24.5.10

Gonçalvando-me com o poder das palavras



Texto escrito dia 13 de maio de 2010, antes do plano divino reconfigurar-se por completo. Aquarela minha

Andando… Dia após dia no devir de entender estes homens circulando como baratas tontas em busca de si mesmos. Em raros e inesquecíveis momentos quando os vejo olhar o próximo é mesmo de se arrepiar. No fundo creio que estas lembranças são as que permanecerão no momento afinal de contas e isso, logicamente, muda as coisas de lugar.
Penso em tudo que me tornei quando honro meus antepassados através do cotidiano. Diferente de alguns e iguais a outros sigo em busca dos caminhos do meio, na corrida desenfreada para sair dos extremos. Apegada a poucas coisas, mas a estas de maneira significativa, como, por exemplo, viver apaixonadamente, quando borboleteio causando estranheza nos que são tocados pela maré das circunstancias e, não raramente, desperto seus tigres famintos e medrosos. Cegos e, muitas vezes, loucos, com uma raiva irracional ancestral, às vezes, diante de tanta intensidade me falta espantamento ao observar o transbordar.
O que mais gosto mesmo é de trocar olhares profundos e escutar palavras de doçura dos que têem seus egos amainados pelo amor e, portanto, tornaram-se simples, já que podem viver auto-organizados em comunidades humanas e comunicam-se espontaneamente.
Juntando papeis e propagando sonhos vou migrando pelas estradas do interior interagindo e procurando estar presente em espírito, corpo e mente na paisagem. Composta de partículas, como tudo o mais, tento identificar-nos além e encaro o desafio de tornar-me xícara acolhimento, colocando as informações demasiadas em lugar certo para que caiba o novo, a bruma. O observar da xícara com o líquido quente revela o tal: se está cheia de mais o evaporado não tem seu minuto para se aglutinar e se desvai fraco e dispenso, se está vazia de mais, não tem forças e conteúdo para alçar vôo. É preciso esta preparada, na medida certa, para que tenha espaço, conteúdo e força de transformação e então, lugar de recepção. Este sim, aconchego que não é cativeiro.
Frequentemente me via repleta, inflada, ou melhor, atolada em tantas informações, enlatada entre leituras, vivencias e imagens em demasia. Capturar nunca foi um problema para mim, nem mesmo metamoforsear o depois, mas, apesar de criativo, este diferente também nascia complexo. O minimalismo nunca foi meu forte, segundo uma amiga muito querida, de minimalista eu só tinha saias quando éramos adolescentes e apoteávamos na orla carioca.
Pelo próprio linguajar notam-se quantas palavras habitam este caos que, em hipótese alguma, anda atrás de ordem. Comecei escrevendo Haicais e hoje, mais uma vez, estou em busca deles, agora em lugar contrário, em MimKais. Quase como olhar um gramado contra o sol em colina de fim de outono, com a luz já na tangente. A princípio vemos aquele verde único, vibrante, mas, logo após a primeira piscadela notamos cada mico folha com seu verso iluminado transparente e pasmamos na primeira rajada de vento, quando dançam, como nós ao olharmos.
Este amadurecimento imaginético é fruto de uma espécie de silêncio que adquirimos com trabalho e tempo. É o poder de parar a mente por alguns segundos e permitir-se apenas movimentar os olhos na paisagem, respirar e notar-se pelo corpo, sossegando o raciocínio e pondo-se para fora. Meu corpo é mimkais, onde sou marcada pelo viver, onde posso me encontrar, em casa, na alma-corpo, no lar onde habito-me, repleta ou despida de vestígios, desencontrada ou em si, em solitude ou populada, serena ou arisca, selvagem e civilizada, enfim, aqui, em casa, vivo no mar das possibilidades e escolho à cada novo toque para onde vou ser e levar mimkais viventi.
Quando me recolho para escrever palavras e imagens é exatamente no intuito de antropofagiar o que existiu em mimkais, uma espécie de entendimento, um querer dizer que aqui agora ficou assim, sem esquecer de estar sempre à espera das próximas mudanças, ou melhor, oportunidades.
Olho para minhas rugas começando a surgir lentamente e lembro do meu primeiro amor. O que era aquele sentimento único, porque as avalanches surgem quando nem imaginamos ser possível existir e, o mais relevante, o que eu faria hoje se mais uma vez fosse possível oportuná-lo. Claro que tirando o óbvio de ser menos tola, menos prepotente e eterna, mesmo sabendo que deveria querê-lo menos, e não falo da pessoa, e sim do amor, ainda noto-me buscando extremos, vacilando na capacidade de crer no caminho do meio, ou ainda muito ignorante ou soberba para tal.
Confiar no plano divino me deixa assim, crente que a qualquer momento Mimkais vai receber um OutroNau e compartilharemos preciosidades quando em cotidiano. Afinar posturas e atitudes de ser no espaço-mundo, caminhar em passos próximos e espelhar sombras sem sobras de azar ou sorte, apenas dedicação e avesso, verso e prosa, construindo lembranças cardíacas, visto que podemos tanto na falta da necessidade de. A paisagem modifica-se com o trajeto da luz, a força do vento, da temperatura, do homem, da dor e do amor, não é para autentificarmos o que vemos que queremos compartilhar é porque já podemos fazê-lo sem evasão ou o oculto medo de ser querida.
Tons soturnos enebriam o instante das coisas, que tentam inutilmente permanecer imóveis, se nem as rochas crêem na fugas estabilidade quiçá nós, descobridores. Quem de nós optaria tornar-se ilha quando podemos navegar, zarpar para novos horizontes e renascer. Ninguém vai chegar a lugar nenhum sozinho visto que somos humanos e como formigas construímos e existimos em sociedade.

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