19.12.09

Fractal Familiar em Dois mil e Nove



Dois mil e nove ficará na minha vida como um ano de superações e desafios. Não é mais possível precisar quantas palavras passaram por meu corpo e desencadearam minhas mãos a rendar. Um ano de preceitos precisos e missão amorosa permanente. Ano de grandes conquistas internas, como à própria palavra, empenho sereno em busca de auto-teto para tornar-se Lar. Neste final de ano às últimas pedras foram sendo arremessadas com tal violência que por um momento vacilei, pensei em largar do cais, partir em bote único, alongar-me por aí, poluir, queimar tudo. Imaginem-se sós, ao sair da teia, camuflando-se à multidão, ser gota de oceano, migrar como grão para outras paragens, partir, devanear, romper barragem. Mas para a mágoa não poder tornar-me mais cruel terei que nadar num mar de destroços cortantes e seguir caçando os fragmentos. Tento buscar na minha memória seus rostos alegres e suas palavras de bater panela em noite escura, lembrar do meu confiar, das casas todas, dos cheiros, dos cães, das árvores, de nós. É necessário alertar minhas células destes desenganos e permanecer fiel a meus laços, minhas lembranças, minha alegria. Mais dói, dói, dói, dói... Às vezes é difícil me mover e a produção dos compromissos vai levando-me a loucura, à terra árida de erosão sem retorno. Uma guerra é capaz de transformar soldados de virtudes em pequenas maldades ditaduras e lentamente vou vendo-os todos se afogarem em desafetos e isolarem-se ilhas. Cegos não desejam mais saber de minha presença e lançam suas granadas de rancor deixando-me assim mutilada e triste. Como separar o passado do presente sem beber tantas gotas salgadas e roladas... Jamais poderia imaginar ser confundida de transparente para invisível pela própria origem carne. Como Pequeno Príncipe crendo “que o essencial é invisível aos olhos” e que somos responsáveis pelo que cativamos sigo pelo planeta. Alguma maneira de olhar sem cisco pode me aparecer a qualquer momento então fico como coruja a espera do despertar de cada um dos meus, dos nossos. Penso em que isto tudo pode oportunidade única, vantagem de quem não espera mais ser reconhecida pelo que faz, mas isso eu também já entendi que é uma guerra que só se passa aqui dentro, quando se é. Foram duas mil e nove guerras travadas e vencidas, se é que alguém ainda acredita que vencer significa alguma coisa por aqui. O planeta que se despede deste ano em Copenhagen sem cooperação, sem futuro, sem afetos e acordos. Será o fractal da família azul se revelando na minha ou a minha se espelhando na nossa. O mágico, que tanto admiro, quando disse ao pai: “os opostos se distraem” recebeu a gloriosa resposta: “então os dispostos se atraem”. É, seu Odácio, que meu aquecimento, como o do planeta, não seja irreversível, pois como nosso presidente falou: “... se a gente não conseguiu fazer até agora este documento. Eu não sei se algum anjo ou algum sábio descerá neste plenário e irá colocar na nossa cabeça a inteligência que nos faltou até a hora de agora”. Aos meus presentes ausentes! Ao princípio do fim! Ao fim de um ano sem acordos rumo a 2010! Onde desejo conflitos mais amorosos, presentes contentes e parágrafos curtos! A espera de um milagre chamado nós, diretamente no nosso lar azul,
Lua
“cativa-me!”

9.12.09

Lá vem meu irmão


Amanhã meu maninho vem nos ver com sua família, que saudade deste menino-homem. Se fecho os olhos para estar passado é raro não ter sua presença e impossível meu não emocionar. Dedo no nariz, bota apertada, G-shok, Atari, dip-lik, lazzanha, frango xadres, guaraná, skate, bicicleta, fulga do ganso, goleiro, piadista, imitador de kiko, bilão, dançarino, farrista, amigo, glutão, malabarista de cabaré, cineasta, paizão, enfim, lá vem ele transformando-se sempre, mais que tudo que possa fazer-se lembrar, apenas espírito caminho luz. Conviver com ele torna-nos sempre melhor. Tô te esperando querido!

8.12.09

Mar absoluto



Cecília Meireles já havia respondido a Mar, antes de Mar poetizar a Lua, hoje no dia de Iemanjá. Como diria Drummond, calo-me repleta.

Mar absoluto
Cecília Meireles

Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.


Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.


E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.


E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.


E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
"Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!"
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-mos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.


Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.


O alento heróico do mar tem seu pólo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.


O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.


Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.


Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.


Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado, cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.


Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.


E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.


Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.


Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.


E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.


Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.


E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.


E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.

Lua quando míngua

Segue o melhor presente que já recebi de minha amada amiga Marina Pompéia, acho que me conhece melhor que ninguém. A quem amo além das estrela, além Mar, além Lua



Lua quando míngua, sofre

É de sua natureza, em cada ciclo uma vida inteira.
De sua natureza também é entregar-se por completo,
inteira e intensa no seu próprio movimento de morte e vida.

Sabe-se que Lua se percebe inteira e radiante no céu
voo solo,
mas se maravilha ao espalhar sua luz refletida...
iluminar o rosto rubro de menina na hora do beijo,
apontar o caminho aos peregrinos noturnos,
servir de farol aos navegantes,
ser a musa dos poetas
divindade merecidamente cultuada por tantos povos.

A míngua fica toda vez que o movimento de recolher-se se impõe, impiedoso.
Seu esplendor pleno, Lua iluminada, diva no céu
dá espaço para a sombra que se projeta, lhe escurecendo o brilho, a carne e a razão.

Ao mesmo tempo dor, desprendimento e mergulho
pois abre o corpo à sombra e entrega seu brilho ao céu,
a promessa do frescor, do novo, do renascer-se em luz
do eterno movimento que a liberta do tédio profundo das coisas iguais.

Mas este momento de míngua tem seus caprichos;
as vezes as nuvens que, delicada ou fervorosamente a protegem e esconde nesse movimento
se retiram, as vezes displicentemente sopradas por uma brisa morna,
as vezes violentamente impelidas por ventanias de sul.
Neste último minguar, ainda ao achar-se em pela metade e desmilinguindo
percebe seu reflexo nas águas do Mar,
não enxerga mais o brilho da sua luz refletida nas Flores,
se revolta; transborda de raiva, ardor, terror. Fim.
É sempre fim o movimento de minguar
e sempre rebrotar

Passada a dor e a loucura do desfazer-se, vem a quietude.
Mergulha inteira no escuro, quase conforto
um sono profundo que a abate para rever-se em sonho.

Fica nova. Lua Nova, emprestando o palco às estrelas
divertindo-se em silêncio com os vagalumes, estrelas na Terra

Seu brilho inicia o retorno, e vem, criança chegando em festa
novamente alegria e travessura, retomando seu espaço
ocupando novamente o lugar que lhe pertence.
Até ficar plena, cheia e transbordante
e retomar seu ciclo.

Essa é sua natureza!!
Diferente da natureza de Mar, de Flor, de Sol,
cada qual com seu percurso de vida, morte, renascimento.
Intrinsecamente ligadas em sua essência
é da natureza dessa existência também experimentar seus ciclos
na certeza de que, o renascer de cada uma só fortalece a vida
a ligação, a beleza de sermos UM
uma ecologia inteira.

Marina

Chão conquistado




Espada sã
Locomovo-me
em velocidade
Como vento,
Terra e Sonhos
Passa rápido
Urgente
Levanta e sua
Arranca solo
Arrepia
Grita
Pulsa
Salta
Crava consciência
Valsa melodia
Inteira, pura.
De vez única
Eu e minha terra
Um mesmo pó
Um mesmo nó
Boca escancarada
Escárnio de loucura
Duplo etério
Terráquia
Solar
no Lar

7.12.09

Classificando Óbitos


A família, depois que desmembrou-se pelo território nacional, passou a estar pouco tempo presencialmente. Nestes encontros, não poderia lhes faltar a famosa seção obituária, entre uma torta de ricota doce e um bolo de milho, versavam sobre às vidas que se iam, conforme os anos passavam, a seção ia se tornando maior, morriam de medo de tomar todo o tempo. Usavam os mortos para lembrarem dos por menores e não raramente caiam no riso quando se encontravam com o passado, longos tempos, onde juntos dividiam o cotidiano e amavam-se firmemente. Era curioso, descreviam geograficamente os caminhos que percorriam ao falar dos outros, sempre diziam de fulano da rua tal, filho de beltrano que se mudou para além, que pena, morreu... Quando tinham um segredo era nesta hora que partilhavam, iam classificando os personagens e caçavam um por um para recomporem-se. Só desviavam dos obituários quando em situação de enfermidade, talvez, estes fossem os próximos e era melhor trazê-los rapidamente à tona. Só poderia ter uma explicação para esta naturalidade mortuária que os guiavam pela história, eram eles meus eternos.

escrito em 05/08/09

Mães



Sabia que todos desejavam o menino, mas gestava a mulher sem ter dúvidas, o pai com certeza não iria gostar, muito menos o marido, mas ela sabia até a cor dos cabelos de sua filha, esperava ansiosa. Guardava em si os tensos momentos da fuga em sua mãe. Viviam com muita dificuldade, valia a sobrar e a primeira continuada iniciando falar, trabalhavam sem cessar. Longe das irmãs e da mãe, quando houve o primeiro pequeno escape, desesperou-se em silêncio foi um momento de solidão cortada que ficaria marcado no corpo de ambas para sempre, ainda teriam que coexistirem por cinco meses e a cada escape mais o pânico invadia o ar. Nos últimos três não teve mais jeito, enquanto o marido estava fora, saiu um pouco mais do que o de costume e teve que às pressas procurar, na sua solidão, o médico da cidade, teriam que ficar em repouso absoluto até à hora da chegada. A menina nasceu com a estrela, como disse quem a tirou, de cara para o mundo, verdadeira, cheia de coragem, e os olhos, ah! E os olhos... A mãe emocionou-se quando a viu, o próprio pai, sim, a doce continuada. Com a filha desta, da doce continuada, também não foi diferente, ainda mais por acreditar que a própria mãe não a havia desejado deste gênero. Como conduzir este efeito sobre a própria, de forma certeira, não podendo haver dúvida, ou a loucura da antiga sensação poderia retornar. Por decreto, tudo azul foi definido. O corpo à pressão do caos foi colapsando ambas e de forma abrupta, a menina estimulou a aceitação do outro, do pai. A doce, da doce continuada, sentia dores profundas e sabia, em seu corpo, que também causaria a mesma cara pálida de não ser do gênero certo. O irmão desta teve outra sorte e também teve sua continuada, com esta também não foi diferente, a mãe também acreditava não poder ter laços intrínsecos com mesmo gênero e tal crença a levou aos escapes, a doce do doce da doce continuada quase não suporta a perda de tanto e às pressas foi retirada antes do tempo de seu teto. Existiam em seus corpos os registros tatuados de todas elas, em seus contínuos tetos, o tolo medo de serem rejeitadas por não serem o que não deveriam ser, às levaram a crer que haveriam de agradar, ou lutar contra isto, suas vidas inteiras até que aceitassem-se livres e integras para construírem os próprios tetos amores e não sobrasse mais espaço para o medo em vão.

feito em 09/09/09

6.12.09

Encontro Ternura


A pouco estive com a ternura, cada mensagem invadia meu corpo em ondas suaves e lágrimas caiam delicadamente sobre meu rosto. Disse belezas sobre o Universo e nossos corpos, que tudo é composto de cor, número e som, e também, que nossa máquina deve mover-se através do mais puro amor em sintonia com o quarto poder, a força da natureza. Ouvindo as doces palavras fui avaliando meu comportamento e próprio amor, confesso que fiquei feliz com o resultado, com a maneira que nutro meus afetos, com minha sincronicidade com a natureza e, principalmente, por não fazer distinção e nem exigir das pessoas qualidades que elas ainda não possuem. Posso me considerar uma milionária quando olho minhas amizades e vejo que respeito e amo seres tão diferentes. Cantamos juntos e por fim nos abraçamos, todos nós, um por um, dizendo ao pé do ouvido: eu te amo. Saí carregada de uma energia sutil, cheia de esperança e tocada por cada abraço-ternura. Para quem acordou magoada essa foi uma grande vitória. Vamos lá! Como diria a Mari,“quem ta comigo me acompanha!”

Recolher coração


Estamos no final de nossa segunda década e de lá para cá já fomos muitas. + intensas... + presentes... + difíceis... + amorosas...- fugazes... - ariscas... - sutis... De inimigas vulgares à salvadora humanas, sim, nós já fomos todas estas. Nos últimos tempos meu amar loucamente me fez vacilar, transbordar. Estar presente mais que o digerível e deste então minha maneira intensa e exagerada de estar no mundo causa julgamentos desnecessários e oportunidades cruéis. Se assim convém ocupo lugar de algoz e deixo-as + yin ou + vítimas, mesmo quando palavra nenhuma sai boca afora blasfemando verdades. Errar é imperdoável, nem quando se admite e transforma-se folha seca e broto grão. Hoje, meu coração leonino suscitou magoado e aqui permanece jazz. A traição a mim mesma por permanecer ali, disponível, exposta, como Leminski quando dizia “ ...Serei tanto e tudo e todos. Vais ter nojo de eu ser isso. E estarei a teu serviço. Enquanto durar meu corpo. Enquanto me correr nas veias. O rio vermelho que se inflama. Ao ver teu rosto feito tocha. Serei teu rei, teu pão, tua coisa, tua rocha. Sim, eu estarei aqui…”. É... Este estar aqui acabou me rompendo as veias e tornando a digestão trabalhosa. Vontade que às vezes assola de voar, sair por aí esquecendo da importância cotidiana e da dedicação aos afetos. Simplesmente voar, ser ex-estranha como o poeta e partir, como sempre faço, recolher acampamento e marchar com pressa para o estar ponte de si. Lá vou eu de novo, misturar-me à multidão para ver o mar, recolhendo-me em último ato, só.

5.12.09

Loucura frenética de sociedade que se perdeu na briga pelas palavras:




Eu na “ocupação” e você chama de “invasão”;
Você com “mensalão”, eu sem um “tustão”;
Busco “união”, você “solidão”;
Eu seu “irmão”, você meu “patrão”;
E assim seguimos,
distintos de Alpha Beto,
eu sem “educação” e você sem “coração”.
Que tal o “meu perdão” em troca do seu “pão”?
Ho ho ho!!! O “Natal” é nosso!!! Aha! Huhu! O “Natal” é nosso!
Que venha a Copa! À bola da vez!

obs: colagem com fotos minhas e de Antônio Brasiliano

4.12.09

Experiência horóscopoca


Segundo consta a base astral virtual, uma combinação estapafúrdia fez de mim o que restou. Quando o leão foi ascendido pelo touro, não o sentado, obviamente, uma “força muito poderosa, de princípios firmes”, trouxe a minha vida uma rígida, ou ridícula teimosia que me conduz a manter-me no caminho mesmo percebendo que perdi o desvio indicado. Isto explica minha permanência em estados sonâmbulos e em meio burocrático. Não devo me preocupar, pois foram muito claros quando afirmaram que, o orgulho leonino somado a teimosia taurina, darão a força necessária para que uma grande força de vontade surja e assim conseguirei materializar meus desejos. Se entendi bem, obterei a redenção dos dois de meus piores egos e trabalharei como uma mula cega e motivada. Não precisem se preocupar, a firmeza de minha personalidade transmite uma aura tão confiável que terão a certeza de estarem seguros. Após detalharem cada trágico trajeto destino apontaram “meu defeito natural”: a preguiça. Aí perdi as estribeiras, além de ser uma mula cega e motivada sou chamada de “mula preguiçosa, sô!”. Minha alma Saltimbanco saltou aos pulos: que que tão pensando? Que sou a velha malandra da praça que trabalha e trabalha de graça? E não é que acertaram mesmo! Ah! E tem mais, não foram “sós” meus egos que apontaram não. Sabe o que disseram de alguns de vocês? Que muitos têm inveja! Não se preocupem, segundo meu guru e amigo Fausti, já quase Dr. Fausto, só tem “in-veja”, quem pôde “ver-dentro” e já pode ser e ter o que desejou. É isso aí, quem in-vejou se deu bem! Eu não, pelo visto tenho que carregar “o pão, a farinha, feijão, carne seca, limão, mexerica, mamão, melancia, a areia, o cimento, o tijolo, a pedreira”, enfim, Hi-hooooooooo!

Pequeno Dicionário de Deslirações




Pequeno Dicionário de Deslirações, um trabalho da artista Cibele Lucena, um livro-lugar-blog onde podemos “deslirar”, como o movimento do lírio rumo ao pólen, para dentro de si mesmo. A construção de um espaço para a liberdade de dar nomes, sem tirar os pés do chão e mesmo assim, alcançar as estrelas. Oportuno momento de reflexão ante a reforma da própria língua em sua proposta de unificação. Um convite è própria “desliração”, ao sutil, ao canto dos pássaros, ao “passarares”. Enfim, uma poesia-objeto fruto de um processo de “solitação” que vem para “presentificar” a “iluminança”. Onde temos a plena certeza que “confianto” podemos “passarar”. Às “delirirações”!

algumas de minhas preferidas:

Solitação

So.li.ta.ção (lat solitactione) sf 1 Faculdade ou exercício de resguardar o poder da solidão; 2 Modo peculiar de ação: dar passagem aos lugares fixos é um outro lugar para se ir; 3 Título de percepção sutíl: fica decretado que o silêncio está sempre à disposição; 4 Maneira como podemos ser, em interação.
do pequeno dicionário de deslirações 0 Recados


Pre.sen.ti.fi.car (lat praesentificare) vint 1 O estado presente do corpo no espaço e no tempo; 2 Abertura sensível para relacionar-se com densidade; 3 Inventar formas singulares de existência; Afirmação do dissenso; 4 Ato de ignorar recomendações gerais e protocolos; 5 Mobilidade interna; colocar-se disponível; 6 Não reduzir a si próprio nem a outrem; ser; 7 Não lutar contra o vazio; sentir-se; 8 Estado manifesto de criação; inevitável metamorfosear-se; 9 Ter um par de asas.
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visitem o pequeno dicionário de deslirações: http://pequenodicionarioilustrado.blogspot.com/

Meu presente-desliração à artista Cibele Lucena:

Renascer nos custa, quase que invariavelmente, tudo. Quando acontece é sempre uma luta ao destino despego. Fecho os olhos e lembro de ti assim, floresta integra, o querer e saber estar em si, sempre amanhecendo, possuída de amor e entrelinhas sutis. Seu esforço por humanizar-se é vigoroso e, como sabes, muitas vezes à mim inútil, esta minha maneira de te olhar transparente é mesmo de abraço na ponta dos pés ou o bater asas borboleta chapada. Te ver transformar a terra e encarnar planeta me trás sensação Fumaça, força jato que chega gota, aquilo que é seu não pode ser tirado e o espaço o é em Ci. Outro permanece ainda, um lapso presente não causa rupturas passado e sim erupções futuro. À morte sensação realiza impermanência , aquela em que água-coca brota silenciosamente e por fim vai carregando montanha. Espero que momento tromba d’água seja cumprido no horizonte amor, quando a Sol se põe e voa. À chapada sensação, onde tudo que acontece dentro transborda fora e o que se move fora penetra dentro, ao ser e estar em si. Ao amor e ao enfim, assim, trans lúcida, transparente.

“Abra as portas e as janelas, por favor, que o pior da tempestade já passou”



Chovia tão forte dentro que o temporal do lado de fora não podia me assustar. A cidade estava congelada sob raios e baldes d’água que caiam sem cessar. Éramos idênticas em meio a caos e pânico. Do alto da torre minha visão era privilegiada, ou pelo menos, a melhor que se pudesse ter em meio tempestade. O meu eterno aguardar ensejava acabar ali, entre passadas abruptas e espasmos febris. Seu atraso foi providencial, uma espécie de punição antecipada, quase medieval; tortuosa. Então, como que em câmara lenta, deu-se início o balé, um esquivar-se sem tamanho que acelerou ainda mais as gotas de fora. Sob pingo fui vendo o descompasso do tempo, lá estava a casa, no lago, em maré cheia. As palavras corriam em rédias curtas e os corpos quase que imobilizados começaram a ferver, evaporar, queimar, enlouquecer. Não seria possível transpor o que estava escrito e para estes o real era desafio quase intransponível, sem tamanho. Embrenharam-se em direções opostas na chuva, já mansa e triste, e perderam-se pela cidade alagada, retida, cheia de tudo, atolada, arisca. Lá vai ela, como eu, soberba impermeável que foi carregada por tromba d’água ao coração humano, ou melhor, urbano. Para receber alguém terei que sair do alto da torre, desobstruir o trajeto das águas, deixar minha periferia circular, fazê-la florir, cuidar de cada célula como à tronco, sem privilégios, abrindo espaço, alargando avenida, tatuando trens, tornando meu ar respirável, fresco, prazeroso, sutil e estrelado, assim como ela, de megalópole cosmopolita à beira do esgotamento à cidade luz, acolhedora e amorosa. Ah...São Paulo, quanto mais teremos que esperar pelo despertar da consciência de nossos peptídeos? Quando poderemos tornar tufão em brisa e abrir as portas que batem sem cessar? Abramo-nos nuas, sem fronteiras, sem churumelas, sem ordens aleatórias ou “pois nãos”.