31.1.10

Realce



Surpreendente é palavra carregada de realce, cor de veludo, corte à navalha. Ser quem se é não tem custo tustão e para entender tudo isto é preciso mergulho certeiro de horizonte um. Só amando mesmo... Fala alto, abraça forte e canta esganiçando noite à dentro fazendo bar calar-se. Um exagero áspero de fazer estrelas. Já tentou tingir tecido, controlar palavra e quando o fez quase morreu sem verbo, uma loucura! Tem em si perguntas que não consegue calar e anda por aí brincando em nuvens em pleno estardalhaço. Entender que suavidade não é empalidecer lhe custou tentativas pastéis, mas como que propagando-se retorna ao extremo espectro das vibrações e arde serpentina. Nascida com lentes realce ama divinando seres luz e sem tempo vai propagando-se em partículas esperança. Espera-se que este amor ainda nos leve a além, pra lá das cidades, pra lá da miséria, pra dentro de mim.

29.1.10

Confundindo para te esclarecer



Sobre cada assunto que deparo minha mente parece disparar e navegar no universo dos novos significados. O sentimento parece confuso ao perceber tanto desejo por lançar palavras, não ao vento, em tom azul, mas amarelo Sol ou reduzida à própria essência de vermelha Lua. Ouvir Ella enquanto a profusão de consoantes expande estrelas e como sempre, sonhar, com o piano, com o gesto e com silêncio. Sinto falta da menina que inventa palavras e prossigo achando tudo o máximo, como Leminski. Tô que nem o Tom Zé, “explicando prá te confundir” e te “confundindo prá te esclarecer”. “Eu to me despedindo prá poder voltar”, boa noite passarada.

28.1.10

Bandeira d'água amor, não poça mais...



colagem realizada com fotografia de Anderson Barbosa e foto de Sampa City photoshopada

Debaixo d’água estamos todos nós. Em São Paulo bóiam todos, a união dos delegadores de responsabilidades, multiplicadores de nós em missão sabotadora. Ops! Perdão, saneadora! As palavras têm me saído trocadas nas últimas enchentes. Bem impermeabilizada sigo bravando dissertação. No final se alguém torcer vai ver o que é gota ímpeto e jorro de informação. Ups! De novo! Que informação que nada a palavra mesmo é indignação. Volto agora do respiro para mais um mergulho profundo e cada minuto desta ausência espaço será transbordada nos próximos meses. Não em forma de avalanche, nem em transbordo tissunami, o que eu quero mesmo é fazer como Sérgio Sampaio e “botar meu bloco na rua”, pois “há quem diga que dormi de toca, que eu perdia a boca, que eu fugi da briga, que eu caí do galho e que eu não vi saída, que eu morri de medo quando pau quebrou”. Gingar prá dar e vender! Molhada sigo dando bandeira, Lê

24.1.10

No coração da função dissertativa



Colagem "No coração da vovó" com foto da Vó, dona Jo, na ocupação Mauá, tirada pelo coletivo Garapa, mapa de Sampa + coração de jesus.

Não há mais tempo, tudo se esvai a mercê da confiança. Se o medo aparece, como vento forte que surge do horizonte, empalideço e sinto todo sangue quase arrebentar o coração. É assim, sempre assim, quando o medo aparece. Deixar-se culpar agora pode ser mais perigoso ainda e causar engessamento. Recordar dos por quês e procurar a fé, onde ela esteja. Deixar a acusadora de fel tirar as sandálias de tira e chacoalhar cada célula na esperança de encontrar o encaixe, a peça perfeita. Acontece que está também foi corroída e banguela procura outros cacos semelhantes para então pertencer. Mais uma vez recorrer ao empreender, ao trabalho ardo, ao correr sem tempo para se perguntar como vim parar aqui e finalmente cumprir tarefa dissertativa. Em pânico, lutando contra própria rigidez sigo sorrateira, voluntariosa e arisca, cheia de tantas regras e consoantes desnecessárias. No fim, boquiaberta, só há visão de começos, sobras de caos à procura do fio da meada. Ainda vai chegar o dia em que compreenderei minha metodologia. Até lá, sigo assim em busca da compreensão. Porque há tantos vazios especulativos e demanda sem-teto à habitar se a nossa norma união é, se não, a função social da propriedade?

15.1.10

Ocupassión



Neti, liderança do movimento dos sem-teto do centro em busca de lar quando já se é e eu,buscadora de ser-teto e centro, quando já se pode, nos aprofundando na linguagem, maturando, trocando, crescendo, revelando-nos. Respeito pela mulher suave e forte que compartilha sonhos e afetos e, não tem medo de lutar. É, minha amiga, você tem toda razão: "quem não luta tá morto!". Que possamos contagiar o mundo com nossa Ocupassión (ocupação em espanhol ou, para nós, ocu-pasión, ato ou efeito de ocupar compaixão com paixão.

14.1.10

Porque eu amo você


Esta colagem = foto de Antonio Brasiliano (sem-teto no centro de São Paulo) + pulmão + foto aérea de São Paulo

Os primeiros passos da minha própria ruralização já foram traçados a caminho da Mantiqueira, no esplendor da terceira montanha, plantarei nas sagradas entranhas, meu trabalho com todo louvor. Nada melhor que este horizonte de alturas para me estimular aos últimos passos deste outro, que se encerra próximo, a centralização do olhar, a urbanização dos conflitos. Saio forte, com experiências e laços cativados, seguros por terem sido feitos com espontaneidade. Traço neste momento o texto dissertativo sobre a história de um conflito que é capaz de fazer qualquer um de nós pensar. A real importância para alma dos processos de coletivização e, com isso, do auto-amor. Quando escutei da doce Tia Jô, sua história de vida, pensei na humanidade inteira, nos caminhos nossos todos e, por conseguinte do sábio biólogo-filósofo Humberto Maturana.
Para ele, só existe ética e valor quando o outro realmente existe para nós, o que ele mesmo chama de amor. Quando a doce Jô me contou sua trajetória, tudo se fez claro e a real importância do meu próprio fazer este trabalho-pesquisa-mestrado também. Com suavidade espontânea de líder mulher que é, me revelou quem era e o que se tornou com bravura. Saiu no Norte e em São Paulo veio direto para periferia, onde, segundo ela, tinha medo dos próprios vizinhos, pois ali nada é de ninguém, “cada um por si!” Viu sua família ruir aos poucos até tomar ciência das ocupações aos edifícios vazios no centro e da luta por moradia.
Depois que entrou no primeiro prédio nunca mais sua vida foi à mesma. O medo deu lugar ao amor, pois foram sobrevivendo e aprendendo a respeitar um ao outro até se darem conta, após alguns anos, que já eram uma grande família e não mais estavam sozinhos. Disse-me de suas dificuldades e aprendizados na vida, por fim, com os olhos mareados revelou que o mais importante para ela é sabermos olhar o outro, ter amor para isso justamente porque é daí que ele surge. Ela não se sente mais só e, como o sábio teorizou, o processo de coletivização trouxe a ela o auto-amor. Quando eu sentir o perfume daquelas lindas mulheres, sempre tão arrumadas, do movimento dos sem-teto, no cenário ocupação, vou poder vê-las no auge de seu amor, justamente por terem aquilo que qualquer são deveria desejar, união fraterna, respeito mútuo e amor-próprio.
Depois de tanto ler, observar, conhecer pessoas, me relacionar, escrever freneticamente, o que trago para vocês é apenas o que daí se faz o essencial. Para construirmos uma cidade mais humana, relações de respeito, paz urbana é necessário, antes de qualquer coisa, olhar para o outro e então amar. Temos as leis mais avançadas do mundo, o Estatuto da Cidade, o Estatuto da Criança e do Adolescente, enfim, temos um equilíbrio de forças sistemáticas, o que nos falta é simplesmente isto que as preenche, saber que estamos todos juntos e que o funcionamento disto tudo nos pertence.
O convívio com estas mulheres líderes e seus exércitos marcaram meu corpo para sempre. E meu agradecimento está nas minhas ações, nas minhas palavras e posturas. Eu aceito você e então não preciso agir como um tigre, que só pode viver com ele mesmo, porque tem medo. Porque ser amoroso não é ser frágil e nem ridículo, porque eu amo você.

12.1.10

Saudades Vermelho.G de Amarelo.P


Quando os caminhões cruzaram naquela tarde, o amarelo e o vermelho, um tom intenso de por do sol da chapada se fez para sempre. Àquilo já vinha transcendendo há muito tempo, desde que se encontraram na estrada, com melissas negras, jamais pensaram em se separar. Eram opostas de um mesmo eu, coisa de doido, um tal de uma completar a outra que nem te conto! Admiração então nem se fala, rasgavam elogios num apoio mútuo de encher qualquer coração, quando não estavam trocando versos se entregavam ao fazer suas coisas num silêncio acolhedor. Enquanto uma mergulhava no entendimento de suas águas, num eterno conter e despejar, a outra fazia a bruma dos caldos eterizar os ambientes. Podia-se dizer que entre o vermelho e o amarelo existia um elo tênue, como antes anunciou o próprio tio, maravilha de dar gosto. Quando diziam que se conheciam há quase duas décadas caiam na gargalhada pela pouca conta, nunca ignoraram o eterno e disso faziam suas canções, um verdadeiro prazer de estar, lar itinerante que revelava com nitidez a real lucidez de se estar em si. Espero-te enluarada cara amiga solar! Saudades vermelhas de ser-lar amarela.

9.1.10

A Bocó Capital e Seu Corpo Sensacional



Hoje li um texto muito interessante da antropóloga carioca Mirian Goldeberg sobre as mulheres de classe média e resolvi trazer a tona para nós algumas das reflexões:
Na vida moderna, ser mulher e voltar para casa não é uma opção, já que provedoras agora somos também. Ser bem sucedida no amor, como mãe, revolucionária e no mercado de trabalho nos exige mais do que qualquer tempo integral. Ao caminho da exaustão partimos sem precedentes até o discurso da vitimização, onde a poesia perde-se no vento e as árvores não dizem mais nada. A decadência do corpo social engessado de tanto botox, ou bocós, vai nos tornando invisível ao ponto de, ao contrário, nos desqualificar. Ter cabelos brancos à mostra e banhas protetoras é hoje sinônimo de desleixo e preguiça. Que pena! Sem um procedimento cirúrgico é melhor procurar um psicanalista bem alternativo, pois aquela Barbie na poltrona em frente com certeza não leu a bula de seu medicamento. Arrancando todos os pelos pubianos para parecermos menininhas ou deixando um bigodinho ditador vamos esquecendo nossas livres divas brasileiras, mulheres que fizeram história por serem o que são, sensuais e criativas. Imaginem só chegarmos ao 60 querendo termos 20, só mesmo cultuando um mundo masculino. Competir, competir e competir, já me sinto preguiçosa só de pensar em encarar um mundo feito por mulheres que querem ser como estes homens. As espertas banham-se no discurso da fragilidade e para torná-los mais seguros parecem sempre estar por quebrar. Delicadeza! Por favor! Queimar sutiã não dá mais não é! Hoje temos silicone pra tudo. Pra ser poderosa e líder brasileira têm que se fazer plástica ou podemos admirar a beleza da floresta sem decotes bruscos? Depois que o marketing político virou aparência cívica passei a me questionar sobre certos requisitos profissionais. Teria eu que enxugar meu discurso para atraente e melhor bem sucedida ser? Minha máquina capital esta fora do mercado de luxo atual e não se compram mais arte renascentista há vários séculos. Como de modernidade acho que estou bem cheia, ou melhor, vazia, como os discursos e os consensos cheios vazios políticos o jeito é eu rever meus conceitos ou comprar uma piruleta mágica. Pior do que isso, para esta sociedade avançadinha, só mesmo o fato de não estar casada ou não ter um amante poderoso. Não têm filhos e não são as melhores neurocirurgiãs do país? Incompetentes! Sem um “capital marital” para telefonar varias vezes por dia, não possuo pacote família feliz e minha vida ta quase sem sentido mercadológico. Escrever, escrever, criar, estudar, paquerar, orar... Realmente, fora de brinca, como diz um amigo meu! Se eu tivesse companheiro para competir a esta hora o que eu faria? No mínimo eu poderia causar inveja ao dizer: sou gorda mais tenho marido! Ou: não tenho marido mais pelo menos sou magra! Só rindo mesmo deste padrão que compramos tão caro ou lamentando-se por ser gostosa além da conta e estar sem parceria afetiva constante. Vamos meninas, como dizem por aí todas somos meio Leila Diniz! Animem-se ainda temos um mundo para construir, um mundo mais amoroso e igual onde nos fins de tardes poderemos até tomar uma chuva ócio criativa e percorrermos nossas curvas com devaneios, cravos, canelas e o que mais te ventarem por dentro!

7.1.10

Escarlate O' Rara


No momento escape qualquer pista ou rastro é o suficiente. Viu? Eu não te disse? Que se Maria me visse virava tolice? Não deu pra ir... “Pneu furou não sei trocar!”. Minha mãe sempre falou para na dúvida mantermos o charme, mas será que só o tornar-se charme já não é questão de dúvida? Entender o que é desapego custa-nos sempre tudo, já que só percebemos o que tem valor quando colocamos preço nas coisas. Em nós então nem se fala... O que seria desapegarmos de nós mesmos e não colocar valor onde se têm? Já discutem os velhos sábios desde a origem dos tempos enquanto nos esquecemos no caminho, ali, além... Para alguns, ser negativo, ou pessimista é essencial, a própria admissão da condição humana, “que puxa!”. Para outros, como eu, a esperança sempre mergulhada em banheira positiva e quente é mais cruel, pois põe a mãe frustração ao cabo da própria filha, expectativa. Minha linguagem caótica ta caquética e mesmo sonhando com futuros parágrafos ainda me vejo tropeçar em virgulas. Os senhores do apocalipse que me perdoem, mas pecar juras secretas às vezes é fundamental, no mínimo sinto meu principal músculo quase arrebentar, mas não mais o entupo de medo blasé. A união de uma percepção visual provocada pela ação de um feixe de fótons com o mover-se na ação, o significado de agir com o coração, a cor na ação. A coragem de relacionar-se com o espectro visível e perceber cada comprimento de onda, mesmo sendo vermelha e estando na extremidade ampla. Encarnada escarlate, chamando atenção e sendo extravagante no aguardo da inevitável união fraterna onde todos tornarmo-nos cor única, luz e então, "nunca mais sentiremos fome novamente".

5.1.10

caipirando-me no dez


Quanto se sente uma compressão sobre o corpo, um aperto esquisito, como se tudo estivesse em suspense, com a nuca dormente e o ventre expandido, ou quando colocamos força de mais nas extremidades e já não podemos mais racionalizar é chegado o grande momento do caos. Nada será plácido como antes porque estamos separados de nossa capacidade de cautela e a prudência não se faz mais necessária, divagamos-nos nus, entorpecidos e sós. É justamente na ressonância, no encontro, no minuto antes da história se seguir que tudo transborda. A questão já não é mais se isso pode ser bom ou ruim, pois o aparelho cérebro esta quimicamente avariado, como um relógio Alice, desvairado. Agora já é tarde, os ponteiros avessos percorrem sentido contrário e em gota oceânica retornamos às marés do acaso a mercê das circunstâncias, como sempre estamos e não percebemos. Num é mais o outro e nem sua presença que determinará os acontecimentos, pois tudo já se faz inteiramente na forma de derivações, fractais borbulhantes de mudança peptídica e corporal, como os poetas que ardiam no plural. Um retorno ao correr vinho e encarar-se sombra nas próprias entranhas carne viva, colocar-se víscera e “deslirar” como nossos antepassados fizeram em suas eras leônicas. Meu big bang umbilical na própria dualidade, no minuto véspera mergulho dissertação e laços quânticos. Dois mil e Dez, aqui vou eu, para o alto e avante diante da sala da justiça, passarinhando em nuvens e, como sempre, sonhando com “trigais dançantes”, caipirando-me.