14.1.10

Porque eu amo você


Esta colagem = foto de Antonio Brasiliano (sem-teto no centro de São Paulo) + pulmão + foto aérea de São Paulo

Os primeiros passos da minha própria ruralização já foram traçados a caminho da Mantiqueira, no esplendor da terceira montanha, plantarei nas sagradas entranhas, meu trabalho com todo louvor. Nada melhor que este horizonte de alturas para me estimular aos últimos passos deste outro, que se encerra próximo, a centralização do olhar, a urbanização dos conflitos. Saio forte, com experiências e laços cativados, seguros por terem sido feitos com espontaneidade. Traço neste momento o texto dissertativo sobre a história de um conflito que é capaz de fazer qualquer um de nós pensar. A real importância para alma dos processos de coletivização e, com isso, do auto-amor. Quando escutei da doce Tia Jô, sua história de vida, pensei na humanidade inteira, nos caminhos nossos todos e, por conseguinte do sábio biólogo-filósofo Humberto Maturana.
Para ele, só existe ética e valor quando o outro realmente existe para nós, o que ele mesmo chama de amor. Quando a doce Jô me contou sua trajetória, tudo se fez claro e a real importância do meu próprio fazer este trabalho-pesquisa-mestrado também. Com suavidade espontânea de líder mulher que é, me revelou quem era e o que se tornou com bravura. Saiu no Norte e em São Paulo veio direto para periferia, onde, segundo ela, tinha medo dos próprios vizinhos, pois ali nada é de ninguém, “cada um por si!” Viu sua família ruir aos poucos até tomar ciência das ocupações aos edifícios vazios no centro e da luta por moradia.
Depois que entrou no primeiro prédio nunca mais sua vida foi à mesma. O medo deu lugar ao amor, pois foram sobrevivendo e aprendendo a respeitar um ao outro até se darem conta, após alguns anos, que já eram uma grande família e não mais estavam sozinhos. Disse-me de suas dificuldades e aprendizados na vida, por fim, com os olhos mareados revelou que o mais importante para ela é sabermos olhar o outro, ter amor para isso justamente porque é daí que ele surge. Ela não se sente mais só e, como o sábio teorizou, o processo de coletivização trouxe a ela o auto-amor. Quando eu sentir o perfume daquelas lindas mulheres, sempre tão arrumadas, do movimento dos sem-teto, no cenário ocupação, vou poder vê-las no auge de seu amor, justamente por terem aquilo que qualquer são deveria desejar, união fraterna, respeito mútuo e amor-próprio.
Depois de tanto ler, observar, conhecer pessoas, me relacionar, escrever freneticamente, o que trago para vocês é apenas o que daí se faz o essencial. Para construirmos uma cidade mais humana, relações de respeito, paz urbana é necessário, antes de qualquer coisa, olhar para o outro e então amar. Temos as leis mais avançadas do mundo, o Estatuto da Cidade, o Estatuto da Criança e do Adolescente, enfim, temos um equilíbrio de forças sistemáticas, o que nos falta é simplesmente isto que as preenche, saber que estamos todos juntos e que o funcionamento disto tudo nos pertence.
O convívio com estas mulheres líderes e seus exércitos marcaram meu corpo para sempre. E meu agradecimento está nas minhas ações, nas minhas palavras e posturas. Eu aceito você e então não preciso agir como um tigre, que só pode viver com ele mesmo, porque tem medo. Porque ser amoroso não é ser frágil e nem ridículo, porque eu amo você.

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