar o outro, o tempo, a vida, a coisa, o verbo, a forma, o vento, a árvore, a cor, o tapa e a palavra, é tão gostoso que quase nos esquecemos, já sem tempo, de arcar com responsabilidade de quem cativa. No mínimo do máximo empregamos a palavra perdão e oramos para no futuro sermos animais mais ternurosos, repletos de moléculas d’água “Chi do Amor”, com elemento brasa equilibrado e empregado no construir. Assim, repletos de oxitoninas prontas para o encaixe perfeito no êxtase do compartilhar. Peripatetismo do per dão.
31.1.10
Realce

Surpreendente é palavra carregada de realce, cor de veludo, corte à navalha. Ser quem se é não tem custo tustão e para entender tudo isto é preciso mergulho certeiro de horizonte um. Só amando mesmo... Fala alto, abraça forte e canta esganiçando noite à dentro fazendo bar calar-se. Um exagero áspero de fazer estrelas. Já tentou tingir tecido, controlar palavra e quando o fez quase morreu sem verbo, uma loucura! Tem em si perguntas que não consegue calar e anda por aí brincando em nuvens em pleno estardalhaço. Entender que suavidade não é empalidecer lhe custou tentativas pastéis, mas como que propagando-se retorna ao extremo espectro das vibrações e arde serpentina. Nascida com lentes realce ama divinando seres luz e sem tempo vai propagando-se em partículas esperança. Espera-se que este amor ainda nos leve a além, pra lá das cidades, pra lá da miséria, pra dentro de mim.
29.1.10
Confundindo para te esclarecer

Sobre cada assunto que deparo minha mente parece disparar e navegar no universo dos novos significados. O sentimento parece confuso ao perceber tanto desejo por lançar palavras, não ao vento, em tom azul, mas amarelo Sol ou reduzida à própria essência de vermelha Lua. Ouvir Ella enquanto a profusão de consoantes expande estrelas e como sempre, sonhar, com o piano, com o gesto e com silêncio. Sinto falta da menina que inventa palavras e prossigo achando tudo o máximo, como Leminski. Tô que nem o Tom Zé, “explicando prá te confundir” e te “confundindo prá te esclarecer”. “Eu to me despedindo prá poder voltar”, boa noite passarada.
28.1.10
Bandeira d'água amor, não poça mais...

colagem realizada com fotografia de Anderson Barbosa e foto de Sampa City photoshopada
Debaixo d’água estamos todos nós. Em São Paulo bóiam todos, a união dos delegadores de responsabilidades, multiplicadores de nós em missão sabotadora. Ops! Perdão, saneadora! As palavras têm me saído trocadas nas últimas enchentes. Bem impermeabilizada sigo bravando dissertação. No final se alguém torcer vai ver o que é gota ímpeto e jorro de informação. Ups! De novo! Que informação que nada a palavra mesmo é indignação. Volto agora do respiro para mais um mergulho profundo e cada minuto desta ausência espaço será transbordada nos próximos meses. Não em forma de avalanche, nem em transbordo tissunami, o que eu quero mesmo é fazer como Sérgio Sampaio e “botar meu bloco na rua”, pois “há quem diga que dormi de toca, que eu perdia a boca, que eu fugi da briga, que eu caí do galho e que eu não vi saída, que eu morri de medo quando pau quebrou”. Gingar prá dar e vender! Molhada sigo dando bandeira, Lê
24.1.10
No coração da função dissertativa

Colagem "No coração da vovó" com foto da Vó, dona Jo, na ocupação Mauá, tirada pelo coletivo Garapa, mapa de Sampa + coração de jesus.
Não há mais tempo, tudo se esvai a mercê da confiança. Se o medo aparece, como vento forte que surge do horizonte, empalideço e sinto todo sangue quase arrebentar o coração. É assim, sempre assim, quando o medo aparece. Deixar-se culpar agora pode ser mais perigoso ainda e causar engessamento. Recordar dos por quês e procurar a fé, onde ela esteja. Deixar a acusadora de fel tirar as sandálias de tira e chacoalhar cada célula na esperança de encontrar o encaixe, a peça perfeita. Acontece que está também foi corroída e banguela procura outros cacos semelhantes para então pertencer. Mais uma vez recorrer ao empreender, ao trabalho ardo, ao correr sem tempo para se perguntar como vim parar aqui e finalmente cumprir tarefa dissertativa. Em pânico, lutando contra própria rigidez sigo sorrateira, voluntariosa e arisca, cheia de tantas regras e consoantes desnecessárias. No fim, boquiaberta, só há visão de começos, sobras de caos à procura do fio da meada. Ainda vai chegar o dia em que compreenderei minha metodologia. Até lá, sigo assim em busca da compreensão. Porque há tantos vazios especulativos e demanda sem-teto à habitar se a nossa norma união é, se não, a função social da propriedade?
15.1.10
Ocupassión

Neti, liderança do movimento dos sem-teto do centro em busca de lar quando já se é e eu,buscadora de ser-teto e centro, quando já se pode, nos aprofundando na linguagem, maturando, trocando, crescendo, revelando-nos. Respeito pela mulher suave e forte que compartilha sonhos e afetos e, não tem medo de lutar. É, minha amiga, você tem toda razão: "quem não luta tá morto!". Que possamos contagiar o mundo com nossa Ocupassión (ocupação em espanhol ou, para nós, ocu-pasión, ato ou efeito de ocupar compaixão com paixão.
14.1.10
Porque eu amo você

Esta colagem = foto de Antonio Brasiliano (sem-teto no centro de São Paulo) + pulmão + foto aérea de São Paulo
Os primeiros passos da minha própria ruralização já foram traçados a caminho da Mantiqueira, no esplendor da terceira montanha, plantarei nas sagradas entranhas, meu trabalho com todo louvor. Nada melhor que este horizonte de alturas para me estimular aos últimos passos deste outro, que se encerra próximo, a centralização do olhar, a urbanização dos conflitos. Saio forte, com experiências e laços cativados, seguros por terem sido feitos com espontaneidade. Traço neste momento o texto dissertativo sobre a história de um conflito que é capaz de fazer qualquer um de nós pensar. A real importância para alma dos processos de coletivização e, com isso, do auto-amor. Quando escutei da doce Tia Jô, sua história de vida, pensei na humanidade inteira, nos caminhos nossos todos e, por conseguinte do sábio biólogo-filósofo Humberto Maturana.
Para ele, só existe ética e valor quando o outro realmente existe para nós, o que ele mesmo chama de amor. Quando a doce Jô me contou sua trajetória, tudo se fez claro e a real importância do meu próprio fazer este trabalho-pesquisa-mestrado também. Com suavidade espontânea de líder mulher que é, me revelou quem era e o que se tornou com bravura. Saiu no Norte e em São Paulo veio direto para periferia, onde, segundo ela, tinha medo dos próprios vizinhos, pois ali nada é de ninguém, “cada um por si!” Viu sua família ruir aos poucos até tomar ciência das ocupações aos edifícios vazios no centro e da luta por moradia.
Depois que entrou no primeiro prédio nunca mais sua vida foi à mesma. O medo deu lugar ao amor, pois foram sobrevivendo e aprendendo a respeitar um ao outro até se darem conta, após alguns anos, que já eram uma grande família e não mais estavam sozinhos. Disse-me de suas dificuldades e aprendizados na vida, por fim, com os olhos mareados revelou que o mais importante para ela é sabermos olhar o outro, ter amor para isso justamente porque é daí que ele surge. Ela não se sente mais só e, como o sábio teorizou, o processo de coletivização trouxe a ela o auto-amor. Quando eu sentir o perfume daquelas lindas mulheres, sempre tão arrumadas, do movimento dos sem-teto, no cenário ocupação, vou poder vê-las no auge de seu amor, justamente por terem aquilo que qualquer são deveria desejar, união fraterna, respeito mútuo e amor-próprio.
Depois de tanto ler, observar, conhecer pessoas, me relacionar, escrever freneticamente, o que trago para vocês é apenas o que daí se faz o essencial. Para construirmos uma cidade mais humana, relações de respeito, paz urbana é necessário, antes de qualquer coisa, olhar para o outro e então amar. Temos as leis mais avançadas do mundo, o Estatuto da Cidade, o Estatuto da Criança e do Adolescente, enfim, temos um equilíbrio de forças sistemáticas, o que nos falta é simplesmente isto que as preenche, saber que estamos todos juntos e que o funcionamento disto tudo nos pertence.
O convívio com estas mulheres líderes e seus exércitos marcaram meu corpo para sempre. E meu agradecimento está nas minhas ações, nas minhas palavras e posturas. Eu aceito você e então não preciso agir como um tigre, que só pode viver com ele mesmo, porque tem medo. Porque ser amoroso não é ser frágil e nem ridículo, porque eu amo você.
12.1.10
Saudades Vermelho.G de Amarelo.P

Quando os caminhões cruzaram naquela tarde, o amarelo e o vermelho, um tom intenso de por do sol da chapada se fez para sempre. Àquilo já vinha transcendendo há muito tempo, desde que se encontraram na estrada, com melissas negras, jamais pensaram em se separar. Eram opostas de um mesmo eu, coisa de doido, um tal de uma completar a outra que nem te conto! Admiração então nem se fala, rasgavam elogios num apoio mútuo de encher qualquer coração, quando não estavam trocando versos se entregavam ao fazer suas coisas num silêncio acolhedor. Enquanto uma mergulhava no entendimento de suas águas, num eterno conter e despejar, a outra fazia a bruma dos caldos eterizar os ambientes. Podia-se dizer que entre o vermelho e o amarelo existia um elo tênue, como antes anunciou o próprio tio, maravilha de dar gosto. Quando diziam que se conheciam há quase duas décadas caiam na gargalhada pela pouca conta, nunca ignoraram o eterno e disso faziam suas canções, um verdadeiro prazer de estar, lar itinerante que revelava com nitidez a real lucidez de se estar em si. Espero-te enluarada cara amiga solar! Saudades vermelhas de ser-lar amarela.
9.1.10
A Bocó Capital e Seu Corpo Sensacional

Hoje li um texto muito interessante da antropóloga carioca Mirian Goldeberg sobre as mulheres de classe média e resolvi trazer a tona para nós algumas das reflexões:
Na vida moderna, ser mulher e voltar para casa não é uma opção, já que provedoras agora somos também. Ser bem sucedida no amor, como mãe, revolucionária e no mercado de trabalho nos exige mais do que qualquer tempo integral. Ao caminho da exaustão partimos sem precedentes até o discurso da vitimização, onde a poesia perde-se no vento e as árvores não dizem mais nada. A decadência do corpo social engessado de tanto botox, ou bocós, vai nos tornando invisível ao ponto de, ao contrário, nos desqualificar. Ter cabelos brancos à mostra e banhas protetoras é hoje sinônimo de desleixo e preguiça. Que pena! Sem um procedimento cirúrgico é melhor procurar um psicanalista bem alternativo, pois aquela Barbie na poltrona em frente com certeza não leu a bula de seu medicamento. Arrancando todos os pelos pubianos para parecermos menininhas ou deixando um bigodinho ditador vamos esquecendo nossas livres divas brasileiras, mulheres que fizeram história por serem o que são, sensuais e criativas. Imaginem só chegarmos ao 60 querendo termos 20, só mesmo cultuando um mundo masculino. Competir, competir e competir, já me sinto preguiçosa só de pensar em encarar um mundo feito por mulheres que querem ser como estes homens. As espertas banham-se no discurso da fragilidade e para torná-los mais seguros parecem sempre estar por quebrar. Delicadeza! Por favor! Queimar sutiã não dá mais não é! Hoje temos silicone pra tudo. Pra ser poderosa e líder brasileira têm que se fazer plástica ou podemos admirar a beleza da floresta sem decotes bruscos? Depois que o marketing político virou aparência cívica passei a me questionar sobre certos requisitos profissionais. Teria eu que enxugar meu discurso para atraente e melhor bem sucedida ser? Minha máquina capital esta fora do mercado de luxo atual e não se compram mais arte renascentista há vários séculos. Como de modernidade acho que estou bem cheia, ou melhor, vazia, como os discursos e os consensos cheios vazios políticos o jeito é eu rever meus conceitos ou comprar uma piruleta mágica. Pior do que isso, para esta sociedade avançadinha, só mesmo o fato de não estar casada ou não ter um amante poderoso. Não têm filhos e não são as melhores neurocirurgiãs do país? Incompetentes! Sem um “capital marital” para telefonar varias vezes por dia, não possuo pacote família feliz e minha vida ta quase sem sentido mercadológico. Escrever, escrever, criar, estudar, paquerar, orar... Realmente, fora de brinca, como diz um amigo meu! Se eu tivesse companheiro para competir a esta hora o que eu faria? No mínimo eu poderia causar inveja ao dizer: sou gorda mais tenho marido! Ou: não tenho marido mais pelo menos sou magra! Só rindo mesmo deste padrão que compramos tão caro ou lamentando-se por ser gostosa além da conta e estar sem parceria afetiva constante. Vamos meninas, como dizem por aí todas somos meio Leila Diniz! Animem-se ainda temos um mundo para construir, um mundo mais amoroso e igual onde nos fins de tardes poderemos até tomar uma chuva ócio criativa e percorrermos nossas curvas com devaneios, cravos, canelas e o que mais te ventarem por dentro!
7.1.10
Escarlate O' Rara

No momento escape qualquer pista ou rastro é o suficiente. Viu? Eu não te disse? Que se Maria me visse virava tolice? Não deu pra ir... “Pneu furou não sei trocar!”. Minha mãe sempre falou para na dúvida mantermos o charme, mas será que só o tornar-se charme já não é questão de dúvida? Entender o que é desapego custa-nos sempre tudo, já que só percebemos o que tem valor quando colocamos preço nas coisas. Em nós então nem se fala... O que seria desapegarmos de nós mesmos e não colocar valor onde se têm? Já discutem os velhos sábios desde a origem dos tempos enquanto nos esquecemos no caminho, ali, além... Para alguns, ser negativo, ou pessimista é essencial, a própria admissão da condição humana, “que puxa!”. Para outros, como eu, a esperança sempre mergulhada em banheira positiva e quente é mais cruel, pois põe a mãe frustração ao cabo da própria filha, expectativa. Minha linguagem caótica ta caquética e mesmo sonhando com futuros parágrafos ainda me vejo tropeçar em virgulas. Os senhores do apocalipse que me perdoem, mas pecar juras secretas às vezes é fundamental, no mínimo sinto meu principal músculo quase arrebentar, mas não mais o entupo de medo blasé. A união de uma percepção visual provocada pela ação de um feixe de fótons com o mover-se na ação, o significado de agir com o coração, a cor na ação. A coragem de relacionar-se com o espectro visível e perceber cada comprimento de onda, mesmo sendo vermelha e estando na extremidade ampla. Encarnada escarlate, chamando atenção e sendo extravagante no aguardo da inevitável união fraterna onde todos tornarmo-nos cor única, luz e então, "nunca mais sentiremos fome novamente".
5.1.10
caipirando-me no dez

Quanto se sente uma compressão sobre o corpo, um aperto esquisito, como se tudo estivesse em suspense, com a nuca dormente e o ventre expandido, ou quando colocamos força de mais nas extremidades e já não podemos mais racionalizar é chegado o grande momento do caos. Nada será plácido como antes porque estamos separados de nossa capacidade de cautela e a prudência não se faz mais necessária, divagamos-nos nus, entorpecidos e sós. É justamente na ressonância, no encontro, no minuto antes da história se seguir que tudo transborda. A questão já não é mais se isso pode ser bom ou ruim, pois o aparelho cérebro esta quimicamente avariado, como um relógio Alice, desvairado. Agora já é tarde, os ponteiros avessos percorrem sentido contrário e em gota oceânica retornamos às marés do acaso a mercê das circunstâncias, como sempre estamos e não percebemos. Num é mais o outro e nem sua presença que determinará os acontecimentos, pois tudo já se faz inteiramente na forma de derivações, fractais borbulhantes de mudança peptídica e corporal, como os poetas que ardiam no plural. Um retorno ao correr vinho e encarar-se sombra nas próprias entranhas carne viva, colocar-se víscera e “deslirar” como nossos antepassados fizeram em suas eras leônicas. Meu big bang umbilical na própria dualidade, no minuto véspera mergulho dissertação e laços quânticos. Dois mil e Dez, aqui vou eu, para o alto e avante diante da sala da justiça, passarinhando em nuvens e, como sempre, sonhando com “trigais dançantes”, caipirando-me.
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