25.2.10

o ovo ou a galinha

A lógica é perversa e o capital especula em línguas inimagináveis, pior que ele são os seus pro-pragadores, puros egos. Apesar de espremer e sair sacanagem que não acaba mais, ainda olho pra isto tudo com um orgulho danado. Após 25 anos de abertura democrática estamos em pleno desenvolvimento civilizatório e ver os auto-organizados deslocando-se pelo território, imperando direitos e “blasfemando verdades” é mesmo de se admirar, sinal que somos mesmo centelha divida. Hoje, fora estas, escrevi mais de cinco milhares de palavras, os dedos da mão direita estão bastante doloridos e, pela postura adotada, o resto também. Fico pensando se todas elas caberiam dentro de uma imagem e, se esta, seria suficiente para dizer tudo que penso. Tenho postado neste espaço, sempre que posso, um processo dos avessos, como “o ovo e a galinha”, nunca sei quem nasceu primeiro se foi à imagem ou o enredo de palavras. A narração sem mapa torna-me o cristalino de momentos que transparecem, mas como “num piscar de olhos”, entardeço novamente e noto-me turva. Se fosse para me fazer entender eu estaria em “maus lençóis”, com palavras driblando ambíguas e figuras que se transformam em ler, não hei de fazer-me compreender com tanta facilidade desta maneira arisca, mas o que seria deste mistério se existisse pensando em existir... Hoje, cruel como um pro-pragador não facilitarei seu rumo e deixarei a imagem por tua conta. Capricha no pensamento e aflore-se lá pra dentro, arriscando a ser quem se é pode nos levar a além.

20.2.10

21*0*21*0


Domingo, Século 21, dia 21, mês 2 ano 10, faltam uns 21 dias para a defesa da dissertação. Quando tiver passado mais 21 dias, tudo terá história velha. O dia terá número múltiplo de 7, como este, o próprio dobro. Faltarão 292 dias para acabar o ano. Mas a previsão para hoje é de temperatura estável, claro, se nada me ventar por dentro. Caso aja chuva isolada, tudo bem, ainda vá lá... Mas tempestade não vai dar não, faltam 21 páginas para terminar a pesquisa-ação. Este dia vinte e um... um dia de lembranças solenes, começava o julgamento de Joana d’Arc, Marx publicava o Manifesto Comunista, nascia Nina Simone, morria Sérgio Naya... Ah! Que saudade deste dia que ainda não vivi, e já começa com uma hora a mais. Tudo certo! A soma dos números-dia anuncia que dois mais um é igual a três. Como à lógica, fractal-ancestral, eu diria que de duas uma, ou encaramos o terceiro milênio com igualdade, ou sobrará só um, provável que seja o Ego, sabe-se lá...

19.2.10

Haikai-luz


sombra da janela
quanto mais perto da luz
maior a sombra

Ser-Parte



A sensação que se aproxima é de primavera, realização e esplendor. Tarefa cumprida de experimentador, do talho bruto ao requinte flor. Sempre achamos que podia ser mais, se houvesse tempo de aprofundar cada passo... Ah! Como seria bom! Contribuir para possível construção de Homem Humano é o que me sobe pela espinha arrepiando. Saber que tudo isso não passa de pó e perceber a dimensão da alma se alongar, compreender o todo em um minuto para no seguinte querer viver detalhe. Tirar o mapa de narração do próprio eixo e enfim poder avistá-lo. Cá está ele, repleto de estrelinhas sem derramar, apenas do tamanho que se é, infinitamente um minúsculo gigantesco, um Ser-parte. Dê tudo que li, vi, escutei, toquei e compreendi, neste processo dissertação, há uma coisa que para sempre estará em cerne, a coletivização. Sem ela, camaradas, somos pobres, isolados e medíocres. Que possamos ter a consciência de que aqui, ou irá caber todo mundo, ou não restará ninguém. Através de meus olhos saem o que criativamente desejo passar e num piscar borboleta sinto-me assim, em expansão fractal, cativando pelo avesso este universo encantado de letras, sons e números, “como uma onda no mar”.

16.2.10

Distingui-se?


Colagem= Foto de Antonio Brasiliano do trabalho do coletivo Elefante e emburra empurra na estação da luz foto de Nilton Fukuda
Segundo o relato de uma ex-moradora da ocupação Prestes Maia, há 4 anos atrás, a prefeitura de São Paulo, através de uma promotora pública e uma assistente social da subprefeitura da Sé , ofereceram a quantia de R$ 5 mil reais para "para aqueles que decidissem deixar o estado de São Paulo e voltar para sua terra natal”. A moradora, complementa: "ela me pediu falar bem claramente para as famílias que quem pegar essa verba não vai ter mais nenhum atendimento, nem o vale leite, nem o bolsa família, nem o bolsa escola, automaticamente é cortado tudo".
As famílias que aceitam este tipo de “benefício” são consideradas atendidas pelo poder público e perdem o direito a cadastros em qualquer outro programa. Outro morador, não escondeu a sua indignação com a proposta da promotora,
“isso pra mim é querer higienizar a cidade, achara que nós somos impuros para morar aqui (...) Pra albergue não vou, como você faz, um pai de família, num albergue? Não tem o seu cantinho, você fica dentro de um quarto com 12, 13 homens, metade viciado, outros que já tiraram cadeia, como você faz num lugar desses com seu filho adolescente? Essa proposta nem devia existir, querem higienizar a humanidade. Em que século nós estamos?”
Este tipo de conduta ainda é utilizada na cidade de São Paulo. Agora quem te pergunta sou eu: Será que podemos classificar este tipo de conduta uma política pública? Desconsiderando completamente os direitos constitucionais de um cidadão brasileiro. Quem seriam os verdadeiros paulistanos com direitos de nascença, seriam eles os Guaranis? Como numa cidade considerada cosmopolita como São Paulo; composto de originais, como os indígenas; os que obrigados foram arrastados para cá, escravos africanos; os que aqui reinaram torturar, conquistadores portugueses; os que acreditaram numa terra sonho, italianos e japoneses, ou mesmo judeus; os refugiados de genocídios, armênios; os que buscam oportunidades, coreanos e seus rivais chineses; os estrangeiros que prestam o papel de escravos voluntários no centro de São Paulo, refugiados da miséria, bolivianos e peruanos; sem contar os Haitianos que estão por desembarcar, os angolanos, cabo-verdianos; há também os nossos próprios, brasileiros, atraídos como estes estrangeiros, por razões bastante conhecidas, fruto das desigualdades deste país, os nordestinos e povos do norte, estão aqui há algumas décadas, desde que os estrangeiros emanciparam-se a patrões. Seria São Paulo ainda o mesmo “sertão de índios brabos” da outrora original Guarani? Quem é branco? Quem é preto? Quem é brasileiro? Não sabemos há muito tempo, mas, o que temos certeza e podemos infelizmente apontar por aí é: quem é pobre. Esta foi uma cidade que nasceu para ter os "ares frios e temperados como os de Espanha", já brotou colonizada, “nova rica”, deslumbrada e devemos a todo o momento recordar que ninguém, ninguém, daqui surgiu espontaneamente. Aqui se construíram natividades, “lares-cidade”, sonhos, paixões. Tentar exportar a própria pobreza é no mínimo uma porcaria. Quem pode distinguir-se?
obs1: para ver o depoimento dos moradores na íntegra Blog da ocupação Prestes Maia. Postagem do dia 15/02/2006. Disponível em: http://ocupacaoprestesmaia.zip.net/arch2006-02-12_2006-02-18.html
obs2: Melhor Resposta: vídeo: Z'Africa Brasil no documentário Zumbi Somos Nós http://www.youtube.com/watch?v=_1k6LOdKquI

12.2.10

Minha Mona Negra



Ontem após postar minhas “monisses”, a Lisa e a City, fiquei pensando na minha sorte de ter ao meu lado esta Negra mona-vó. Que privilégio poder ser tratada com tamanho cuidado e carinho, generosidade e amor. Fito-a me olhando com a cara do Édipo antes de partir ou com a complacência da Monalisa ao sorrir e, pelo espelho da sala, transparecendo espelhada as infinitas gerações, a imagino sonhando entre seus pais sobre nossos futuros na Mona-city e o meu possível existir. O trabalho disserta-ação já vai pra lá de cem mil palavras e, como o ditado, a resumirei em dez imagens mono-plásticas. Sem a participação dos seus aromas, vapores, risadas, aconchegos, canções e pontuadas estas dez mil expressões estariam perdidas, sem-teto na monocity, dez-oladas. Como sou grata à minha Mona-vó por cativar-me... De madrugada, enquanto dedilho, ela aparece na ponta dos pés e debruça-se para solidarizar-se. Quando amanhece já está radiante, participando seus afetos e preparando delícias tão gostosas que não tem como eu não me sentir linda, assim redonda, como a Monalisa e meus ancestrais. Eternamente ternurosa, eu a amo! Mesmo quando revelo meu desassossego de tanto procurar sentidos nas justificativas sem razão desta cidade, ela de maneira compreensiva, manipula segredos, entra-nos imitando e mostra-se como é: sacerdotisa suprema, guardiã fruta-cor na energia da ancestralidade coletiva feminina de Ìyá Nla. Líder conhecedora de Orum, eu te reverencio e sinto-me integrada, até perante a parábola de nossas intempéries.

11.2.10

Monas



A Mona-centro, como à outra, a sinuosa, é por vezes mórbida e habita meus pensamentos populosos florescendo em luz. O entendimento de formigueiro comum a todos, complexo-teia é. E, à beira de um ataque carnavalesco, deixo-a vã, a procurar seus por quês de vazios, longe da serenidade de cidade humana, apenas escura e deserta, já sem função de toca. Empalidece amarelada de surto original, como nasceram para o mundo “civilizado”, ela, a Lisa intacta, de músculo plácido, já morta e eterna e a Centro, cosmopolita de olhos estupefatos, já sem árvores e alagada, em tropa de raios e trovões que devoram-na. Sombras e sfumatos de cotidianidade que transgridem o tempo e, ambas quinhentistas, com as bocas serradas gritam silêncios e sonham dizer outra coisa, que não o que esta ali em atracção erótica, como observou Freud ao sorrir. Um algoritmo de computador desenvolvido na Holanda descreveu ‘o sorriso’ Lisa, como 83% feliz, 9% enjoada, 6% atemorizada e 2% incomodada. Como será que matematicamente, os Holandeses, descreveria o nosso? Não sei, mas com certeza, como nossos olhos não estão mortos podemos fixá-los onde quisermos, e assim percorrermos visão em ação. Vai que é tua Mona! Se sair de panóptica, não se esqueça que em terra de cego, quem tem olho é rei, caolha, perneta e atriz, samba no pé, carna é! "Desce do trono rainha, desce do seu pedestal.."

7.2.10

Avessa à versada em ponto


Colagem= foto de Anderson Barbosa dentro da ocupação Prestes Mais e visão do rio Pinheiros

O seguinte é o negócio, escrevo sem parar a tantos dias que perdi a noção das letras. Como, letra! Durmo, letra! No banho é certo: consoante voa pela cabeça e estilhaça em gota no chão de pauta, pinga ponto, escorre virgula. No dia que vogal me vier vai me encontrar sem aspas e, mesmo em letra morta, porei a trema para fora, tilintando partes. O c-e-n-t-r-o d-e S-ã-o P-a-u-l-o e s-e-u c-o-r-a-ç-ã-o s-e-m t-e-t-o não me saem do raciocínio e mesmo quando exausta me pego pensando solução. Vêm-me imagens sobrepostas, a primeira das “mulheres-coragens” lavando caminho escada e, segunda, água correndo contrário Pinheiros, é nesta hora, que sonho em ser página em branco e ver tudo começar do zero. Falta pouco para o trem chegar na estação com sua bagagem de letras e espantos, mas aos pulos meu coração palpita ações enquanto vomito números de dízima infinita. Perto do derradeiro exausto-me de tantos “se nãos” e torno-me está prosopopéia avessa à versada douta. Consciente “quero me dedicar a criar confusões de prosódia e uma profusão de paródias” que “dêm passagem pra quem é do bem” e p-o-n-t-o.

3.2.10

Resignação


Colagem= foto de André Montenegro, mostrando o prédio da Ocupação Prestes Maia com uma bandeira colocada pela Frente 3 de Fevereiro + Foto de Antonio Brasiliano da porta da Catedral da Sé + foto histórica de ritual Camdomblé

Tem horas que não tem jeito o embrulho é certo, não tem estomago que aguente tanta resignação. Ave Maria! Olhar o Homem de perto é mesmo de se estremecer! Dizem que blasfemo inocência quando de fato engulo verdades. Tiram as insígnias e gozam humilhações, quando é assim, já são grupo certo, os promovidos, os cães de guarda, os edu-choque, adoradores do sistema anos luz dos corregedores. Voa criança, o que tiver pela frente e assim vivem as ditaduras da miséria com o apoio de certos homens-públicos. A receita óbvia foi a grande solução, alimentem os que pensam que sabem e os distraia consumindo-os, isolem os que se fazem diferentes e paguem o circo, para os outros, à maioria, este exército de desesperados, encurrale-os em outro território, à deriva a mercê da nossa sorte. São investimentos, nada mais, o barco é grande e repleto de iguarias, mas não vai dar para todos e os zumbis estão fora! “- Saiam do caminho! Vão lutar na freguesia, que é pra lá da conchincina... Quilombo-centro vivo? Que isso agora? Ponham-se no seu lugar sobra e desinfete do meu padrão asfalto. Quem são vocês para querer pertencer? Meninos-resto? Homens-lixo? mulheres-ir-recicláveis? velhas-vãns?” As falas indignas aparecem no meu caminho e não posso mais ignorá-las, nem eu, nem a cidade afogada, impermeável, transbordante, sob rodas, rumo ao caos. Saudade dos amigos que acreditam poder mudar o mundo, transcender, concretizar o poético. Dos que resignam na ação e não se calam repletos com a boca escancarada de eletrônicos. As necessidades das identidades retardam os nossos coletivizar-se. Ateie-se teia e zumbize-se em Sampa-ego-city, que este toró desenfreado de vaidades ainda vai nos levar ao ralo, já sinto o cheiro. Fica conosco esta noite e constele-se!

1.2.10

Causi per dão


O “causis” é o seguinte: reagir raivosamente causa colapsos interiores e erupções externas. Fora isso, o óbvio: engorda! Cuspiu verbo ríspido já era, não tem mais jeito, o tempo venta e é porta que não cessa de bater. Cachorro late, vizinho uiva, família sofre. É genético, coisa que também é de causo conhecido, de temperamento herdado os honorários estão cheios. Se tapa ou coice resolvesse por decreto não haveria mágoas ou problemas, mas não, lá vem o poeta de novo, “poema tem família grande”. A burrice é que mesmo sabendo que dois mais dois são quatro ainda proclamamos besteiras em alto tom. Que infortúnio! Com a inteligência emocional de um primata e com a coragem de um tigre dissertamos asneiras que ferem e maciamente nos protegem. Podemos dizer que são confortos da estupidez e, pós relincho abrupto, nos arrependermos calmamente, com as células ainda em chamas, remorsas. O primeiro serviço do bom tempo é fazer com que estes lapsos só ocorram com quem amamos, se é que quem ama verdadeiramente alguém é capaz de enfiar peixeira fina ou pelica lustrosa. O segundo, inconfundível, é fazer-nos crer que o glorioso vai nos gratificar com esquecimento alheio, mas como uma criança peralta, o bom tempo, sempre trás lembrança à tona quando transparece. Pirracento! Infantil! Covarde! Culpar o outro, o tempo, a vida, a coisa, o verbo, a forma, o vento, a árvore, a cor, o tapa e a palavra, é tão gostoso que quase nos esquecemos, já sem tempo, de arcar com responsabilidade de quem cativa. No mínimo do máximo empregamos a palavra perdão e oramos para no futuro sermos animais mais ternurosos, repletos de moléculas d’água “Chi do Amor”, com elemento brasa equilibrado e empregado no construir. Assim, repletos de oxitoninas prontas para o encaixe perfeito no êxtase do compartilhar. Peripatetismo do per dão.